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Guia da Saúde

Espinheira-santa e remédios: o que a monografia diz

A monografia da espinheira-santa não abre uma seção de interações com lista de fármacos. Ela faz algo mais raro: manda evitar o uso por usuários polimedicados — uma restrição por perfil de paciente, não por remédio — e depois nomeia cinco alvos: esteroides anabolizantes, metotrexato, amiodarona, cetoconazol e imunossupressores.

A restrição por perfil, e o motivo escrito

O texto da monografia, resumido sem perder a estrutura do argumento: compostos polifenólicos podem ser precursores de quinonas ou de intermediários quinonametídeos, que são inativadores das enzimas CYP; e testes fora do organismo mostraram que compostos fenólicos podem modular a atividade da glicoproteína-P. Por isso, conclui o documento, deve ser evitado o uso por usuários polimedicados.

Traduzindo os dois alvos:

AlvoO que fazPor que importa
Enzimas CYP (citocromo P450)metabolizam a maioria dos fármacos no fígado e no intestinoinibi-las tende a elevar a concentração do remédio
Glicoproteína-Pbomba que devolve substâncias para fora da célula intestinalinibi-la tende a aumentar a absorção do remédio

Os dois empurram na mesma direção — mais fármaco disponível do que o previsto — e é isso que torna o cenário de muitos medicamentos simultâneos o mais delicado.

O experimento que mediu esse efeito

Em 2020, um grupo brasileiro testou exatamente essas duas vias com extratos da planta, um deles obtido por infusão — ou seja, o chá comum. Os resultados:

  • na glicoproteína-P, medida pela captação de fexofenadina em células Caco-2, a captação subiu de 1,7 ng por mg de proteína no controle para 3,5 com o extrato por infusão e 4,4 com o extrato hidroacetônico;
  • na CYP3A, medida com midazolam administrado por via oral em ratos, a área sob a curva subiu de 912 para 1947 (infusão) e 2219 (extrato hidroacetônico) ng·h/mL, e a concentração máxima passou de 408 para 1770 e 1987 ng/mL — o que corresponde a uma redução de cerca de 50% do clearance oral do fármaco;
  • nenhum efeito foi observado quando o midazolam foi dado por via intravenosa.

Esse último ponto é o mais informativo: se o efeito some quando o remédio não passa pelo intestino, a interação descrita é intestinal, no ponto de absorção. Os próprios autores encerram com a ressalva devida — a relevância clínica ainda precisa ser esclarecida. É um sinal mecanístico forte, não uma interação comprovada em pacientes.

Os cinco nomes da monografia

O documento cita possível interação com:

  • esteroides anabolizantes, metotrexato, amiodarona e cetoconazol — por possível dano hepático, isto é, a preocupação é a soma com fármacos que já têm potencial de agredir o fígado;
  • imunossupressores — por efeitos antagonistas, ou seja, a planta poderia trabalhar contra o efeito pretendido do medicamento.

São dois raciocínios distintos: no primeiro grupo, o risco é de somar toxicidade; no segundo, de subtrair eficácia. Os quatro primeiros e os imunossupressores têm em comum serem medicamentos acompanhados por exame, e é justamente esse tipo de tratamento que não comporta variável desconhecida.

Um dado fora do eixo das interações: exames de medicina nuclear

Existe ainda um achado que não é interação medicamentosa, mas encosta no tema e raramente é publicado. Um estudo de 2000 incubou sangue com extrato de Maytenus ilicifolia e depois fez a marcação com tecnécio-99m, o radiofármaco usado em cintilografias. O percentual de radioatividade nas células caiu de 93,6% para 29,0%, e nas frações insolúveis a queda foi da mesma ordem.

A explicação proposta pelos autores é química: substâncias oxidantes do extrato converteriam o íon estanoso, necessário à marcação, em estânico. O experimento é in vitro — sangue em tubo, não paciente — e não permite afirmar que o chá atrapalha um exame. Permite, sim, justificar um comportamento simples: informar a equipe do exame sobre o que se está tomando, chá incluído.

Vale notar, para leitura correta da fonte: esse é o trabalho citado pela própria monografia no ponto em que ela lista os medicamentos acima. Quem for atrás da referência original vai encontrar um estudo de marcação de hemácias, e não um relato clínico de interação — o que ajuda a dimensionar o peso da lista: ela é precaucional.

As reações adversas descritas para a planta isolada estão em espinheira-santa: efeitos colaterais, e os grupos que não devem usar em quem não pode tomar espinheira-santa. Comparar ajuda: no gengibre a restrição brasileira é contra um alvo só, a coagulação; aqui ela é contra um cenário, o de muitos remédios ao mesmo tempo. O panorama da espécie está em espinheira-santa.

Perguntas frequentes

Espinheira-santa corta o efeito do anticoncepcional?

Não há interação com contraceptivos hormonais registrada na monografia. O que existe é uma advertência mais ampla, de evitar o uso por quem toma vários medicamentos, e um experimento em ratos e em células sugerindo efeito sobre a CYP3A e a glicoproteína-P, vias que participam do metabolismo de muitos fármacos. Como o assunto é gravidez, a pergunta merece ser levada a quem prescreveu.

Pode tomar junto com omeprazol ou antiácido?

Nenhum dos documentos consultados registra interação com inibidores de bomba de prótons ou antiácidos. A pergunta útil é outra: se você está em tratamento prescrito para uma queixa gástrica, o chá não substitui esse tratamento nem serve para abandoná-lo por conta própria.

Quem faz quimioterapia ou usa imunossupressor pode?

A monografia cita possível interação com metotrexato, por possível dano hepático, e com imunossupressores, por efeitos antagonistas — ou seja, o chá poderia trabalhar contra o efeito pretendido do medicamento. São dois cenários em que a dose é calculada com precisão e monitorada, e nos quais nada entra sem o conhecimento da equipe.

Vou fazer cintilografia. Preciso avisar?

Sim, vale avisar. Um estudo de 2000 mostrou, em laboratório, que o extrato da planta reduziu a marcação de hemácias com tecnécio-99m de 93,6% para 29,0%. É um experimento fora do organismo, não um relato clínico, mas exames de medicina nuclear dependem justamente dessa marcação, e a equipe é quem avalia.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT052, Monteverdia ilicifolia: a orientação de evitar o uso por usuários polimedicados, justificada por compostos polifenólicos precursores de quinonas e intermediários quinonametídeos inativadores das CYP e pela modulação da glicoproteína-P por compostos fenólicos, e a citação de possível interação com esteroides anabolizantes, metotrexato, amiodarona e cetoconazol por possível dano hepático, e com imunossupressores por efeitos antagonistas
  2. do Nascimento SB et al. (2020), Current Drug Metabolism 21(4):281-290 — avaliação dos efeitos de Maytenus ilicifolia sobre a atividade do citocromo P450 3A e da glicoproteína-P: o aumento da captação de fexofenadina em células Caco-2 na presença dos extratos, o aumento da área sob a curva e da concentração máxima do midazolam administrado por via oral em ratos, a redução de cerca de 50% do clearance oral, a ausência de efeito quando o midazolam foi dado por via intravenosa e a ressalva de que a relevância clínica ainda precisa ser esclarecida
  3. de Oliveira JF et al. (2000), Journal of Ethnopharmacology 72(1-2):179-184 — efeito do extrato de Maytenus ilicifolia sobre a marcação de hemácias e proteínas plasmáticas com tecnécio-99m: a queda do percentual de radioatividade nas células de 93,6% para 29,0% e a hipótese de que substâncias oxidantes do extrato convertem o íon estanoso em estânico, prejudicando a marcação

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026