Como fazer chá: a medida oficial em gramas e minutos
Uma receita de chá completa tem quatro números: quantos gramas de planta seca, em quantos mililitros de água, por qual técnica e durante quantos minutos. É assim que o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição descreve cada uma das suas 236 formulações — e é por isso que “uma colher para uma xícara” não é uma instrução verificável.
O que a Anvisa chama de chá
Existem dois objetos com o mesmo nome. A Cartilha de orientações sobre o uso de fitoterápicos e plantas medicinais da Anvisa separa os dois: o chá alimentício é vendido em supermercado, em sachê ou a granel, e não pode trazer alegação terapêutica — nem bula, nem folheto com informação de uso. Já o chá medicinal tem “obrigatoriedade de regularização como medicamento” e é vendido em farmácia e drogaria.
A definição legal do segundo está na seção de definições do Formulário, copiada da RDC nº 1.004 de 17 de dezembro de 2025:
“Chá medicinal: fitoterápico a ser preparado por meio de infusão, decocção ou maceração em água no momento do uso.”
Repare no que essa frase carrega: um chá medicinal é, por definição, um fitoterápico — ou seja, um medicamento. E é um medicamento que só existe quando você o prepara. É por isso que a responsabilidade pela dose recai sobre quem ferve a água.
Os quatro números que definem um chá
Cada monografia do Formulário abre com uma tabela de duas linhas. Na de Cynara scolymus, a alcachofra, ela diz: folha, 1,5 g; água q.s.p., 150 mL. Depois vem a orientação de preparo: infusão, dez minutos. E o modo de usar: 150 mL, quatro vezes ao dia.
São esses os quatro números — e nenhum deles é opcional:
- A massa da droga vegetal, em gramas. Varia de 0,2 g (caule alado de carqueja) a 7,5 g (folha e flor de malva) para o mesmo volume de água. Está detalhado em quantos gramas de erva por xícara.
- O volume de água, em mililitros. 51 das 70 fórmulas que fixam água usam 150 mL.
- A técnica — infusão, decocção ou maceração. Não é estilo; depende da parte da planta e da estabilidade das substâncias.
- O tempo, em minutos. Vai de 5 a 20, e em quanto tempo deixar o chá em infusão você vê por que nem toda monografia informa esse número.
Falta um quinto, que não é do preparo mas da dose: quantas vezes ao dia. Está em quantas xícaras de chá por dia.
As três técnicas, e o que decide qual usar
O Formulário define as três em uma frase cada, e a frase já diz para que servem.
| Técnica | Definição oficial | Indicada para |
|---|---|---|
| Infusão | Verter água fervente sobre a droga vegetal e, se aplicável, tampar ou abafar | Folhas, flores, inflorescências, frutos e drogas com substância volátil |
| Decocção | Ebulição da droga vegetal em água potável por tempo determinado | Cascas, raízes, rizomas, caules, sementes e folhas coriáceas |
| Maceração | Contato com o líquido extrator por tempo determinado, ao abrigo da luz | Drogas cujas substâncias se degradam com o calor |
O passo a passo de cada uma está em como fazer infusão e como fazer decocção. A maceração aquosa, que é a menos conhecida das três, é a resposta oficial para o caso em que o calor de fato atrapalha — e esse caso é bem mais estreito do que a crença popular supõe, como mostra água fervente estraga o chá?.
Uma quarta preparação usa álcool em vez de água e sai do território do chá: é a tintura, descrita em como fazer tintura.
A água e o recipiente
Duas orientações valem para todas as fórmulas do documento, e as duas ficam fora das monografias individuais — estão na seção de generalidades, que quase ninguém lê.
Sobre a água, na parte de dispensação:
“Nas preparações extemporâneas, a água a ser utilizada na preparação de infusos, decoctos ou macerados, pelo usuário, deve ser a potável. Deve-se orientar o usuário para que essa água seja filtrada ou fervida antes do emprego nas formulações.”
Sobre o recipiente, na seção de embalagem que se repete monografia após monografia: ele “deverá ser confeccionado em material que não reaja com os componentes da droga vegetal”. O documento não cita marca nem material de panela, mas nomeia um metal reativo na sua tabela de incompatibilidades — o raciocínio inteiro está em que panela usar para ferver chá.
O que o Formulário não dá é temperatura em grau. Em todo o documento há sete valores em graus Celsius, e nenhum deles se refere à água do chá; o levantamento está em temperatura da água para chá.
Planta seca é o padrão
Essa é a regra que muda a conta de quem colhe do quintal. Na seção de cuidados na manipulação:
“Para todas as fórmulas previstas neste documento, quando não detalhado na monografia específica, o material vegetal a ser utilizado deve estar na condição seca.”
E o documento fixa até a técnica de secagem quando a monografia não traz uma: 45 °C em estufa de ar circulante, por três dias. Uma folha fresca tem água; a mesma folha seca não tem. Pesar folha fresca na gramatura de folha seca é subdosar sem perceber — e o inverso, em planta com margem estreita, é o problema oposto.
Como pesar isso na cozinha, e por que a colher não resolve, está em uma colher de erva em gramas.
Depois de pronto
“Preparação extemporânea”, o nome que o Formulário dá ao chá, significa literalmente “preparação para uso imediato”. Não é figura de linguagem: a definição de chá medicinal diz “no momento do uso”, e há monografia que manda ingerir o infuso no mesmo dia do preparo. O que acontece com o chá que sobrou na jarra está em quanto tempo dura o chá pronto.
As espécies, uma a uma
Este guia é sobre técnica. A proporção, o tempo e a frequência mudam para cada planta, e estão na ficha de cada espécie:
- Chá de camomila — 1,5 a 4 g de flor em 150 mL, infusão de 5 a 10 minutos
- Chá de gengibre — a única droga que a monografia aceita por infusão ou decocção em 5 minutos
- Chá de boldo-do-chile — a monografia manda abafar 10 minutos e coar
- Chá de carqueja — 0,2 a 0,3 g em 150 mL, a menor gramatura do Formulário
- Chá de erva-cidreira e chá de melissa — nomes populares que se confundem, monografias diferentes
- Chá de espinheira-santa — decocção de 5 minutos mais 15 de arrefecimento em contato
- Chá de alcachofra — infusão de 10 minutos, e uma contraindicação que surpreende
- Chá de cardo-mariano — a monografia com a instrução de preparo mais literal do documento
O índice completo das espécies publicadas está em plantas medicinais.
O que o preparo correto não resolve
Executar a técnica certa não torna a planta segura para qualquer pessoa. Idade mínima, gravidez, amamentação, interação com medicamento e limite de tempo de uso estão na monografia de cada espécie, e são o assunto de quem não pode tomar chá. O prazo mais repetido no Formulário para reavaliar um sintoma que não melhora é duas semanas: aparece em 13 advertências diferentes. Sintoma que persiste depois disso, febre, dor forte ou piora súbita são motivo para procurar serviço de saúde — não para aumentar a dose do chá.
Perguntas frequentes
Chá caseiro é medicamento?
Depende do que está escrito no rótulo. A Anvisa separa o chá alimentício, vendido em supermercado sem alegação terapêutica, do chá medicinal, que precisa de registro como medicamento e é vendido em farmácia. O pó é o mesmo vegetal; o que muda é a alegação, o controle de qualidade e a obrigação de trazer dose.
Posso adoçar o chá?
As monografias não proíbem nem mencionam açúcar no preparo extemporâneo — a fórmula tem dois componentes, droga vegetal e água. Adoçar não altera a dose de planta que você ingeriu. O que muda a dose é a quantidade pesada e o volume de água, não o que entra depois.
Chá de saquinho serve para uso medicinal?
Serve se a gramatura no rótulo alcançar a faixa da monografia e se o conteúdo for a parte certa da planta. Um sachê traz tipicamente entre 1 e 1,5 g, o que fica abaixo do piso de várias fórmulas. Sem gramatura declarada, não há como saber que dose você tomou.
Preciso coar o chá?
Duas monografias mandam coar de forma explícita: a do boldo-do-chile, que manda abafar por dez minutos e coar depois, e a do salgueiro, que manda coar em seguida à decocção. Nas demais, coar é implícito — o que se ingere é o líquido, e a droga vegetal fica retida.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026), aprovado pela RDC nº 1.024 de 14 de maio de 2026: as definições de infusão, decocção, maceração e preparação extemporânea na seção 3.2, a definição de chá medicinal trazida da RDC nº 1.004 de 17 de dezembro de 2025, a orientação de dispensação sobre água potável filtrada ou fervida, e as 236 formulações com quantidade em gramas de droga vegetal e volume de água em mililitros
- Cartilha de orientações sobre o uso de fitoterápicos e plantas medicinais (Anvisa): o enquadramento do chá medicinal como medicamento de venda em farmácia, a descrição das três formas de preparo e a advertência de que algumas plantas, como o alho, têm substâncias que se degradam com o calor e não admitem água quente
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Mentha x piperita L., folium, Revision 1 (EMA/HMPC/572705/2014): a posologia por chá de 1,5 a 3,0 g de folha em 100 a 150 mL de água fervente, três vezes ao dia, e o prazo de duas semanas para procurar um profissional se o sintoma persistir
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026