Erva mofada: o que fazer, pela Farmacopeia
Erva de chá com mofo se descarta. Não se lava, não se seca de novo, não se aproveita a parte limpa. A razão não é estética: a Farmacopeia Brasileira exige que a droga vegetal seja isenta de fungos e, no mesmo documento, fixa limite para a aflatoxina — a toxina que alguns desses fungos deixam na erva e que a fervura não desfaz.
O que a norma diz, em uma frase
O capítulo 5.4.1.3 da Farmacopeia Brasileira, que trata de matéria estranha em droga vegetal, é direto: “As drogas devem ser isentas de fungos, de insetos e de outras contaminações de origem animal.” E fecha a seção com o motivo:
“Tomar precauções especiais para evitar a proliferação de fungos, uma vez que alguns deles podem produzir toxinas.”
Isso resolve a pergunta prática. Não existe percentual tolerado de mofo — o teto de 2% do capítulo vale para matéria estranha em geral (pedaço de outra parte da planta, sujidade mineral), e fungo não entra nessa conta porque a exigência é de ausência.
A toxina é o motivo, e ela não vai embora com água quente
O documento tem um capítulo só para isso, o 5.4.4, Determinação de aflatoxinas, com dois métodos analíticos e um critério de aceitação numérico:
| Analito | Limite máximo aceito |
|---|---|
| Aflatoxina B1 | menos de 5 µg/kg |
| Soma de B1, B2, G1 e G2 | menos de 20 µg/kg |
Repare na ordem de grandeza: microgramas por quilo. É um limite que só um laboratório enxerga — nenhuma inspeção visual, nenhum cheiro e nenhum tempo extra de fervura substituem o ensaio. Por isso a conduta doméstica correta diante de erva mofada não é tentar recuperar: é descartar.
E há uma assimetria que costuma passar batido: ferver mata o fungo, mas a aflatoxina é uma molécula estável que continua ali depois que o organismo morreu. São dois problemas diferentes, e a Farmacopeia os trata em ensaios diferentes justamente porque um não resolve o outro.
Fungo permitido e mofo proibido não são contradição
Aqui está o ponto que confunde. A mesma Farmacopeia, no capítulo de limites microbianos (5.5.3.1.5), permite carga fúngica na erva de chá — e permite bastante:
| Insumo | Bactérias aeróbias | Fungos e leveduras |
|---|---|---|
| Droga vegetal rasurada que será submetida a pré-tratamento que reduz a carga microbiana | 10⁷ UFC/g | 10⁴ UFC/g |
| Droga vegetal rasurada que não será submetida a esse pré-tratamento | 10⁵ UFC/g | 10³ UFC/g |
| Extrato seco, extrato fluido e tintura | 10⁴ UFC/g | 10² UFC/g |
Dez mil unidades formadoras de colônia de fungo por grama é um número alto — e é legal, porque a erva ainda vai passar por processo extrativo a quente. Isso não contradiz a exigência de ausência de fungos do capítulo de matéria estranha: contagem microbiana em UFC por grama é uma coisa; colônia visível a olho nu é outra. Quando o mofo aparece na erva, o material já saiu de qualquer uma das duas faixas da tabela, e saiu por armazenamento — não é como ele chegou.
O contraste também explica por que o preparo do chá pede água fervente, e não morna: a tolerância microbiana da erva seca é calculada contando com o calor. Como esse calor entra na conta de cada preparo está em pode requentar chá.
O que leva a erva a mofar (e o que a norma manda fazer antes)
A seção de Generalidades do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa fixa a condição de guarda: temperatura ambiente entre 15 e 30 °C, com proteção contra umidade, congelamento, incidência direta de luz e calor excessivo. É a lista completa dos erros domésticos, escrita ao contrário.
E existe um antecedente: erva mal seca já entra mofando. Quando a monografia não traz técnica própria, o Formulário manda secar a planta fresca a 45 °C em estufa de ar circulante por três dias — o parâmetro está detalhado em secagem de ervas: temperatura. Quem seca folha à sombra por uma tarde e guarda em pote fechado não está reproduzindo isso: está guardando água junto com a folha.
E há um teto para essa água. O volume II da Farmacopeia, o das plantas medicinais, traz o ensaio Água (5.4.1.4) em cada monografia de droga vegetal, com um máximo próprio por espécie — 11,0% para a folha de capim-limão, 10,0% para a folha de melissa, 12,0% para a folha de hortelã-pimenta, 12,0% para a espinheira-santa. Nas 29 monografias que fixam esse limite de forma numérica, ele vai de 4,0% a 15,0%. Acima disso a erva deixa de ser conforme — e é justamente a água excedente que o fungo usa. O desdobramento está em validade de erva seca e a rotina de guarda em como guardar ervas secas.
Quando isso vira caso de serviço de saúde
Descartar a erva resolve o pacote, não a exposição que já aconteceu. Procure atendimento se, depois de tomar chá feito com erva visivelmente mofada, aparecer vômito persistente, dor abdominal forte, icterícia (pele ou olhos amarelados) ou urina escura — e leve a embalagem. A exposição de risco para aflatoxina é crônica e alimentar, mas sintoma novo depois de ingestão conhecida se avalia presencialmente, não pela internet.
Erva mofada é um problema de qualidade da matéria-prima, e qualidade de matéria-prima é o assunto que decide se a dose da monografia significa alguma coisa. O índice das espécies com monografia publicada aqui está em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Dá para lavar a erva mofada e usar depois?
Não. O problema não é o fungo visível, é a toxina que ele pode ter deixado na erva. Lavar remove o que se vê e não remove o que a Farmacopeia mede em microgramas por quilo. A norma pede droga vegetal isenta de fungos, não droga vegetal lavada.
Ferver a água mata o mofo?
A fervura mata o fungo vivo e não elimina a micotoxina que ele já produziu, porque são coisas de natureza diferente: uma é organismo, a outra é molécula estável. É por isso que a Farmacopeia trata contaminação fúngica e aflatoxina em capítulos separados, com ensaios separados.
E se o mofo estiver só num canto do pacote?
O pacote inteiro sai. Fungo cresce em rede, e a parte visível é a que frutificou — a colonização costuma ser maior que a mancha. Separar a parte boa exigiria o ensaio que a norma descreve, e esse ensaio é de laboratório, não de cozinha.
Como sei se a erva vai mofar?
Pelo que a leva a mofar: umidade e calor. O Formulário de Fitoterápicos manda guardar entre 15 e 30 °C, protegido da umidade, da luz direta e do calor excessivo. Erva guardada em pacote aberto acima do fogão reúne as três condições que a norma manda evitar.
Fontes
- Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume I (Anvisa, RDC nº 1.026 de 15 de maio de 2026) — método geral 5.4.1.3, Determinação de matéria estranha: a exigência de que as drogas vegetais sejam isentas de fungos, de insetos e de outras contaminações de origem animal, o teto de 2% p/p de matéria estranha e a advertência de tomar precauções especiais para evitar a proliferação de fungos, uma vez que alguns deles podem produzir toxinas
- Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume I (Anvisa, RDC nº 1.026 de 15 de maio de 2026) — método geral 5.4.4, Determinação de aflatoxinas: os limites máximos aceitos de menos de 5 µg/kg para a aflatoxina B1 e de menos de 20 µg/kg para a soma de B1, B2, G1 e G2 em drogas vegetais e derivados, salvo valor diferente em monografia específica
- Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume I (Anvisa, RDC nº 1.026 de 15 de maio de 2026) — método geral 5.5.3.1.5, Limites microbianos, Tabela 1: para droga vegetal rasurada ou triturada que será submetida a pré-tratamento que reduz a carga microbiana, o limite de 10⁷ UFC/g de bactérias aeróbias e 10⁴ UFC/g de fungos, com ausência de Escherichia coli em 1 g e de Salmonella em 10 g
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026), seção Generalidades — Armazenamento: a determinação de conservar matérias-primas e produtos em temperatura ambiente entre 15 e 30 °C, com proteção contra a umidade, o congelamento, a incidência direta de luz e o calor excessivo
- Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, volume II — Plantas Medicinais (Anvisa, RDC nº 1.026 de 15 de maio de 2026): o ensaio Água (5.4.1.4) fixado espécie por espécie nas monografias de droga vegetal, com tetos que vão de 4,0% a 15,0% conforme a planta
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026