Camomila: para que serve segundo a Anvisa
A camomila é reconhecida pela Anvisa para queixas gastrintestinais leves — distensão abdominal e espasmos leves —, para sintomas do resfriado comum, para lesões e inflamações da boca e da garganta, e para afecções leves da pele. Ansiedade e insônia não estão na lista, embora seja para isso que a maioria das pessoas a use no Brasil.
O que a monografia reconhece, fórmula por fórmula
O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira registra quatro preparações diferentes de camomila, cada uma com concentração, via e indicação próprias. É uma distinção que os rótulos e os sites raramente fazem, e ela muda o que se pode esperar do chá:
| Fórmula | Concentração | Via | Para que a Anvisa reconhece |
|---|---|---|---|
| 1 | 0,5 a 4 g em 150 mL | oral | queixas gastrintestinais leves: distensão abdominal e espasmos leves |
| 2 | 2 a 10 g em 100 mL | inalatória e externa | sintomas do resfriado comum; queimadura solar, ferida superficial e furúnculo |
| 3 | 1 a 5 g em 100 mL | bochecho e gargarejo | lesões leves e inflamações da boca e da orofaringe |
| 4 | 4,5 a 5 g em 1000 mL | externa | afecções da pele e da mucosa das regiões anal e genital |
Repare que a única indicação por via oral é a digestiva. O chá que se bebe corresponde à fórmula 1. As outras três se inalam, se bochecham ou se aplicam na pele — quem toma camomila esperando efeito sobre a garganta está usando a via errada para a indicação registrada.
Por que a fama de calmante não aparece na monografia
Não é esquecimento nem cautela burocrática. Uma indicação entra na monografia quando há dado que a sustente, e para camomila o dado que existe cobre o trato digestivo, a mucosa e a pele. O comitê europeu chegou às mesmas cinco conclusões, e nenhuma delas menciona sono ou ansiedade.
Isso não significa que a xícara antes de dormir não faça diferença para quem a toma — significa que esse efeito não foi avaliado a ponto de virar indicação oficial, e que prometer isso é ir além do que a fonte diz. É uma distinção que vale para todo este site: uso tradicional e uso comprovado não são a mesma coisa, e a página deixa claro qual dos dois está falando.
O detalhe que quase nenhum rótulo traz: a partir de 6 meses
A camomila é uma das poucas plantas do Formulário com dose pediátrica registrada a partir dos 6 meses de idade — 0,5 a 1 g de droga vegetal por dose, duas a quatro vezes ao dia, entre 6 meses e 2 anos. A escala continua por faixa etária até a dose adulta.
Há um porém que também está na monografia e costuma ser ignorado: a inalação não é recomendada abaixo de 6 anos, e o uso na boca e na pele é liberado só acima de 12. Ou seja, a mesma planta tem idades mínimas diferentes conforme a via. Os números por faixa estão em camomila para crianças.
O risco real: alergia, não toxicidade
A camomila é da família Asteraceae, a mesma da arnica, da calêndula e do girassol. Quem tem alergia a plantas dessa família não deve usá-la. A monografia registra relatos de reações de hipersensibilidade após contato de mucosas com preparações líquidas, incluindo casos graves, e um caso de anafilaxia com o uso das flores.
Também há interações registradas — com anticoagulantes, entre outras — em camomila interage com remédio, e o quadro completo de quem deve evitar está em quem não pode tomar camomila.
Para preparar na proporção certa, veja chá de camomila. O índice das plantas já publicadas fica em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
A camomila serve para ansiedade e para dormir?
Não é isso que a monografia oficial diz. Nem o Formulário de Fitoterápicos da Anvisa nem as conclusões do comitê europeu listam ansiedade, insônia ou efeito calmante entre as indicações da camomila. As quatro indicações registradas são digestivas, respiratórias (resfriado), de boca e garganta, e de pele. O uso como calmante existe na tradição e é o mais popular no Brasil, mas não é o que a autoridade sanitária reconhece.
Qual a diferença entre camomila e Matricaria recutita?
Nenhuma: é a mesma planta com nomes diferentes. O Formulário registra Matricaria chamomilla L. como nome aceito e lista Chamomilla recutita e Matricaria recutita como sinônimos. Rótulos brasileiros usam os três, e todos se referem à mesma inflorescência.
Que parte da camomila se usa?
A inflorescência — a flor —, seca e rasurada. É o que as quatro fórmulas do Formulário especificam. Não é a folha nem a planta inteira.
Camomila e camomila-romana são a mesma coisa?
Não. A camomila do Formulário brasileiro é Matricaria chamomilla, às vezes chamada camomila-alemã. A camomila-romana é Chamaemelum nobile, outra espécie, e não tem monografia no Formulário de Fitoterápicos. Quando um óleo essencial diz camomila-romana, não está falando desta planta.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT047, Matricaria chamomilla L.: as quatro fórmulas (0,5 a 4 g/150 mL; 2 a 10 g/100 mL; 1 a 5 g/100 mL; 4,5 a 5 g/1000 mL), a infusão de 5 a 10 minutos com inflorescência seca e rasurada, as indicações de cada fórmula e as advertências
- European Medicines Agency (HMPC) — Matricaria flower (Matricariae flos): as conclusões do comitê sobre uso tradicional em queixas gastrintestinais leves, resfriado comum, úlceras e inflamações de boca e garganta, irritação da pele e das regiões anal e genital
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026