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Guia da Saúde

Chá antes de cirurgia: 7, 14 ou 15 dias?

Em 85 monografias do Formulário de Fitoterápicos, a palavra “cirurgia” aparece em quatro. É pouco — e o que essas quatro dizem é ainda mais estranho do que o silêncio das outras 81: cada uma estabelece um prazo diferente.

Os quatro prazos, no mesmo documento

PlantaO que a monografia mandaPrazo
Alho (FT005)“O consumo de alho pode aumentar o risco hemorrágico durante e após cirurgias. Suspender o uso sete dias antes de cirurgias.”7 dias
Carqueja (FT013)“Deve ter o uso interrompido duas semanas antes de cirurgias.”14 dias
Valeriana (FT082)“O uso deve ser suspenso 15 dias antes de cirurgias.”15 dias
Gengibre (FT085)não usar “em altas doses antes de cirurgias”sem prazo

Sete, quatorze, quinze — e uma sem número. Os prazos não vêm de um critério comum: cada monografia copiou o seu de uma referência diferente, e o documento nunca os harmonizou. Não existe, portanto, uma “regra da Anvisa” de quantos dias parar o chá antes de operar. Existem quatro frases isoladas.

As advertências completas de cada uma estão em gengibre e remédios e carqueja e remédios.

O buraco: a planta que a lista brasileira não vê

O ginseng (FT055) tem monografia no Formulário. Sua seção de advertências fala de hipersensibilidade, gravidez, lactação, menores de 18 anos, duração de até três meses, insônia e desconforto gástrico. Não registra nenhuma interação medicamentosa e não menciona cirurgia.

Já a revisão de Ang-Lee, Moss e Yuan, publicada na JAMA em 2001, lista o ginseng entre as oito ervas que podem ser um problema no perioperatório — e o cita duas vezes: por sangramento, ao lado do alho e do ginkgo, e por hipoglicemia, sozinho.

As oito da revisão: equinácea, efedra, alho, ginkgo, ginseng, kava, erva-de-são-joão e valeriana. Dessas, apenas três têm monografia no documento brasileiro, e apenas duas trazem alguma linha sobre cirurgia. Ausência de menção não é ausência de risco — é ausência de avaliação.

Os três problemas diferentes que a cirurgia junta

A revisão organiza o risco perioperatório em três mecanismos, e vale separá-los porque a conduta não é a mesma:

  1. Sangramento — alho, ginkgo e ginseng. É o mecanismo hemorrágico, o mesmo que aparece nas 24 monografias descritas em chá e anticoagulante. Na cirurgia ele deixa de ser um exame deslocado e vira campo operatório.
  2. Anestesia potencializada — kava e valeriana, por potencialização do efeito sedativo dos anestésicos. Não é sangramento: é despertar tardio e sedação além da planejada.
  3. Metabolismo acelerado — a erva-de-são-joão, que “aumenta o metabolismo de muitos fármacos usados no período perioperatório”. Aqui o problema é o oposto: o anestésico, o analgésico ou o antibiótico chegam abaixo da concentração esperada.

O terceiro mecanismo é o que a monografia europeia converte em instrução direta: “Antes de cirurgia eletiva, possíveis interações com produtos usados na anestesia geral e regional devem ser identificadas. Se necessário, o produto fitoterápico deve ser descontinuado.”

O único prazo com base biológica declarada

Todos os prazos brasileiros são citados sem justificativa. O documento europeu é o único que explica de onde tira o seu:

“A atividade enzimática elevada retorna ao nível normal em até uma semana após a interrupção.”

Uma semana é o tempo de o fígado desfazer a indução. Esse é um prazo derivado do mecanismo, não herdado de uma referência antiga — e é por isso que ele vale como raciocínio, ainda que se aplique a uma planta específica.

Repare que os prazos brasileiros de sangramento (7 dias para o alho) e de sedação (15 dias para a valeriana) respondem a mecanismos completamente diferentes desse. Não há motivo para esperar que um único número sirva para os três.

O risco que quase ninguém menciona: parar

A conclusão da revisão da JAMA pede aos médicos que estejam preparados para “prevenir, reconhecer e tratar problemas potencialmente sérios associados ao uso e à descontinuação das ervas comuns.

A palavra “descontinuação” está lá de propósito. Quem toma um indutor enzimático há meses tem os outros medicamentos ajustados a um fígado acelerado; ao parar, as enzimas voltam ao normal em dias e as concentrações sobem. Chegar à cirurgia no meio dessa transição é chegar com um parâmetro em movimento — que é justamente o que a suspensão pretendia evitar.

Por isso a decisão de parar, quando o uso é crônico e há medicamento contínuo junto, também é decisão clínica.

O que fazer

  • Leve a lista de tudo que você toma para a avaliação pré-anestésica, incluindo chá, cápsula e tintura — e diga há quanto tempo e em que quantidade. A revisão da JAMA recomenda que o histórico de uso de fitoterápicos seja obtido e documentado explicitamente.
  • Se a sua planta não está entre as quatro do Formulário, isso não significa liberada: significa que ninguém avaliou, e a decisão volta para a equipe.
  • Não pare nada por conta própria na véspera. Prazo curto demais não protege, e prazo decidido sozinho pode deslocar outro medicamento que você usa.

Sangramento anormal, hematoma sem trauma ou sonolência excessiva no pós-operatório precisam ser comunicados à equipe. O mapa das outras classes de interação está em interação entre chá e remédio.

Perguntas frequentes

Existe um prazo padrão para parar chá antes de operar?

Não existe no documento brasileiro. As quatro monografias que tocam no assunto dão prazos diferentes entre si — sete dias, duas semanas e quinze dias — e a quarta não dá prazo nenhum. Quem precisa de um número para o seu caso tem que perguntar na avaliação pré-anestésica.

E as plantas que não são citadas em nenhuma monografia?

Ausência de menção não é liberação: 81 das 85 monografias simplesmente não abordam cirurgia, o que significa que o tema não foi avaliado ali. O ginseng é o exemplo — não tem uma linha sobre cirurgia no Formulário e aparece na revisão da JAMA entre as ervas com risco de sangramento e hipoglicemia perioperatória.

Preciso contar ao anestesista que tomo chá?

Sim, e essa é a recomendação central da revisão publicada na JAMA: obter e documentar explicitamente o histórico de uso de produtos vegetais na avaliação pré-operatória. O anestesista precisa saber tanto o que você está tomando quanto o que você parou de tomar e há quantos dias.

Parar de repente é sempre a escolha segura?

Não necessariamente. A conclusão da revisão da JAMA fala em prevenir e tratar problemas associados ao uso e também à descontinuação. Quem toma há muito tempo e para na véspera pode chegar à cirurgia com um parâmetro em movimento — que é exatamente o que se quer evitar.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — as quatro únicas monografias que mencionam cirurgia: FT005 (Allium sativum), com a frase de que o consumo de alho pode aumentar o risco hemorrágico durante e após cirurgias e a ordem de suspender o uso sete dias antes; FT013 (Baccharis trimera), que manda interromper o uso duas semanas antes; FT082 (Valeriana officinalis), que manda suspender quinze dias antes; e FT085 (Zingiber officinale), que veda o uso em altas doses antes de cirurgias sem estipular prazo. E a monografia FT055 (Panax ginseng), cujas advertências não registram nenhuma interação medicamentosa nem menção a cirurgia
  2. Ang-Lee MK, Moss J, Yuan CS. Herbal medicines and perioperative care. JAMA 2001;286(2):208-216 (PMID 11448284) — a revisão que identifica equinácea, efedra, alho, ginkgo, ginseng, kava, erva-de-são-joão e valeriana como as ervas que podem ser um problema no período perioperatório, com sangramento atribuído a alho, ginkgo e ginseng, hipoglicemia ao ginseng, potencialização do efeito sedativo dos anestésicos por kava e valeriana, aumento do metabolismo de muitos fármacos usados no perioperatório pela erva-de-são-joão, e a conclusão de que os problemas podem decorrer tanto do uso quanto da descontinuação
  3. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Hypericum perforatum L., herba, revisão 1 (EMA/HMPC/7695/2021), seção 4.5: a instrução de que, antes de cirurgia eletiva, possíveis interações com produtos usados na anestesia geral e regional devem ser identificadas e o produto descontinuado se necessário, e a informação de que a atividade enzimática elevada retorna ao nível normal em até uma semana após a interrupção

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026