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Guia da Saúde

Alcachofra: efeitos colaterais registrados

Os efeitos indesejáveis registrados da alcachofra são digestivos e alérgicos: diarreia leve com cólica abdominal, náusea, pirose e reações de hipersensibilidade, todos com frequência desconhecida. E há um caso grave publicado — um só — que diz muito sobre onde mora o risco real desta planta: ele veio de um produto para emagrecer.

Os efeitos registrados, e a frequência que ninguém sabe

A FT023 e a monografia europeia listam a mesma coisa, com as mesmas palavras:

“Foram relatados casos de diarreia leve associada a cólica abdominal, náusea e pirose, assim como de reações alérgicas.”

A EMA acrescenta a informação que quase nenhum site reproduz: “the frequency is not known” — repetido duas vezes, uma para os efeitos digestivos e outra para os alérgicos. Não existe “ocorre em 1 a cada 100”, porque nunca houve estudo grande o bastante para calcular isso.

Vale notar a coincidência entre a lista de efeitos e a lista de indicações: náusea, cólica e azia estão nos dois lados. É comum em planta de ação digestiva, e é a razão prática de a instrução ser suspender o uso, e não insistir. A indicação registrada está em alcachofra para má digestão.

O único caso grave publicado veio de um produto para emagrecer

O relatório de avaliação europeu descreve o caso com um nível de detalhe raro, e ele merece ser lido inteiro. Uma mulher de 24 anos, sem histórico médico e sem risco de infecção viral ou de intoxicação alcoólica, com exames de fígado normais numa rotina de setembro de 2005. Em 6 de novembro ela começou a tomar duas ampolas por dia de um produto comercial para emagrecer à base de extrato de alcachofra. Em 30 de novembro foi internada com astenia e urticária.

Os exames:

ExameResultado
ALT (TGP)40 vezes o valor normal
AST (TGO)48 vezes o valor normal
GGT1,3 vez o normal
Fosfatase alcalina1,3 vez o normal
Bilirrubina e protrombinanormais
Sorologias para hepatites A, B, C, herpes, citomegalovírus, Epstein-Barr e toxoplasmosenegativas
Ultrassom de fígado e vias biliaressem alteração

O produto foi suspenso no dia da internação e os parâmetros hepáticos normalizaram em três semanas. Não houve biópsia. O caso está publicado sob o PMID 18166904.

O avaliador europeu é cuidadoso ao interpretar: a relação causal é “formalmente possível” pela sequência temporal e pela melhora após a suspensão, mas o produto é insuficientemente descrito, e — esta é a frase decisiva — “the product was not used in the recommended indication (off label use)”.

Traduzindo o que isso significa para quem compra: o único episódio grave conhecido da planta aconteceu fora da indicação, num produto de emagrecimento. É o desfecho mais desconfortável possível para a fama de “detox do fígado”, e está no documento do próprio regulador. Por que a planta é, além disso, contraindicada em doença hepática está em quem não pode tomar alcachofra.

A alergia da alcachofra tem um parente inesperado: o pólen da parietária

Dois dos cinco casos contados pela EMA são de rinite e asma ocupacionais em trabalhadores de armazém de hortaliças, publicados em 2003 sob o PMID 12877457. Os números do estudo:

  • IgE específica para alcachofra de 0,68 kU/L num paciente e 2,14 kU/L no outro;
  • provocação nasal com extrato de alcachofra reduzindo o pico de fluxo inspiratório nasal em 81% e 85%;
  • queda de até 36% no pico de fluxo expiratório de uma das pacientes no local de trabalho.

E o achado que explica a sensibilização: a inibição por immunoblotting mostrou reatividade cruzada sorológica entre a alcachofra e o pólen de Parietaria judaica. Ou seja, alergia a esse pólen e alergia à alcachofra podem compartilhar o mesmo mecanismo — uma conexão que não aparece na contraindicação genérica “família Asteraceae”, que é a que consta das duas monografias.

Os outros dois casos são uma anafilaxia atribuída a inulina, com suspeita de reação cruzada com alcachofra, e um edema agudo de língua em alguém que havia comido a hortaliça — este último com causalidade que o próprio relatório considera não avaliável.

Os eventos adversos contados num estudo com 454 pessoas

Para dimensionar: no estudo aberto de dose de Marakis, 454 pessoas completaram o protocolo com extrato de folha, e os eventos adversos registrados foram dois casos de constipação, dois de fezes amolecidas e um de flatulência. Nos ensaios com dispepsia funcional, os eventos foram classificados como leves a moderados e autolimitados, e a única reação grave do estudo controlado ocorreu no grupo placebo.

É um perfil de segurança bom — e é exatamente por isso que os dois pontos anteriores importam. O risco desta planta não está na xícara na dose registrada; está na condição de quem a toma e no produto que a vende para outra finalidade. As restrições por medicamento estão em alcachofra interage com remédio, e o panorama da espécie, em alcachofra: para que serve.

Perguntas frequentes

É normal o chá de alcachofra dar azia?

Pirose consta da lista oficial de efeitos indesejáveis, ao lado de náusea e desconforto epigástrico — o que tem algo de irônico, já que a indicação registrada da planta é justamente o alívio de sintomas digestivos. Aparecendo azia durante o uso, a instrução do próprio Formulário é suspender e procurar avaliação, não aumentar a dose.

Quantos casos de reação adversa existem publicados?

Cinco, segundo a contagem do comitê europeu na literatura revisada até 2018. Um deles ligado a um medicamento com extrato de folha, e os outros quatro a reações alérgicas por ingestão da hortaliça ou a situações ocupacionais, que o próprio relatório considera não transferíveis ao uso de fitoterápico. É um número pequeno, e não é o mesmo que ausência de risco.

Existe caso de superdosagem de alcachofra?

A seção 4.9 da monografia europeia responde em uma linha: nenhum caso de superdosagem foi relatado. Isso não é permissão para exceder a dose — a FT023 traz a instrução direta de não utilizar em doses acima das recomendadas —, é apenas o registro de que a literatura revisada não trouxe episódio desse tipo.

Quanto tempo depois de parar os efeitos passam?

Os efeitos digestivos descritos nos ensaios foram classificados como leves ou moderados e autolimitados. No caso hepático relatado na literatura, os exames de fígado voltaram ao normal em três semanas depois da suspensão do produto. Isso descreve casos publicados, não uma previsão individual: evento adverso pede suspensão e avaliação.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT023, Cynara scolymus L.: o relato de casos de diarreia leve associada a cólica abdominal, náusea e pirose e de reações alérgicas, a atribuição da hipersensibilidade às lactonas sesquiterpênicas como a cinaropicrina, e a instrução de suspender o uso e consultar um médico em caso de evento adverso
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Cynara cardunculus L. (syn. Cynara scolymus L.), folium (EMA/HMPC/194013/2017), seções 5.2 e 5.3: a contagem de cinco casos de reação adversa identificados na literatura, a descrição detalhada do único caso grave ligado a um produto medicinal com extrato seco de folha de alcachofra tomado para emagrecer, e os eventos adversos contados no estudo aberto de Marakis
  3. Sinayoko L, Mennecier D, El Jahir Y, Corberand D, Harnois F, Thiolet C, Farret O. Acute hepatic injury secondary to ingestion of artichoke extracts (Hepanephrol) — artigo em francês, Gastroenterologie Clinique et Biologique 2007;31(11):1039-1040 (PMID 18166904): o relato do caso de lesão hepática aguda por extrato de alcachofra descrito em detalhe pela EMA na seção de exposição do paciente
  4. Miralles JC, García-Sells J, Bartolomé B, Negro JM. Occupational rhinitis and bronchial asthma due to artichoke (Cynara scolymus). Annals of Allergy, Asthma & Immunology 2003;91(1):92-95 (PMID 12877457) — os dois casos de rinite e asma ocupacionais em trabalhadores de armazém, com IgE específica de 0,68 e 2,14 kU/L e demonstração de reatividade cruzada sorológica entre a alcachofra e o pólen de Parietaria judaica
  5. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Cynara cardunculus L. (syn. Cynara scolymus L.), folium (EMA/HMPC/194014/2017), seções 4.8 e 4.9: a lista de efeitos indesejáveis com frequência desconhecida e o registro de que nenhum caso de superdosagem foi relatado

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026