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Guia da Saúde

Como fazer óleo de ervas: a única fórmula oficial

Entre as 236 formulações do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa, uma única usa óleo como líquido extrator: a Fórmula 6 da calêndula, com óleo fixo — por exemplo, óleo de oliva — na relação 1:10. E ela não termina em frasco de óleo: os 2 a 8 mL obtidos são incorporados a creme base. O óleo de ervas oficial é um passo intermediário, não um produto.

A fórmula oficial, palavra por palavra

A orientação de preparo da Fórmula 6 da calêndula é curta e diz tudo:

“O extrato fluido de flores deve ser preparado, utilizando como líquido extrator um óleo fixo (por exemplo: óleo de oliva), seguindo a RDE 1:10. Transferir 2 a 8 mL desse extrato fluido para recipiente adequado. Incorporar ao creme base e misturar até homogeneização completa.”

Três informações que qualquer receita caseira omite:

  1. RDE 1:10 — relação droga-extrato. Uma parte de flor seca para dez de óleo, em massa. É a diferença entre “encher o vidro de flor” e ter concentração conhecida.
  2. Óleo fixo, e não óleo essencial. São coisas opostas, e a confusão entre elas é a origem de boa parte dos acidentes domésticos com óleo. A distinção está em diferença entre óleo essencial e óleo vegetal.
  3. Destino em creme base. O extrato oleoso não é passado na pele como está: entra numa base, em proporção definida.

Vale notar o que a fórmula usa: flor seca. Todo o Formulário trabalha com droga vegetal seca, com uma exceção — a alcoolatura, definida como maceração a frio de material vegetal fresco em álcool a 80%, e mesmo ali o texto manda considerar “o teor de água do insumo utilizado”. Água é a variável que o documento nunca deixa solta.

Por que planta fresca em óleo é problema

É aqui que a página deixa de falar de fitoterapia e passa a falar de microbiologia. Óleo cria um ambiente anaeróbio; planta fresca leva água e esporos do solo; e material vegetal é, em geral, pouco ácido. Essa é exatamente a combinação que Clostridium botulinum precisa para germinar e produzir toxina.

Não é hipótese. Em fevereiro de 1989, três pessoas tiveram botulismo depois de comer pão de alho feito com um produto de alho em óleo. A análise do resto do produto encontrou pH 5,7 e altas concentrações da bactéria e da toxina. O episódio, publicado no American Journal of Public Health, foi o segundo do tipo — e levou a FDA a exigir inibidores microbianos ou agentes acidificantes nesses produtos.

O que isso significa na prática para quem quer fazer óleo de ervas em casa:

  • planta seca, não fresca, sempre que possível;
  • nada de conservar à temperatura ambiente um óleo com material vegetal fresco dentro;
  • cheiro, aparência e turvação alterados são motivo de descarte, não de coar e continuar;
  • o botulismo não muda cor, cheiro nem sabor do alimento — confiar no aspecto não protege.

E vale a distinção mais importante: óleo de ervas para a pele é uma coisa; óleo de ervas para comer é outra. Esta página trata do primeiro. A monografia da calêndula, aliás, é exclusivamente de uso externo, sem nenhuma indicação por via oral — o infuso dela é compressa e bochecho, não bebida. A espécie está detalhada em calêndula.

Óleo infundido não é óleo essencial

Confundir os dois é o erro que mais aparece:

Óleo infundido (macerado)Óleo essencial
Como se obtémPlanta em contato com óleo fixoDestilação por arraste de vapor, ou expressão
O que saiÓleo vegetal com constituintes lipossolúveis da plantaFração volátil concentrada, sem óleo vegetal
ConcentraçãoDiluída pela própria natureza do processoAltíssima; exige diluição antes do uso na pele
No FormulárioUma ocorrência: calêndula, RDE 1:10Monografias próprias, obtidas por método farmacopeico

O contraste fica claro no eucalipto: o óleo volátil da espécie tem monografia separada, deve ser extraído “conforme método Determinação de óleos voláteis em drogas vegetais disponível na Farmacopeia Brasileira”, e a forma final registrada é cápsula de 100 a 200 mg por via oral — não frasco de óleo para passar. Um óleo volátil não se obtém deixando planta de molho.

Para quem chegou aqui procurando qual óleo usar como veículo, o assunto está em óleo carreador: qual usar e em óleos essenciais.

Como fazer, com o que a fórmula sustenta

Não existe protocolo doméstico oficial. O que dá para reproduzir com honestidade é a lógica da fórmula:

  1. Use flor ou folha seca, da espécie que tenha monografia, rasurada — não planta colhida ainda úmida.
  2. Pese. A proporção da fórmula é 1 parte de droga vegetal para 10 de óleo, em massa. Olhômetro produz concentração desconhecida.
  3. Óleo fixo de qualidade, do tipo que a fórmula exemplifica (azeite de oliva). Óleo já rançoso não melhora com erva dentro.
  4. Recipiente de vidro âmbar, bem fechado, ao abrigo de luz e umidade — é o que o Formulário exige para extratos fluidos.
  5. Coe bem. Fragmento vegetal boiando é resíduo úmido dentro de meio anaeróbio.
  6. Guarde refrigerado e por pouco tempo, e descarte ao primeiro sinal de alteração.
  7. Não conte com potência: um macerado caseiro não tem o teor de um extrato com RDE conhecida, e não deve ser usado como se tivesse.

Se o objetivo final é um produto para passar na pele, a rota que o documento descreve é incorporar o extrato a uma base — caminho detalhado em como fazer pomada caseira.

Quando não usar

  • Pele com ferida aberta, corte ou queimadura — óleo caseiro não é curativo, e o Formulário restringe várias preparações externas à pele íntegra.
  • Histórico de alergia a plantas da família Asteraceae — a calêndula pertence a ela, e a monografia registra dermatite de contato em casos raros.
  • Crianças pequenas — o uso cutâneo da calêndula é contraindicado para menores de 6 anos, e o uso na mucosa oral, para menores de 12.
  • Gestação e lactação — o uso da calêndula é contraindicado nas duas situações por falta de dados adequados.

E o gatilho que a própria monografia fixa: se os sintomas persistirem após uma semana de uso ou se houver sinais de infecção cutânea, procurar um médico. O índice das espécies publicadas está em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Óleo de ervas caseiro pode ser usado na comida?

Aí o risco muda de categoria. O caso publicado em 1990 foi exatamente esse: alho conservado em óleo, usado em pão de alho, com botulismo em três pessoas. O produto tinha pH 5,7, ou seja, pouco ácido, e continha a bactéria e a toxina. Óleo aromatizado com planta fresca não é conserva segura à temperatura ambiente.

Quanto tempo dura um óleo de ervas feito em casa?

Não existe validade oficial, porque não existe fórmula oficial de óleo de ervas como produto final. O que o Formulário exige para extratos fluidos é frasco de vidro âmbar e proteção contra luz e umidade. Óleo vegetal ainda rancifica com o tempo, e o cheiro alterado é sinal de descarte.

Preciso aquecer o óleo para extrair melhor?

A fórmula oficial não manda aquecer: descreve extração com óleo fixo seguindo a relação 1:10, sem temperatura especificada. Aquecer óleo com planta em casa aumenta a chance de queimar o material vegetal, oxidar o óleo e criar falsa sensação de esterilização, que não elimina esporos.

Óleo de calêndula pode ser ingerido?

Não. A monografia europeia da calêndula registra apenas uso externo, sem nenhuma indicação por via oral. O extrato em óleo fixo da fórmula brasileira é matéria-prima de creme para a pele, e não uma preparação para beber ou temperar.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a Fórmula 6 da calêndula (Calendula officinalis), única formulação do documento que usa óleo fixo como líquido extrator — extrato fluido de flores preparado com óleo fixo, por exemplo óleo de oliva, seguindo a relação droga-extrato 1:10, do qual se transferem 2 a 8 mL para incorporação em creme base; a definição de maceração; a definição de alcoolatura, única preparação do documento feita com planta fresca, considerando o teor de água do insumo; e a monografia do óleo volátil de eucalipto, obtido por método farmacopeico e apresentado em cápsula de 100 a 200 mg
  2. Morse DL, Pickard LK, Guzewich JJ, Devine BD, Shayegani M. Garlic-in-oil associated botulism: episode leads to product modification. American Journal of Public Health 1990;80(11):1372-1373 (PMID 2240308): três casos de botulismo em fevereiro de 1989 após consumo de pão de alho feito com produto de alho em óleo, cujo resíduo apresentou pH de 5,7 e altas concentrações de Clostridium botulinum e de toxina, levando a FDA a exigir inibidores microbianos ou agentes acidificantes nesses produtos
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Calendula officinalis L., flos: as indicações registradas exclusivamente de uso externo, sem qualquer indicação por via oral, e as preparações líquidas e semissólidas para uso cutâneo que correspondem às fórmulas brasileiras de creme e de extrato em óleo fixo

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026