Pular para o conteúdo
Guia da Saúde

Chá e remédio de pressão: o que pode dar errado

Oito das 85 monografias do Formulário de Fitoterápicos citam anti-hipertensivo ou hipotensor. E a mais importante delas descreve exatamente o contrário do que se procura quando se digita “chá para pressão alta”: um chá que sobe a pressão e antagoniza o remédio.

O alcaçuz: o caso que inverte a busca

Glycyrrhiza glabra (FT035) é o alcaçuz — ingrediente de bala, de licor, de xarope e de mistura de ervas para garganta. A monografia é uma das mais duras do documento:

“Esse medicamento pode antagonizar o efeito de anti-hipertensivos.”

“Não usar em pessoas com hipertensão arterial.”

E descreve o porquê, que é farmacológico e não genérico:

“Com o uso prolongado ou em doses mais elevadas, os efeitos mineralocorticoides podem ser manifestados sob a forma de retenção de sódio e água, perda de potássio com hipertensão arterial, edema, arritmia cardíaca, encefalopatia hipertensiva.”

A lista de medicamentos com que ele não combina é longa: espironolactona, amilorida, corticosteroides, diuréticos, glicosídeos cardiotônicos, laxantes estimulantes e qualquer outro que agrave desequilíbrio eletrolítico. Note quem abre a lista — espironolactona e amilorida são justamente os diuréticos poupadores de potássio, prescritos para o problema que o alcaçuz provoca.

As outras sete, e a direção de cada uma

PlantaO que a monografia registraDireção
Mil-folhas (FT001)“Não usar juntamente com anticoagulantes e anti-hipertensivos”não especificada
Alho (FT005)“Pode provocar hipotensão arterial em paciente que faz uso de anti-hipertensivos”; potencializa o efeito diurético da hidroclorotiazidasoma
Picão (FT014)“Pode causar hipotensão arterial em hipertensos em uso de anti-hipertensivos”soma
Hortelã-pimenta (FT049)“Pode aumentar os efeitos de fármacos inibidores do canal de cálcio ou outros hipotensores cronotrópicos negativos”soma
Quebra-pedra (FT060)usar junto de diuréticos, hipotensores, hipoglicemiantes e insulina “apenas sob acompanhamento médico”soma
Boldo-brasileiro (FT064)não utilizar junto com anti-hipertensivos, digoxina e antiarrítmicosnão especificada
Cabelo de milho (FT084)“Pode interagir com a terapia anti-hipertensiva”não especificada

Seis das oito apontam para soma, não para corte. O risco predominante, no documento brasileiro, não é a pressão descontrolar por falta de remédio — é ela cair demais porque o chá empurrou na mesma direção. O que acontece quando isso ocorre está em chá abaixa a pressão?.

O alcaçuz é a exceção, e é a única com direção contrária declarada.

O potássio é o fio que costura quase tudo

Nove monografias citam diurético, e o mecanismo que reaparece é sempre o mesmo: perda de potássio.

  • Alcachofra (FT023): o uso com diuréticos em hipertensão ou cardiopatia deve ser feito “sob estrita supervisão médica”, e “se a eliminação de potássio é considerável, pode ocorrer uma potencialização de drogas cardiotônicas”.
  • Cavalinha (FT027): não é recomendado tratamento concomitante com diuréticos sintéticos, e há possível interação com digitálicos “devido à perda de potássio associada ao efeito diurético” — detalhes em cavalinha e remédios.
  • Dente-de-leão (FT078): pessoas diabéticas ou com doença renal ou cardíaca devem evitar “devido ao risco de provocar hipocalemia”.

Quem trata pressão alta quase sempre toma um diurético. Somar um chá diurético a ele não é “ajudar o tratamento”: é empilhar duas perdas de potássio sobre o mesmo rim, e potássio baixo é arritmia.

Quando o problema é o fígado, não o rim

Existe o outro mecanismo — a planta que acelera a destruição do anti-hipertensivo. Ele está descrito para a erva-de-são-joão, que não é uma das 85 espécies brasileiras, e os números são específicos:

  • Talinolol (betabloqueador). Schwarz e colaboradores (2007), 9 voluntários, 12 dias: a glicoproteína-P aumentou na mucosa duodenal, a biodisponibilidade oral do talinolol caiu 25%, a área sob a curva caiu 31% e o clearance oral subiu 93%.
  • Verapamil (bloqueador de canal de cálcio). Tannergren e colaboradores (2004), 8 voluntários: queda significativa da biodisponibilidade das formas R e S, por indução da CYP3A4 de primeira passagem.

A lista europeia de fármacos afetados inclui os betabloqueadores carvedilol e propranolol e os bloqueadores de canal de cálcio anlodipino, diltiazem, nicardipino, nifedipino e verapamil — ou seja, boa parte do arsenal usado no Brasil.

Aqui a direção é a temida: o remédio de pressão chega mais fraco, e o número volta a subir sem que nada tenha mudado na receita.

O que fazer

  • Pressão arterial é doença que se trata por meta numérica. Introduzir uma variável que ninguém mede é abrir mão da meta.
  • Se você toma anti-hipertensivo e quer tomar chá com regularidade, leve o nome da planta a quem prescreveu antes — e continue medindo a pressão em casa nas primeiras semanas.
  • Alcaçuz merece atenção especial porque é consumido sem se perceber, em bala, licor e mistura de ervas.

Procure atendimento se a pressão passar a variar muito, ou diante de tontura ao levantar, desmaio, palpitação, inchaço nas pernas, dor de cabeça intensa e persistente ou falta de ar. O mapa das demais classes está em interação entre chá e remédio.

Perguntas frequentes

Qual chá corta o efeito do remédio de pressão?

O alcaçuz é o caso explícito no documento brasileiro: a monografia diz que ele pode antagonizar o efeito de anti-hipertensivos, e contraindica o uso para quem já tem hipertensão. Não é um chá de aparência suspeita — é ingrediente comum de bala, licor e mistura de ervas para garganta.

Chá de hortelã pode com remédio de pressão?

A monografia da hortelã-pimenta registra que ela pode aumentar os efeitos de fármacos inibidores do canal de cálcio ou de outros hipotensores cronotrópicos negativos. É o efeito somado, não cortado — e quem toma anlodipino, diltiazem ou verapamil deve tratar isso com quem prescreveu.

O problema é o chá ou o efeito diurético?

Muitas vezes é o diurético. Nove monografias citam diuréticos, e o mecanismo repetido é a perda de potássio: com potássio baixo, o risco de arritmia sobe e o efeito de cardiotônicos pode ser potencializado. Isso vale tanto para o chá quanto para o comprimido que a pessoa já toma.

Chá pode fazer a pressão subir?

Pode, e o alcaçuz é o exemplo documentado: por efeito mineralocorticoide, o uso prolongado ou em doses altas provoca retenção de sódio e água e perda de potássio, com hipertensão arterial, edema e arritmia. A monografia inclui até encefalopatia hipertensiva entre os desfechos possíveis.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — as oito monografias que citam anti-hipertensivo ou hipotensor: FT035 (Glycyrrhiza glabra), com a frase de que o medicamento pode antagonizar o efeito de anti-hipertensivos, a contraindicação para pessoas com hipertensão arterial, a não recomendação de uso concomitante com espironolactona, amilorida, corticosteroides, diuréticos e glicosídeos cardiotônicos, e os efeitos mineralocorticoides de retenção de sódio e água com perda de potássio; FT001, FT005, FT014, FT049, FT060, FT064 e FT084
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Hypericum perforatum L., herba, revisão 1 (EMA/HMPC/244315/2016): o estudo de Schwarz e colaboradores (2007) em 9 voluntários saudáveis por 12 dias, com aumento da glicoproteína-P na mucosa duodenal, redução de 25% na biodisponibilidade oral do talinolol, redução de 31% na área sob a curva e aumento de 93% no clearance oral; o estudo de Tannergren e colaboradores (2004) em 8 voluntários, com redução significativa da biodisponibilidade das formas R e S do verapamil por indução da CYP3A4 de primeira passagem; e a lista de fármacos afetados, que inclui os betabloqueadores carvedilol e propranolol e os bloqueadores de canal de cálcio anlodipino, diltiazem, nicardipino, nifedipino e verapamil
  3. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Hypericum perforatum L., herba, revisão 1 (EMA/HMPC/7695/2021), seção 4.5: a orientação de cuidado especial no uso concomitante de fármacos metabolizados por CYP3A4, CYP2B6, CYP2C9, CYP2C19 ou transportados pela glicoproteína-P, entre eles a digoxina, pela possibilidade de redução das concentrações plasmáticas

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026