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Guia da Saúde

Própolis: quantas gotas tomar? Não há dose oficial

Não existe resposta oficial. Nenhuma norma brasileira fixa quantas gotas de própolis tomar, por quanto tempo ou a partir de que idade. O regulamento que trata do assunto — a Instrução Normativa nº 3 de 2001 do Ministério da Agricultura — define o que o extrato de própolis precisa conter para poder ser vendido com esse nome, e para nisso.

O que a norma fixa, e o que ela não fixa

A norma fixaA norma não fixa
Extrato seco: mínimo de 11% (m/v)Quantas gotas por tomada
Compostos flavonoides: mínimo de 0,25%Quantas tomadas por dia
Compostos fenólicos: mínimo de 0,50%Para que serve
Cera: máximo de 1% do extrato secoIdade mínima
Teor alcoólico: máximo de 70 graus GL (v/v)Tempo máximo de uso
Metanol: máximo de 20 mg por 100 mLContraindicações
Atividade de oxidação: máximo de 22 segundosInteração com medicamento

A coluna da direita é o que uma bula tem e o rótulo de própolis não pode ter, porque não há documento que a sustente. Vale comparar com o Formulário de Fitoterápicos, onde cada uma das 85 espécies traz gramatura, volume, número de tomadas, faixa etária e prazo de reavaliação. É esse o padrão de uma posologia oficial — e a própolis não está nesse documento.

O número que ninguém procura, mas que muda a decisão

O teto de 70 graus GL de álcool é o dado mais consequente da norma inteira. Ele significa que o extrato de própolis convencional é, por definição, uma preparação alcoólica — a mesma categoria de produto que o Formulário de Fitoterápicos trata com cuidado explícito quando fala de tinturas vegetais, contraindicando-as para gestantes, lactantes, pessoas em tratamento de alcoolismo, diabéticos e menores de 18 anos “em função do teor alcoólico na formulação”.

Para a própolis, essa frase não existe em lugar nenhum — não porque o álcool seja menos álcool, mas porque não há monografia que a escreva. É o desdobramento prático em própolis para crianças e própolis na gravidez.

O limite de metanol em 20 mg por 100 mL, incluído pela Instrução Normativa nº 42 de 2017, é o outro parâmetro de segurança do extrato — e também é um controle de fabricação, não uma orientação de consumo.

Por que “20 gotas três vezes ao dia” não quer dizer nada

Três variáveis tornam a contagem de gotas pouco informativa:

  1. O tamanho da gota depende do conta-gotas e da viscosidade do líquido, e não é padronizado entre marcas.
  2. A concentração varia dentro da lei. Um extrato com 11% de extrato seco e outro com o dobro cumprem a mesma norma e entregam quantidades diferentes por gota.
  3. O teor de flavonoides da própolis bruta vai de “baixo teor” (até 1,0%) a “alto teor” (acima de 2,0%) segundo a própria classificação oficial — matérias-primas distintas na origem.

Por isso a informação útil do frasco não é a sugestão de uso: é o teor de extrato seco, que a norma obriga a declarar no rótulo no formato “Extrato Seco: mínimo de …%”.

Conduta possível na ausência de posologia

  • Tratar como alimento, porque é isso que a norma diz que é. O que a própolis tem e não tem de evidência está em própolis: para que serve.
  • Não usar como substituto de tratamento de infecção, dor de garganta com febre ou qualquer quadro que peça avaliação — o critério está em garganta inflamada: o que pode ser.
  • Suspender e procurar avaliação se aparecer lesão na boca ou na pele, inchaço de lábios ou língua, ou falta de ar. A própolis é um sensibilizante conhecido.
  • Avisar o médico ou farmacêutico que está usando, sobretudo se houver uso contínuo de medicamento. Sem norma de interação publicada, quem faz a checagem é o profissional, não o rótulo.

Perguntas frequentes

Por que cada rótulo de própolis sugere um número diferente de gotas?

Porque não há norma que padronize isso. O que a legislação padroniza é composição mínima do extrato, não quanto tomar. Como a concentração de extrato seco e de flavonoides varia entre produtos dentro dos limites legais, dois frascos com a mesma contagem de gotas podem entregar quantidades bem diferentes.

Existe diferença entre extrato alcoólico e extrato sem álcool?

A norma brasileira de extrato de própolis descreve o produto como extração em álcool neutro de grau alimentício e fixa o teto de 70 graus GL. Produtos aquosos ou glicólicos existem no mercado, mas seguem outras regras de composição — e o rótulo é o único lugar onde essa informação aparece.

Tomar mais gotas aumenta o efeito?

Não há estudo que sustente essa relação para própolis por via oral, e aumentar as gotas aumenta com certeza duas coisas: a exposição ao álcool do veículo e a chance de reação alérgica. Sem posologia estabelecida, dose maior é risco maior sem benefício demonstrado.

O que está escrito no rótulo pela norma?

O regulamento exige uma informação adicional específica na rotulagem do extrato: o teor de extrato seco, no formato 'Extrato Seco: mínimo de ...%'. É o dado mais objetivo do frasco e o que permite comparar dois produtos — bem mais útil que a contagem de gotas sugerida.

Fontes

  1. Instrução Normativa nº 3, de 19 de janeiro de 2001 (Ministério da Agricultura, Secretaria de Defesa Agropecuária), Anexo VII — Regulamento de Identidade e Qualidade de Extrato de Própolis: a definição do extrato como produto da extração dos componentes solúveis da própolis em álcool neutro de grau alimentício, os requisitos de extrato seco mínimo de 11% (m/v), flavonoides mínimo de 0,25%, compostos fenólicos mínimo de 0,50%, cera máxima de 1% do extrato seco, teor alcoólico máximo de 70 graus GL (v/v) e metanol máximo de 20 mg por 100 mL, na redação dada pela Instrução Normativa nº 42 de 24 de novembro de 2017 — e a inexistência de qualquer posologia, indicação ou faixa etária no regulamento
  2. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): o modelo do que é uma posologia oficial — cada monografia traz quantidade, volume, número de tomadas por dia, idade mínima e tempo máximo de uso — e a constatação de que a própolis não tem monografia nesse documento

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026