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Guia da Saúde

Como fazer pomada caseira: as 6 fórmulas da Anvisa

O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa tem seis pomadas. Nenhuma delas começa com erva e gordura numa panela: todas partem de uma base pronta — pomada simples, pomada base, pomada lano-vaselina ou uma mistura de polietilenoglicóis — e de um extrato com teor definido. E três monografias da mesma família repetem a instrução que contraria o uso popular: aplicar apenas em pele íntegra.

As seis pomadas, e do que cada uma parte

EspécieAtivo na fórmulaBaseComo usar
ArnicaTintura da flor a 10% ou 20%, 20 a 25 mLPomada simples q.s.p. 100 gFina camada, 2 a 3 vezes ao dia
ConfreiExtrato fluido de raiz, 10 mLPomada base q.s.p. 100 gÁreas afetadas, 2 vezes ao dia
Hamamélis (casca)Extrato seco, 1,3 g (1,3% na fórmula final)Pomada base q.s.p. 100 gNo local, várias vezes ao dia
Castanha-da-índia (semente)Extrato seco ajustado a 0,4% de glicosídeos triterpênicosPomada lano-vaselina q.s.p. 100 gConforme a monografia
Equinácea (planta inteira)Extrato liofilizadoPomada lano-vaselina q.s.p. 100 gFina camada, 2 a 3 vezes ao dia
BarbatimãoExtrato aquoso seco da casca, 50 g, com no mínimo 22% de polifenóisPolietilenoglicóis 400, 1500 e 4000, propilenoglicol, água purificada e metilparabenoApós higienização, 1 a 2 vezes ao dia

O ponto que atravessa a tabela inteira: o ativo entra com teor conhecido. Tintura a 10% ou a 20%, extrato seco ajustado a 0,4% de glicosídeos, extrato com no mínimo 22% de polifenóis, extrato fluido com relação droga-extrato 2:1. Uma pomada caseira feita com folha macerada tem o mesmo formato e uma concentração que ninguém sabe qual é — nem para mais, nem para menos.

O preparo da tintura, que é o passo anterior em duas dessas fórmulas, está em como fazer tintura.

A fórmula que mostra por que “caseira” é outra coisa

A pomada de barbatimão é a única do documento com procedimento de fabricação descrito passo a passo, e ele responde sozinho à pergunta do título:

Levar a Fase A e a Fase B separadamente ao fogo até atingirem a temperatura de 85 °C. Misturar as duas fases, vertendo a fase B sobre a fase A, e deixar esfriar. Envasar e etiquetar.

A Fase A são 456,48 g de polietilenoglicol 400, 181,32 g de PEG 1500 e 243,99 g de PEG 4000. A Fase B leva propilenoglicol, água purificada, metilparabeno a 0,2% como conservante e o extrato aquoso seco. Três casas decimais nas pesagens, temperatura controlada, conservante e etiqueta.

Não é preciosismo: é o que garante que a pomada tenha sempre a mesma concentração, não separe e não vire meio de cultura. É também a razão de essas fórmulas serem preparações oficinais, isto é, feitas em farmácia habilitada a partir da fórmula inscrita no Formulário — e não receitas domésticas.

Pomada não é para ferida aberta

Aqui está a inversão mais importante da página. A imagem popular da pomada de ervas é a de curar corte, arranhão e machucado. As monografias vão na direção oposta:

  • Arnica“não utilizar por via oral e em lesões abertas”, “deve ser aplicada apenas em pele íntegra”, com suspensão ao primeiro sinal de reação adversa;
  • Confrei“aplicar apenas na pele íntegra (sem solução de continuidade)”;
  • Erva-baleeira, em gel — “utilizar apenas na pele íntegra, sem solução de continuidade”.

A indicação dessas três não é cicatrização: é contusão, entorse e dor muscular localizada, com a pele fechada por cima. Aplicar num corte aberto expõe tecido cru a álcool residual, a extrato concentrado e a uma base não estéril.

O documento tem, sim, uma pomada com indicação de cicatrizante e antisséptico da pele e mucosas — a de barbatimão, aplicada após higienização, de uma a duas vezes ao dia. E tem um gel para queimaduras de 1º e 2º grau, escoriações e abrasões: o de babosa, com 10 a 70 g de gel mucilaginoso em 100 g de gel base. As duas coisas estão em babosa para cicatrização e babosa.

O confrei é o caso que exige mais cuidado

Entre as seis, é a pomada com a lista de restrições mais longa — e todas cabem em cinco linhas:

  • uso adulto; contraindicado para menores de 18 anos, gestantes e lactantes;
  • não usar internamente, por propriedades hepatotóxicas;
  • apenas em pele íntegra;
  • não utilizar por mais de 10 dias;
  • procurar médico se os sintomas persistirem por mais de 10 dias.

Dez dias é o limite mais curto de qualquer preparação externa do Formulário. Vale o contraste com a arnica, cuja advertência manda reavaliar em 3 a 4 dias — não porque a arnica seja mais tóxica, mas porque a indicação dela é aguda: contusão que não melhora em três ou quatro dias mudou de categoria.

A gordura vegetal que aparece uma vez só

Há um único ponto do Formulário em que uma gordura é usada como líquido extrator, e ele está na calêndula: a Fórmula 7 manda preparar o extrato das flores usando “gordura vegetal solidificada ou vaselina sólida, nas proporções 1:5 ou 1:25”, e depois incorporar 4 a 20 mL desse extrato a creme base até homogeneizar.

É o parente mais próximo, em documento oficial, da velha “banha com erva”. E mesmo ele não é o produto final: é matéria-prima que entra numa base. O mesmo vale para a extração em óleo fixo, tratada em como fazer óleo de ervas. A espécie está em calêndula.

O detalhe de conservação que quase ninguém segue

Todas as monografias de formas semissólidas do Formulário repetem a mesma instrução de armazenamento, e ela vale para qualquer pote caseiro:

Acondicionar em recipiente adequado bem fechado. Armazenar em local fresco, seco e ao abrigo da luz. Caso o acondicionamento for em pote, utilizar preferencialmente espátula para retirar o produto.

Dedo no pote transfere microrganismo da pele para dentro de uma base sem conservante — e a única fórmula do documento que declara conservante é a do barbatimão, com metilparabeno a 0,2%. Uma pomada caseira sem conservante, aberta e mexida com o dedo, é um problema microbiológico esperando data.

Quando não é caso de pomada

  • Ferida aberta, corte profundo, queimadura com bolha, mordida de animal — atendimento, não pomada.
  • Sinal de infecção: vermelhidão que se espalha, calor, pus, dor crescente, febre.
  • Piora durante o uso ou aparecimento de coceira, vesículas e descamação no local — suspender e procurar avaliação. A arnica registra que o uso prolongado pode provocar eczema.
  • Dor que não cede em 3 a 4 dias após contusão ou entorse, ou incapacidade de apoiar o membro.

Para escolher a via certa antes de escolher o produto, o panorama das preparações externas está em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Dá para fazer pomada com cera de abelha e azeite em casa?

Dá para fazer um preparado semissólido, mas ele não corresponde a nenhuma fórmula oficial: as seis pomadas do Formulário usam pomada simples, pomada base, pomada lano-vaselina ou uma mistura de polietilenoglicóis. Cera de abelha não aparece em nenhuma delas, e a concentração do ativo fica desconhecida.

Quanto tempo dura uma pomada feita em casa?

O Formulário não fixa validade para pomada caseira porque não descreve pomada caseira. Para as oficiais, exige recipiente bem fechado, local fresco, seco e ao abrigo da luz. Preparação sem conservante, guardada em pote aberto com o dedo, tem contaminação como desfecho previsível.

Posso passar pomada de arnica em criança?

A monografia da arnica é de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos, e contraindica gestação e lactação. Abaixo dessa idade não há dose oficial. Vale lembrar que arnica é da família Asteraceae e tem relatos de reações alérgicas com formação de vesículas.

Pomada de confrei pode ser usada por quanto tempo?

Dez dias, no máximo — o limite está escrito na monografia. O confrei é de uso adulto, contraindicado abaixo de 18 anos, na gestação e na lactação, não pode ser usado internamente por hepatotoxicidade e só pode ser aplicado em pele íntegra. É a pomada com as restrições mais duras do documento.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a definição de pomada como forma farmacêutica semissólida para pele ou mucosa, com o ativo disperso em baixas proporções numa base usualmente não aquosa; as seis formulações de pomada do documento — castanha-da-índia, arnica, equinácea, hamamélis, barbatimão e confrei — com base, teor e modo de usar de cada uma; a exigência de espátula para retirar o produto do pote; e as advertências de aplicar apenas em pele íntegra, sem solução de continuidade, na arnica, no confrei e na erva-baleeira
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Symphytum officinale L., radix: o limite de dez dias de uso, a restrição a adultos, a proibição de uso interno por hepatotoxicidade e a exigência de aplicação apenas em pele íntegra, reproduzidas na monografia brasileira do confrei
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Calendula officinalis L., flos: as indicações exclusivamente externas da espécie e as preparações semissólidas correspondentes, que na versão brasileira incluem um extrato obtido com gordura vegetal solidificada ou vaselina sólida nas proporções 1:5 ou 1:25, incorporado a creme base

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026