Boldo-do-chile: efeitos colaterais registrados
A reação adversa registrada em monografia para o boldo-do-chile é uma só: hipersensibilidade, incluindo anafilaxia, em frequência não conhecida. O Formulário brasileiro escreve a mesma coisa em uma linha — o medicamento pode provocar anafilaxia. Fora da monografia, na revisão periódica de 2024, há um segundo assunto: relatos publicados de lesão hepática associada à infusão.
O que está na monografia
A seção 4.8 do documento europeu é curta. Ela registra hipersensibilidade (anafilaxia) relatada, classifica a frequência como não conhecida e orienta procurar um profissional se surgir qualquer outra reação não listada.
“Frequência não conhecida” é uma classificação técnica, não uma evasiva: quer dizer que os relatos existem, mas não há dado suficiente para estimar com que frequência ocorrem. Não é sinônimo de raro nem de comum — é sinônimo de não medido.
O Formulário brasileiro acrescenta três instruções operacionais: não exceder a dose recomendada, não usar por mais de quatro semanas, e suspender o produto e consultar um médico ao primeiro evento adverso.
O relato de anafilaxia veio de uma infusão
Vale saber de onde a frase da monografia saiu. O relatório de avaliação identifica um relato de caso publicado em 2004, numa revista de alergia: um paciente com histórico de rinoconjuntivite alérgica a pólen de gramíneas teve, após ingerir infusão de folha de boldo, urticária aguda e generalizada, angioedema facial, disfagia, disfonia e dispneia. A reação foi confirmada por teste de provocação oral positivo.
Foi esse caso que levou o comitê a incluir a hipersensibilidade ao boldo entre as contraindicações. Dois pontos práticos saem daí:
- era o chá, não uma cápsula concentrada nem o óleo;
- o paciente já era alérgico a outra coisa. Histórico atópico não prevê alergia ao boldo, mas é o perfil em que o único caso descrito aconteceu.
Os relatos de lesão hepática que a EMA revisou em 2024
Este é o achado mais desconfortável para a fama da planta, e ele não está na monografia — está no adendo da revisão periódica publicado em 2024.
Ao vasculhar a base de farmacovigilância europeia, o comitê encontrou nove notificações associadas a Peumus boldus, quase todas envolvendo produtos combinados ou pacientes usando três ou mais medicamentos ao mesmo tempo. E encontrou, na literatura, relatos publicados de lesão hepática em pacientes idosos com distúrbio de via biliar, com astenia, anorexia e icterícia.
O mais detalhado deles descreve um homem de 87 anos internado com duas semanas de fraqueza, inapetência e icterícia, com enzimas hepáticas elevadas e investigação etiológica inconclusiva. A esposa relatou que ele vinha consumindo infusões de folha de boldo repetidamente no mês anterior. Excluídas as causas comuns, a hepatotoxicidade por boldo foi considerada provável — e a suspensão do consumo levou à recuperação clínica e laboratorial completa em uma semana.
O comitê foi cauteloso ao ler esses casos: como os autores não aplicaram escala formal de causalidade, os eventos não puderam ser classificados como diretamente relacionados à planta, e nenhuma revisão da monografia foi considerada necessária. Mas registrou, por escrito, que convém avaliar novos relatos de hepatotoxicidade na próxima revisão.
Junte isso à contraindicação já existente para doença hepática e distúrbio biliar, detalhada em quem não pode tomar boldo-do-chile, e o quadro fica claro: o chá que o senso comum brasileiro chama de amigo do fígado é o mesmo que aparece em relatos de icterícia sem causa aparente. A inversão completa está em boldo-do-chile: para que serve.
Superdose: o que existe e o que não existe
A seção 4.9 da monografia europeia registra que nenhum caso de superdose foi relatado. O relatório de avaliação menciona uma fonte de 1981 que descreve efeito emético e espasmos com doses muito altas, mas o dado foi considerado limitado demais — sem detalhe da preparação usada — para entrar na monografia.
Isso não é permissão para exagerar. As duas advertências que valem continuam sendo as do Formulário: não exceder a dose e não passar de quatro semanas. A proporção registrada está em chá de boldo-do-chile.
Para efeito de comparação com uma planta cujo perfil adverso é puramente alérgico, veja camomila: efeitos colaterais.
Perguntas frequentes
O chá de boldo pode dar dor de barriga ou diarreia?
Nenhum dos dois documentos oficiais lista diarreia entre as reações adversas. O que o relatório europeu registra, a partir de uma fonte antiga e sem detalhe da preparação, é efeito emético e espasmos em doses muito altas — e essa informação foi considerada insuficiente para entrar na monografia. Ou seja: não é reação registrada, é menção de literatura.
Quanto tempo depois de tomar a reação alérgica aparece?
O relato de caso publicado descreve um quadro agudo, com urticária generalizada, angioedema facial, dificuldade para engolir, alteração da voz e falta de ar. Reação anafiláctica é de instalação rápida, tipicamente em minutos. Falta de ar, inchaço de lábios ou pálpebras e tontura súbita depois do chá não são para observar em casa: são para procurar atendimento.
Como saber se a icterícia foi do chá?
Não se sabe olhando — nos dois casos publicados o diagnóstico veio por exclusão, depois de investigar as causas comuns de doença hepatobiliar e encontrar o consumo de boldo na história clínica. É por isso que os autores insistem no mesmo ponto: contar ao médico que chás e suplementos você toma muda o rumo da investigação.
A EMA mudou a monografia depois desses relatos?
Não. Na revisão periódica concluída em 2024, o comitê avaliou os casos e decidiu que nenhuma revisão era necessária, porque os eventos não puderam ser atribuídos com segurança à folha de boldo isolada. Ao mesmo tempo, registrou por escrito que vale acompanhar novos relatos de hepatotoxicidade na próxima revisão. É uma porta deixada aberta, não um caso encerrado.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT059, Peumus boldus Molina: a advertência de que o medicamento pode provocar anafilaxia, a instrução de não exceder a dosagem recomendada, o limite de quatro semanas de uso e a orientação de suspender o produto e consultar um médico em caso de evento adverso
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Peumus boldus Molina, folium: a seção 4.8, que registra hipersensibilidade com anafilaxia em frequência não conhecida, e a seção 4.9, que registra nenhum caso de superdose relatado
- European Medicines Agency (HMPC) — Addendum to Assessment report on Peumus boldus Molina, folium (EMA/HMPC/329351/2024): a revisão periódica de 2024, com os nove casos localizados na base EudraVigilance, os relatos de interação e os relatos publicados de lesão hepática em pacientes idosos com distúrbio de via biliar, com astenia, anorexia e icterícia
- Monzón S e cols. — Anaphylaxis to boldo infusion, a herbal remedy (Allergy, 2004; 59(9):1019-20): o relato de caso de anafilaxia após ingestão de infusão de folha de boldo, citado no relatório de avaliação europeu como base para incluir a hipersensibilidade entre as contraindicações
- Oliveira Sá A, Pimentel T, Oliveira N — Boldo-Induced Hepatotoxicity: A Case of Unexplained Jaundice (European Journal of Case Reports in Internal Medicine, 2020; 7(12):002116): homem de 87 anos internado com astenia, anorexia e icterícia após consumo repetido de infusões de folha de Peumus boldus, com recuperação clínica e laboratorial completa uma semana após a suspensão
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026