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Guia da Saúde

Espinheira-santa na gravidez e na amamentação

O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa contraindica a espinheira-santa na gestação e na lactação — e, ao contrário do que acontece com a maioria das plantas, ele não deixa o motivo implícito. A frase traz duas justificativas diferentes, uma para cada situação: reduzir a produção do leite materno e poder provocar contrações uterinas.

A frase da monografia, na íntegra

“O uso é contraindicado para menores de 18 anos, durante a gestação e lactação, por reduzir a produção do leite materno e poder provocar contrações uterinas.”

Três grupos numa frase só, com dois motivos declarados. Vale separar o que cada motivo alcança:

SituaçãoMotivo declarado
Gestaçãopossibilidade de contrações uterinas
Lactaçãoredução da produção de leite materno
Menores de 18 anosmotivo não declarado nesse trecho — ver a página da faixa etária

Poucas monografias do Formulário nomeiam efeito sobre a lactação. Aqui, ele é o motivo principal da restrição durante a amamentação, e não uma precaução genérica de “falta de dados”.

O estudo que está por trás da advertência

A referência que sustenta essa parte da monografia é um trabalho publicado na revista Contraception, em 2002, com camundongas prenhes. O que ele fez e o que encontrou:

  • administrou por via oral o extrato hidroalcoólico liofilizado da folha, a 1000 mg/kg por dia, em três janelas diferentes: do primeiro ao terceiro dia de prenhez, do quarto ao sexto e do sétimo ao nono;
  • observou perda embrionária antes da implantação;
  • não observou efeito sobre a implantação nem sobre a organogênese;
  • não encontrou alterações morfológicas do sistema reprodutivo nem efeito embriotóxico;
  • encontrou atividade estrogênica, evidenciada por efeito uterotrófico, e concluiu que a planta pode estar interferindo na receptividade uterina ao embrião.

Ser preciso aqui importa: o achado central do estudo é uma falha de implantação por efeito hormonal, e não uma contração que expulsa uma gestação já instalada. A advertência brasileira fala em contrações uterinas apoiada num conjunto de referências mais amplo; o experimento específico descreve outro mecanismo, anterior à implantação. As duas leituras apontam para a mesma conduta — não usar —, mas por caminhos distintos, e vale saber qual é qual.

O detalhe que reorganiza a conversa: a planta do estômago é usada como contraceptivo

A primeira linha do resumo desse mesmo estudo diz que Maytenus ilicifolia é usada na medicina tradicional brasileira sobretudo para distúrbios do estômago, mas também é usada, como em outras partes da América do Sul, para controle de fertilidade.

É a informação que mais falta nos textos populares sobre a espécie. A planta que chega ao consumidor brasileiro com a fama de “chá para gastrite” carrega, na literatura, uma segunda tradição de uso que nada tem a ver com digestão — e é essa tradição que motivou o experimento em camundongas.

O que não existe: dado em gestante

Não há estudo clínico de espinheira-santa em gestantes ou lactantes. O único ensaio em humanos com a folha é de fase I, feito com 24 voluntários saudáveis entre 20 e 40 anos, 12 homens e 12 mulheres, para estabelecer dose máxima tolerada — não é um estudo de segurança em gravidez, e não pretendia ser.

Nesse cenário, a contraindicação não depende de comprovação de dano em pessoas: ela depende de haver sinal experimental relevante e nenhum dado que o afaste. É exatamente o caso.

A lista completa de quem deve evitar está em quem não pode tomar espinheira-santa, o preparo e as doses em chá de espinheira-santa e a descrição da espécie em espinheira-santa. Planta medicinal tem dose e contraindicação — e nesta a gestação está escrita, com motivo, na própria monografia.

Perguntas frequentes

Tomei chá de espinheira-santa sem saber que estava grávida. E agora?

O caminho é contar para quem faz o pré-natal, com a informação de quanto e por quantos dias, e seguir a orientação de lá. O que existe publicado é uma contraindicação formal e um estudo em camundongas com dose muito alta — não há dado que permita estimar risco de uma exposição pontual em pessoas, e nem essa página nem nenhuma outra substitui a avaliação de quem acompanha a gestação.

E quem está tentando engravidar?

A monografia não fala em tentativa de gravidez, mas o estudo de 2002 registra que a planta é usada na América do Sul para controle de fertilidade e observou perda embrionária antes da implantação em camundongas. É um dado de animal, não de pessoas, e ainda assim é motivo suficiente para levar o assunto a quem acompanha o tratamento.

O chá corta o leite ou só diminui?

A palavra da monografia é reduzir: a contraindicação na lactação existe por reduzir a produção do leite materno. O texto não quantifica quanto nem diz que o efeito é permanente. Reduzir a produção durante a amamentação já é motivo suficiente para a contraindicação.

Existe chá seguro para azia na gravidez?

Esta página não pode responder isso pela espinheira-santa, que está contraindicada. Azia na gestação é queixa comum e tem manejo próprio, incluindo medidas alimentares e medicamentos com segurança avaliada para o período — assunto de quem faz o pré-natal, não de tentativa e erro com plantas.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT052, Monteverdia ilicifolia: a contraindicação durante a gestação e a lactação, com os dois motivos declarados no texto (reduzir a produção do leite materno e poder provocar contrações uterinas) e a lista de referências que sustenta a advertência
  2. Montanari T, Bevilacqua E (2002), Contraception 65(2):171-5 — efeito de Maytenus ilicifolia em camundongas prenhes: o registro de que a planta também é usada na América do Sul para controle de fertilidade, a administração oral do extrato hidroalcoólico liofilizado da folha a 1000 mg/kg/dia, a perda embrionária pré-implantação, a ausência de efeito sobre implantação e organogênese e a atividade estrogênica com efeito uterotrófico
  3. Tabach R, Duarte-Almeida JM, Carlini EA (2017), Phytotherapy Research 31(6):921-926 — estudo clínico de fase I com extrato de folha de Maytenus ilicifolia: a seleção de 24 voluntários saudáveis entre 20 e 40 anos, que delimita a população em que a segurança da planta foi avaliada em humanos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026