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Guia da Saúde

Boldo-do-chile na gravidez: por que é contraindicado

O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira contraindica o boldo-do-chile para gestantes e lactantes. A monografia europeia chega ao mesmo lugar por outro caminho: a segurança na gestação e na lactação não foi estabelecida e, à vista dos dados pré-clínicos, o uso não é recomendado. Os dois documentos apontam para o mesmo estudo em animais.

O que a monografia diz, literalmente

A advertência da FT059 é curta e tem duas partes distintas:

“É contraindicado às lactantes devido à presença de alcaloides e risco de neurotoxicidade. Foram observados danos ao concepto em modelos animais.”

Repare que os motivos são diferentes para cada situação. Na lactação, o argumento é a passagem de alcaloides e o risco de neurotoxicidade para o lactente. Na gestação, o argumento é o achado experimental de dano ao concepto. Não é uma contraindicação genérica de “planta na gravidez” — são duas justificativas, cada uma com sua base.

O estudo que está por trás da contraindicação

A referência citada é um trabalho brasileiro publicado em 2000 na Phytotherapy Research, feito na Universidade Federal de Pernambuco. Ele testou, em ratas, o extrato hidroalcoólico da folha seca de Peumus boldus e a boldina isolada, e descreveu:

  • ação abortiva e teratogênica;
  • alterações nos níveis sanguíneos de bilirrubina, colesterol, glicose, ALT, AST e ureia;
  • ausência de alteração histológica na administração de longo prazo, ao longo de 90 dias.

O relatório de avaliação europeu descreve o mesmo tipo de achado com uma redação mais contida: alterações anatômicas no feto e alguns casos de aborto, em doses altas, com extrato etanólico seco de folha e com boldina, administrados por via oral a ratas prenhes.

Três qualificações que precisam viajar junto com esse dado, sob pena de ele virar outra coisa: era rato, era extrato alcoólico — não a infusão —, e era dose alta. Nada disso torna o achado irrelevante; torna-o o que ele é: um sinal de toxicidade reprodutiva forte o bastante para fechar a porta, e fraco demais para quantificar risco humano.

Por que a resposta é diferente da camomila

Vale colocar as duas lado a lado, porque o contraste desmonta a ideia de que existe uma regra única sobre chá na gravidez:

PlantaGestação e lactaçãoPor quê
Camomilapermitida, com ressalva sobre aplicação no mamilonão há sinal de dano registrado
Boldo-do-chilecontraindicadadano ao concepto em modelo animal e alcaloides na lactação

Duas plantas de chá, dois veredictos opostos, no mesmo Formulário. O caso da camomila está em camomila na gravidez. A pergunta que resolve não é “posso tomar chá grávida” — é “posso tomar este chá”, e ela se responde abrindo a monografia da espécie.

O que fica valendo

A contraindicação gestacional não é a única do boldo-do-chile, e nem é a mais frequente na prática: a lista inclui cálculo biliar, obstrução dos ductos, colangite e doença hepática, e está inteira em quem não pode tomar boldo-do-chile. O que a planta de fato trata, segundo o documento, está em boldo-do-chile: para que serve, e o preparo registrado, em chá de boldo-do-chile.

Planta medicinal tem dose, tem contraindicação e tem faixa de quem não deve usar. Na gestação, o boldo-do-chile está nessa faixa.

Perguntas frequentes

Tomei chá de boldo sem saber que estava grávida. E agora?

A contraindicação é uma orientação de não usar daqui em diante, não um diagnóstico sobre o que já aconteceu. Os achados que a sustentam vêm de ratas tratadas com extrato hidroalcoólico em doses altas, situação distante de uma xícara de chá. Interrompa o uso e conte o episódio no pré-natal — quem acompanha a gestação é quem avalia o caso concreto.

Boldo é abortivo?

O que existe é ação abortiva descrita em ratas, com extrato hidroalcoólico da folha e com boldina isolada, em doses altas. Nenhum documento oficial afirma que o chá tenha esse efeito em humanos, e não há estudo em gestantes. A contraindicação existe porque o sinal animal apareceu e não foi desmentido por dado humano — não porque o efeito esteja comprovado em pessoas.

Posso usar boldo depois que o bebê desmamar?

A contraindicação da lactação vale enquanto houver amamentação. Encerrada essa fase, valem as demais advertências da planta, que não são poucas: contraindicação biliar e hepática, uso adulto, e teto de quatro semanas de uso. Deixar de ser lactante não zera o resto da monografia.

E se eu tomar só uma vez, para enjoo?

Enjoo da gravidez não está entre as indicações do boldo-do-chile em nenhum dos dois documentos — a indicação registrada é dispepsia. Ou seja, além de contraindicado na gestação, ele não é a planta indicada para esse sintoma. Náusea persistente no pré-natal tem conduta própria e é assunto de consulta.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT059, Peumus boldus Molina: a contraindicação para lactantes e gestantes, a justificativa da contraindicação na lactação pela presença de alcaloides e risco de neurotoxicidade, e o registro de que foram observados danos ao concepto em modelos animais
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Peumus boldus Molina, folium: a seção 4.6, que registra que a segurança na gestação e na lactação não foi estabelecida e que, à vista dos dados pré-clínicos, o uso não é recomendado; e a seção 5.3, com as alterações anatômicas no feto e os poucos casos de aborto observados em ratas prenhes tratadas com extrato etanólico seco de folha de boldo e com boldina em doses altas
  3. Almeida ER, Melo AM, Xavier H — Toxicological evaluation of the hydro-alcohol extract of the dry leaves of Peumus boldus and boldine in rats (Phytotherapy Research, 2000; 14(2):99-102): o estudo citado pela monografia brasileira, que descreve ação abortiva e teratogênica do extrato hidroalcoólico da folha seca e da boldina em ratas, além de alterações em bilirrubina, colesterol, glicose, ALT, AST e ureia

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026