Cavalinha e remédios: as interações, uma a uma
A seção de interações da monografia europeia da cavalinha tem duas palavras: nenhuma relatada. O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa, que cita a monografia europeia como fonte, lista quatro advertências de interação. Vale abrir uma a uma, porque elas não têm o mesmo peso — e porque o item mais concreto que existe na literatura não está em nenhuma das duas listas.
As duas listas, lado a lado
| Advertência | Formulário da Anvisa | Monografia da EMA |
|---|---|---|
| Diuréticos sintéticos | não recomenda uso concomitante | não menciona |
| Inibição de CYP1A2 | adverte | não menciona |
| Digitálicos e glicosídeos cardiotônicos | adverte, por perda de potássio | não menciona |
| Hipocalemia por uso prolongado | adverte | não menciona |
| Interações em geral | — | nenhuma relatada |
O relatório de avaliação europeu explica a coluna da direita sem meias palavras: nenhum estudo clínico de interação foi realizado com preparações de cavalinha, e interações clínicas com outros medicamentos não foram relatadas nas monografias e manuais consultados. É por ausência de dado que a seção está vazia, não por convicção de que nada aconteça.
Diuréticos sintéticos: a frase que a fonte citada não traz
O Formulário escreve: “não é recomendado tratamento concomitante com diuréticos sintéticos”, e credita a frase a (EMA, 2016). Fomos conferir na fonte citada.
A monografia da EMA de 2016 registra, em interações, apenas “nenhuma relatada”. O relatório de avaliação que a acompanha não menciona diurético sintético em nenhuma passagem — a expressão não aparece no documento. Nem a monografia nem o relatório sustentam a atribuição.
Isso não torna a recomendação errada. Somar uma planta com efeito diurético a um diurético prescrito é exatamente o tipo de sobreposição que se evita por princípio, e o ensaio clínico brasileiro que comparou a planta à hidroclorotiazida mostrou efeito de magnitude equivalente ao do medicamento — o que reforça, e não enfraquece, a cautela em somar os dois. O que se pode dizer é que a frase é conduta prudente, não citação: quem for procurar a origem dela na monografia europeia não vai encontrar.
CYP1A2: o item que se sustenta na fonte
Este se confirma. O estudo citado testou extratos aquosos e etanólicos de seis ervas contra três enzimas hepáticas, e a cavalinha inibiu a CYP1A2 com IC50 de 27 ± 1 µg/mL — a inibição mais forte que ela apresentou. Os autores calcularam que a concentração humana correspondente a uma dose única, 97 mg/L, excede esse IC50 em 3,6 vezes, e concluíram que a inibição sistêmica poderia ser clinicamente relevante.
Duas ressalvas que fazem parte do achado: é in vitro, e os próprios autores encerram pedindo que o potencial in vivo seja investigado. A advertência do Formulário está bem apoiada; ela descreve um risco possível, não um efeito medido em gente.
O item que faltou nas duas listas: CYP2C8 e a trimetoprima
Aqui está o achado mais interessante deste dossiê, e ele não entrou em nenhuma das duas monografias.
Uma triagem de dez produtos vegetais comerciais contra nove enzimas do citocromo P450 encontrou inibição de CYP2C8 pelo extrato aquoso de cavalinha, com IC50 de 93 µg/mL, e os autores consideraram o achado digno de investigação porque o uso concomitante com produtos que dependem dessa enzima é significativo. O relatório da EMA traduz o achado num cenário concreto e desconfortavelmente específico:
pacientes com infecção urinária que usam antibióticos como a trimetoprima, que também é inibidora da CYP2C8. A concentração aumentada de trimetoprima no soro poderia levar a mais efeitos adversos.
Ou seja: a combinação mais provável no mundo real — a pessoa que tem infecção urinária, toma o antibiótico prescrito e resolve ajudar com o chá — é justamente a que o dossiê levanta e a que a lista brasileira não cobre. Os avaliadores europeus consideraram a inibição de CYP2C8 e a de CYP1A2 clinicamente relevantes, mas concluíram que, sem casos bem documentados, não fariam recomendação na monografia. O que a planta faz e não faz nesse quadro está em cavalinha para infecção urinária.
Digitálicos: uma interação de raciocínio
A advertência sobre digitálicos e glicosídeos cardiotônicos vem de um manual de contraindicações e interações de plantas, e o encadeamento é: efeito diurético → perda de potássio → potássio baixo aumenta a toxicidade do digitálico.
Cada elo é plausível, mas o segundo não foi observado: no único ensaio clínico da planta, não houve efeito significativo sobre a excreção urinária de sódio e potássio em quatro dias. E há uma literatura apontando o risco oposto, de potássio alto, em quem tem doença renal. A divergência inteira está em cavalinha: efeitos colaterais. Para quem usa digitálico a conduta não muda por causa disso: é medicamento de faixa terapêutica estreita, com potássio acompanhado por exame, e qualquer coisa que desloque esse equilíbrio é assunto de quem prescreveu.
O único relato de caso é de lítio — e de outra espécie
O dossiê europeu tem um relato de caso de interação. Uma mulher de 26 anos em tratamento com lítio chegou ao pronto-socorro com tremor grosseiro, marcha instável e nistagmo, com litemia de 4,5 mmol/L, depois de duas a três semanas usando uma combinação de seis ervas diuréticas.
Três reparos, todos do próprio relatório: a dose e a composição eram desconhecidas; havia seis plantas na mistura; e a espécie de cavalinha presente era Equisetum hyemale, não a arvense desta monografia. O avaliador conclui que nenhuma inferência sobre a E. arvense é possível a partir do caso.
Mesmo assim o mecanismo merece ficar registrado, porque não depende da espécie: quem usa lítio e toma erva diurética pode desidratar, e a desidratação eleva a litemia. Vale para qualquer chá diurético, incluindo este.
O ensaio de 2022 que nenhuma monografia incorporou
Depois de fechada a monografia europeia, o mesmo grupo brasileiro publicou um ensaio randomizado e duplo-cego com 58 pacientes com hipertensão estágio 1, comparando extrato seco de cavalinha a 900 mg por dia com hidroclorotiazida a 25 mg por dia, por três meses. A queda média foi de 12,6 mmHg na pressão sistólica e 8,1 mmHg na diastólica, sem diferença estatisticamente significativa em relação ao medicamento, e sem alteração relevante nos exames.
O que isso não significa: que a cavalinha seja tratamento para hipertensão. É um ensaio, de um centro, com 58 pessoas, com um extrato padronizado que não é o chá, e nenhum órgão regulador incorporou o resultado — a indicação registrada continua sendo apenas o fluxo urinário.
O que ele significa na prática: quem já toma anti-hipertensivo tem um motivo a mais para mencionar o chá na consulta, porque existe agora um sinal publicado de efeito sobre a pressão, e o tipo de erro que se quer evitar é a soma silenciosa de dois efeitos na mesma direção.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e é isso que este índice publica, espécie por espécie. A ficha completa está em cavalinha e a lista de quem deve evitar em quem não pode tomar cavalinha.
Perguntas frequentes
Pode tomar cavalinha junto com anticoncepcional?
Nenhum dos dois documentos oficiais registra interação da cavalinha com contraceptivo hormonal. O que existe são inibições de enzimas hepáticas medidas em laboratório, sem estudo clínico que confirme o efeito em pessoas. Ausência de registro não é garantia de segurança, mas também não há base para afirmar que o chá reduza o efeito do anticoncepcional.
Cavalinha atrapalha o efeito de antibiótico?
O sinal que existe aponta na direção contrária. A inibição de CYP2C8 pela cavalinha poderia elevar a concentração sanguínea da trimetoprima, e não reduzi-la, aumentando o risco de efeitos adversos do antibiótico. É um achado de laboratório, não um caso clínico, e é justamente o que faltou na lista brasileira de interações.
Preciso contar ao médico que tomo chá de cavalinha?
Sim, e por um motivo prático que aparece na própria literatura: o relato de hepatite associada à planta termina com a recomendação de que pacientes com exames de fígado alterados sejam perguntados sobre uso de produtos vegetais. Chá raramente é mencionado na consulta, e é exatamente por isso que ele complica a interpretação de um exame.
Quem faz quimioterapia ou fez transplante pode usar?
A revisão de interações citada no relatório europeu recomenda que transplantados e pacientes em quimioterapia evitem o uso concomitante de todos os fitoterápicos, sem exceção. O argumento não é sobre a cavalinha em particular: é que a dose desses medicamentos é crítica e os níveis sanguíneos precisam ser o mais previsíveis possível.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT027, Equisetum arvense L.: as quatro advertências de interação, a saber, o tratamento concomitante com diuréticos sintéticos, a possível inibição da enzima CYP1A2, a possível interação com digitálicos e glicosídeos cardiotônicos pela perda de potássio associada ao efeito diurético, e a hipocalemia por uso prolongado
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Equisetum arvense L., herba: a seção 4.5, sobre interações com outros medicamentos e outras formas de interação, cujo conteúdo integral é a expressão nenhuma relatada
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Equisetum arvense L., herba: a constatação de que nenhum estudo clínico de interação foi realizado, o cenário do paciente com infecção urinária em uso de trimetoprima levantado a partir da inibição de CYP2C8, o relato de caso de intoxicação por lítio com uma combinação de seis ervas diuréticas contendo Equisetum hyemale, e a recomendação de Williamson (2005) para transplantados e pacientes em quimioterapia
- Langhammer AJ, Nilsen OG (2014), Phytotherapy Research 28(4):603-610 — inibição in vitro de CYP1A2, CYP2D6 e CYP3A4 por seis ervas usadas na gravidez: o IC50 de 27 µg/mL da cavalinha para CYP1A2 e a conclusão de que a inibição sistêmica poderia ser clinicamente relevante para funcho, cavalinha e folha de framboesa
- Sevior DK et al. (2010), Xenobiotica 40(4):245-254 — triagem rápida de produtos vegetais comerciais quanto à inibição das principais enzimas hepáticas do citocromo P450: a inibição de CYP2C8 pelo extrato aquoso de cavalinha, com IC50 de 93 µg/mL, e a conclusão de que o uso concomitante com produtos que dependem dessa enzima é significativo
- Carneiro DM et al. (2022), Phytomedicine 99:153955 — ensaio clínico randomizado duplo-cego do efeito anti-hipertensivo da Equisetum arvense: a queda média de 12,6 mmHg na pressão sistólica e 8,1 mmHg na diastólica com extrato seco de 900 mg por dia durante três meses em 58 pacientes com hipertensão estágio 1
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026