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Guia da Saúde

Boldo-do-chile: para que serve e o que não trata

O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa registra uma única indicação para o boldo-do-chile: auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos — o desconforto da má digestão. Fígado, ressaca, detox e emagrecimento não aparecem no documento. E há um detalhe que contraria a fama da planta: ela é contraindicada para quem tem doença hepática.

A indicação é uma só, e é curta

A seção INDICAÇÕES da monografia FT059 tem uma linha: “Auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos”. O comitê europeu chegou ao mesmo lugar com uma frase um pouco mais longa — alívio sintomático da dispepsia e de distúrbios espasmódicos leves do trato gastrintestinal — e marcou a indicação como uso tradicional, aceita pelo tempo de uso e não por ensaio clínico.

O relatório de avaliação europeu lista, num quadro histórico, tudo o que a literatura já atribuiu à folha desde o século XIX: colagogo, colerético, estimulante hepático, diurético, estomáquico, sedativo e anti-helmíntico. Nada disso virou indicação. O que sobreviveu à avaliação foi a dispepsia — e só ela. O que a palavra “dispepsia” abrange na prática está em boldo-do-chile para má digestão.

A planta do fígado é proibida para quem tem doença no fígado

Esta é a parte que inverte o senso comum brasileiro. O texto da advertência, na íntegra:

“O uso é contraindicado para pessoas portadoras de cálculos biliares e obstrução dos ductos biliares, colangite, doenças hepáticas, câncer de ducto biliar e pâncreas, devido aos efeitos colagogo e colerético.”

O motivo está na própria frase. Colerético é o que estimula o fígado a produzir bile; colagogo é o que estimula a vesícula a liberar a bile já formada. Numa via biliar obstruída ou num fígado doente, empurrar mais bile não ajuda — é justamente o contrário do que se quer. A fama de “chá do fígado” nasce do mesmo efeito que gera a contraindicação.

Não é uma pegadinha da tradução brasileira: a monografia europeia contraindica exatamente as mesmas condições. E a lista completa de quem deve evitar está em quem não pode tomar boldo-do-chile.

Ascaridol: por que só o chá é aceito, e o óleo, nunca

A folha do boldo-do-chile tem de 2 a 4% de óleo volátil, e o componente majoritário desse óleo é o ascaridol, entre 16 e 38% — seguido de 1,8-cineol (11 a 39%) e p-cimeno (9 a 29%). O ascaridol é a substância que torna o óleo de erva-de-santa-maria um dos óleos mais tóxicos conhecidos, e o relatório europeu conclui que o óleo de boldo não deve ser usado nem internamente nem externamente.

Daí saem duas decisões que quase ninguém conhece:

  • o chá e os extratos aquosos foram aceitos — o ascaridol tem baixa solubilidade em água, e a infusão arrasta pouco dele;
  • a folha rasurada consumida como tal e os extratos alcoólicos não foram considerados aceitáveis para medicamento tradicional, pelo risco de teor mais alto de ascaridol.

Repare na coerência: a cápsula da fórmula 2 do Formulário brasileiro é de extrato seco obtido com água, não com álcool. O preparo correto do infuso está em chá de boldo-do-chile.

O outro boldo

Peumus boldus é uma árvore nativa do Chile e do Peru, da família Monimiaceae. O arbusto de folha grossa e aveludada que cresce em quintal brasileiro e também é chamado de boldo é outra espécie, de outra família, com monografia separada no mesmo Formulário. Nome popular igual não significa planta igual — e a dose de uma não vale para a outra.

Planta medicinal tem dose, tem prazo e tem contraindicação. No boldo-do-chile os três estão escritos, e o índice das espécies já publicadas fica em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Boldo é bom para ressaca?

Ressaca não aparece em nenhum lugar da monografia brasileira nem da europeia. A única indicação registrada é o alívio dos sintomas dispépticos. O uso depois de beber é tradição popular, não indicação reconhecida, e não há estudo citado nos documentos oficiais que avalie a planta nesse contexto. Dizer o contrário é ir além do que a fonte sustenta.

Boldo-do-chile e boldo do quintal são a mesma planta?

Não. O boldo-do-chile é Peumus boldus Molina, da família Monimiaceae, uma árvore nativa do Chile e do Peru. O boldo mais comum nos quintais brasileiros é outra espécie, de outra família, com monografia própria no mesmo Formulário. Nome popular igual, planta diferente, documento diferente — e é por isso que a dose de uma não vale para a outra.

Que parte do boldo-do-chile se usa?

A folha, seca e rasurada. É o que a fórmula 1 do Formulário especifica, e é o que a Farmacopeia Europeia define como boldi folium: a folha seca inteira ou fragmentada de Peumus boldus, com no mínimo 0,1% de alcaloides totais expressos em boldina.

O óleo essencial de boldo pode ser usado?

Não. O relatório de avaliação da EMA é explícito: o óleo de boldo é descrito como um dos óleos mais tóxicos por causa do ascaridol e não deve ser usado nem por via interna nem por via externa. A avaliação aceitou apenas o chá e os extratos aquosos da folha — o óleo ficou de fora do que é considerado aceitável.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT059, Peumus boldus Molina: a indicação única de auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos, a fórmula 1 (1 a 2 g de folha em 150 mL), a fórmula 2 em cápsula (200 a 400 mg de extrato seco), a advertência de uso adulto e a contraindicação para cálculos biliares, obstrução dos ductos biliares, colangite e doenças hepáticas
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Peumus boldus Molina, folium (EMA/HMPC/453725/2016): a indicação por uso tradicional para alívio sintomático de dispepsia e espasmos leves do trato gastrintestinal, e a contraindicação em obstrução do ducto biliar, colangite, doença hepática e cálculos biliares
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Peumus boldus Molina, folium (EMA/HMPC/453726/2016): a composição do óleo volátil da folha (2 a 4%, com ascaridol de 16 a 38%, 1,8-cineol de 11 a 39% e p-cimeno de 9 a 29%), a conclusão de que o óleo de boldo não deve ser usado por via interna nem externa, e a decisão de aceitar apenas chá e extratos aquosos por causa do ascaridol

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026