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Guia da Saúde

Agrotóxico em erva seca: o limite existe, o exame não

O Brasil tem limite de agrotóxico para erva de chá: a Farmacopeia Brasileira dedica um capítulo inteiro ao assunto e publica uma tabela com 69 entradas de substâncias e grupos, cada uma com seu teto em miligramas por quilo de droga vegetal. O que o Brasil não tem é medição de rotina: o programa nacional que monitora resíduo analisou 14 alimentos no ciclo 2024, e nenhum deles é erva de chá.

A tabela que quase ninguém sabe que existe

O capítulo 5.4.3 da Farmacopeia Brasileira define agrotóxico para efeito da norma e diz, sem rodeio, que “os resíduos de agrotóxicos devem ser controlados em drogas vegetais e seus derivados”. Em seguida vem a Tabela 1, com o limite aceitável por substância. Uma amostra dela:

SubstânciaLimite (mg/kg de droga vegetal)
Mirex0,01
Clortal-dimetílico0,01
Acefato0,1
Clorpirifós-etílico0,2
Ditiocarbamatos (expressos como CS₂)2
Endosulfan (soma de isômeros e sulfato)3

Repare na amplitude: de 0,01 a 3 mg/kg, ou seja, uma faixa de 300 vezes entre a substância mais restrita e a mais tolerada. Não existe um “limite de agrotóxico” único — existe um limite por molécula, calibrado pelo risco de cada uma.

A fórmula, e a suposição embutida nela

Para agrotóxico que não esteja na tabela nem na legislação, a Farmacopeia manda calcular:

LARDV = (IDA × M) / (DDD × 100)

LARDV = limite aceitável de resíduos, em mg/kg da droga vegetal; IDA = ingestão diária aceitável, em mg/kg de peso corporal; M = peso corporal, tomando-se como convenção 60 kg; DDD = dose diária da droga, em kg.

E há uma nota que é o dado mais interessante do capítulo: “O fator de 100 corresponde à participação da ingestão da droga na dieta diária (1%).”

Ou seja: o cálculo pressupõe que a erva represente 1% do que a pessoa ingere por dia. É uma suposição razoável para quem toma uma xícara — e deixa de ser para quem substituiu a água por chá. A própria norma prevê o ajuste: o fator “pode ser alterado segundo os hábitos alimentares da população devidamente documentados”. Quantas xícaras cabem num dia é assunto de quantas xícaras de chá por dia.

A norma também admite que as análises podem ser dispensadas, total ou parcialmente, pela autoridade competente, quando a forma de obtenção da matéria-prima indicar ausência do risco. Limite existe; obrigação de medir caso a caso, nem sempre.

O programa que mede — e o que ele mede

O PARA, Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, é o monitoramento nacional, coordenado pela Anvisa com as vigilâncias estaduais e municipais e os laboratórios públicos. No ciclo 2024, os números foram:

  • 3.084 amostras analisadas;
  • 14 alimentos: abobrinha, aveia, banana, cebola, couve, laranja, mamão, maçã, milho, pepino, pera, soja, trigo e uva;
  • 20,6% de amostras insatisfatórias — o menor percentual desde 2017;
  • 0,39% das amostras, ou 12 delas, indicando risco agudo ao consumidor.

A irregularidade mais comum não foi resíduo acima do limite: foi agrotóxico não autorizado para a cultura em que apareceu.

Agora leia a lista dos 14 outra vez. Nenhum é erva de chá. O PARA monitora alimentos da dieta básica brasileira, e camomila, capim-limão, boldo e hortelã não estão entre eles. Isso não afirma que haja mais ou menos resíduo em erva de chá do que em fruta — afirma que, no ciclo mais recente, não foi medido. Publicar suposição a partir de dado que não existe seria inventar.

O desencontro dos dois sistemas

Junte as duas metades e aparece a lacuna:

Erva como droga vegetalErva como alimento
Norma de limiteFarmacopeia, capítulo 5.4.3Limites máximos de resíduo da legislação de alimentos
Quem respondeFabricante de fitoterápico e insumoProdutor e comércio
Monitoramento de rotinaEnsaio por lote, com dispensa possívelPARA — que não incluiu erva de chá em 2024

A mesma folha muda de regime conforme o que está escrito na embalagem. Vendida para virar fitoterápico, ela entra no capítulo da Farmacopeia. Vendida como chá de prateleira, ela é alimento — e o programa que fiscaliza alimento olhou para outros 14 produtos. O que muda entre as formas de venda está em chá de saquinho ou a granel.

O que o rótulo “orgânico” resolve disso

Resolve a origem, não o exame. A Lei nº 10.831/2003 define a finalidade do sistema orgânico como “a oferta de produtos saudáveis isentos de contaminantes intencionais — e agrotóxico sintético é, por definição, um contaminante intencional. É exatamente o buraco que a certificação orgânica cobre.

O que ela não cobre é tudo o que entra sem intenção: fungo, aflatoxina, umidade, espécie trocada. Essa conta está feita em chá orgânico vale a pena?.

E vale a advertência que fecha: erva colhida em beira de estrada, em terreno baldio ou em lavoura vizinha não tem nem certificação nem ensaio — o risco somado está em planta medicinal do mato.

Perguntas frequentes

Lavar a erva seca tira agrotóxico?

Não é um procedimento previsto em lugar nenhum, e molhar erva seca cria o problema que a norma manda evitar: umidade. Os limites da Farmacopeia se aplicam à droga vegetal como ela é, seca e pronta para uso, justamente porque não se supõe nenhuma lavagem depois.

Ferver o chá elimina resíduo de agrotóxico?

A Farmacopeia não trata a fervura como etapa de redução de resíduo. O que ela faz é calcular limites para a droga vegetal e, separadamente, limites para os derivados vegetais, usando a relação droga-extrato. Nenhuma dessas contas supõe que o calor da chaleira resolva.

Chá de saquinho é mais controlado que erva a granel?

Nesse aspecto específico, os dois estão sob a mesma lacuna: o programa nacional de monitoramento não analisou erva de chá no ciclo mais recente. O que muda entre as duas formas de venda é outra coisa, ligada ao que dá para ver da planta.

Comprar em farmácia de manipulação resolve?

Muda o regime: matéria-prima destinada a fitoterápico está sujeita aos ensaios da Farmacopeia, inclusive o de resíduos de agrotóxicos, com dispensa possível apenas quando a autoridade competente reconhece que a forma de obtenção afasta o risco. Erva vendida como alimento não passa por esse capítulo.

Fontes

  1. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume I (Anvisa, RDC nº 1.026 de 15 de maio de 2026) — método geral 5.4.3, Determinação de resíduos de agrotóxicos: a Tabela 1 com 69 entradas de substâncias e grupos e seus limites em mg/kg de droga vegetal, e a fórmula LARDV = (IDA × M) / (DDD × 100), em que M é o peso corporal convencionado de 60 kg e o fator 100 corresponde à participação da droga em 1% da dieta diária
  2. Anvisa — Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), ciclo 2024: as 3.084 amostras analisadas, os 14 alimentos monitorados (abobrinha, aveia, banana, cebola, couve, laranja, mamão, maçã, milho, pepino, pera, soja, trigo e uva), os 20,6% de amostras insatisfatórias e as 12 amostras (0,39%) que indicaram risco agudo ao consumidor
  3. Anvisa — página oficial do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, com os relatórios por ciclo e a descrição do programa como monitoramento de alimentos de origem vegetal da dieta brasileira, coordenado pela Anvisa com as vigilâncias estaduais e municipais e os laboratórios públicos
  4. Lei nº 10.831, de 23 de dezembro de 2003 — art. 1º, § 1º, inciso I: a finalidade do sistema orgânico de produção enunciada como a oferta de produtos saudáveis isentos de contaminantes intencionais, e o art. 3º, que exige certificação por organismo reconhecido oficialmente para comercialização

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026