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Guia da Saúde

Alcachofra na gravidez: por que é contraindicada

Não. O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa contraindica a alcachofra durante a gestação e a lactação, e a monografia europeia diz que a segurança nesses períodos “não foi estabelecida”. A proibição vale para as quatro fórmulas — os dois chás e as duas cápsulas — e o motivo declarado é falta de dados, não dano comprovado.

A frase exata dos dois documentos

O texto brasileiro junta gestação, amamentação e infância na mesma sentença: “O uso é contraindicado durante a gestação, lactação e para crianças menores de 12 anos, devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”.

O europeu separa em duas linhas na seção 4.6: a segurança durante gravidez e lactação não foi estabelecida e, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado. Logo abaixo, uma terceira linha: não há dados de fertilidade.

Duas monografias, duas redações, uma só conduta — e a mesma lacuna nas duas.

A única publicação que a EMA encontrou sobre o tema

Vale ler a seção 5.5.5 do relatório de avaliação europeu inteira, porque ela é curta e diz muito sobre o estado da evidência:

“One publication reviews herbal infusions used for induced abortion (Ciganda & Laborde, 2003). In this paper, Cynara is only briefly mentioned in a table without any clinical proof.”

Uma publicação. Abrindo o artigo citado, indexado sob o PMID 12807304, o que se encontra é um levantamento retrospectivo das ligações recebidas pelo Centro de Intoxicações de Montevidéu entre 1986 e 1999 sobre ingestão de infusões com intenção abortiva: 86 casos e 30 espécies vegetais.

E aqui a leitura precisa ser honesta nas duas direções. As espécies mais envolvidas foram arruda, Lycopodium saururus, salsa e um produto de venda livre chamado Carachipita; os abortos ocorridos e as cinco mortes registradas envolveram arruda, salsa, Carachipita, arnica e bardana — não a alcachofra. A própria EMA registra que a menção a Cynara é uma linha de tabela, sem comprovação clínica.

Por que a conduta continua exatamente a mesma

Poderia parecer que isso enfraquece a contraindicação. Não enfraquece — desloca o argumento para onde ele sempre esteve.

A alcachofra não é contraindicada na gravidez porque um estudo mostrou dano. É contraindicada porque nenhum estudo mostrou que ela é segura em gestantes, e porque os testes que responderiam a isso não foram feitos. A seção 5.3 da monografia europeia é literal:

“Adequate tests on reproductive toxicity, genotoxicity and carcinogenicity have not been performed.”

A lacuna de genotoxicidade, aliás, teve consequência regulatória fora da gravidez: nas conclusões gerais, o comitê registra que a falta desse dado impediu a criação de uma entrada da alcachofra na lista da União Europeia. Não é um detalhe escondido — é uma decisão pública tomada por ausência de informação.

E a conclusão do próprio relatório fecha sem rodeio: “due to the lack of data and in accordance with general medical practice, Cynara-containing herbal medicinal products should not be used during pregnancy and lactation”.

Amamentação e as preparações com álcool

A lactação está na mesma frase de contraindicação, com a mesma justificativa. E há uma camada extra: a FT023 contraindica especialmente as preparações alcoólicas a gestantes e lactantes, em função do teor de álcool — uma razão independente da planta. Por que essa advertência tem algo de estranho no caso da alcachofra está em tintura de alcachofra.

Se a queixa que levou ao chá é má digestão ou empachamento no fim da gestação, a resposta não é trocar de planta por conta própria: sintoma digestivo na gravidez tem causas próprias e conduta própria, e o lugar dessa conversa é o pré-natal. Para efeito de comparação, a camomila na gravidez é um dos poucos casos em que o Formulário permite o uso — a permissão é escrita planta por planta, e nunca vale para a categoria “chá”.

A lista completa de quem deve evitar está em quem não pode tomar alcachofra, e a idade mínima, em alcachofra para crianças.

Perguntas frequentes

Comer alcachofra na gravidez também está proibido?

As duas monografias tratam de preparações medicinais da folha seca, que não é a parte que vai ao prato. Elas não avaliaram a hortaliça como alimento e não dizem nada sobre ela. Comida na gestação é assunto do pré-natal e de quem acompanha a alimentação, não de uma monografia de fitoterápico.

Tomei chá de alcachofra antes de saber que estava grávida. É perigoso?

A contraindicação existe porque ninguém estudou o uso em gestantes, não porque algum estudo mostrou dano. Isso não autoriza continuar, mas também não descreve um risco conhecido. O caminho é contar no pré-natal quanto foi tomado e por quantos dias, e seguir a orientação de quem acompanha a gestação.

Alcachofra corta o leite ou aumenta a produção?

Nem uma coisa nem outra aparece nos documentos. A lactação está contraindicada pelo mesmo motivo da gestação — ausência de dados —, e nenhuma das duas monografias atribui à planta efeito sobre a produção de leite, em qualquer direção. Alegação nesse sentido não tem fonte oficial para citar.

Alcachofra atrapalha a fertilidade ou o ciclo?

A monografia europeia responde em três palavras na seção 4.6: não há dados de fertilidade disponíveis. E a seção 5.3 acrescenta que testes adequados de toxicidade reprodutiva não foram realizados. Não há, portanto, base documental para afirmar efeito nenhum sobre fertilidade, nem a favor nem contra.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT023, Cynara scolymus L.: a frase que contraindica o uso durante a gestação, a lactação e para crianças menores de 12 anos devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações, e a contraindicação especial das preparações alcoólicas a gestantes e lactantes
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Cynara cardunculus L. (syn. Cynara scolymus L.), folium (EMA/HMPC/194014/2017), seções 4.6 e 5.3: a segurança durante a gravidez e a lactação não foi estabelecida e, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado; não há dados de fertilidade; e testes adequados de toxicidade reprodutiva, genotoxicidade e carcinogenicidade não foram realizados
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Cynara cardunculus L. (syn. Cynara scolymus L.), folium (EMA/HMPC/194013/2017), seção 5.5.5: o registro de que a única publicação localizada sobre o tema é uma revisão de infusões usadas para aborto provocado, na qual Cynara é mencionada apenas numa tabela e sem qualquer comprovação clínica, e a conclusão de não usar na gravidez e na lactação por falta de dados e por prática médica geral
  4. Ciganda C, Laborde A. Herbal infusions used for induced abortion. Journal of Toxicology: Clinical Toxicology 2003;41(3):235-239 (PMID 12807304) — a publicação citada pela EMA na seção de gravidez: levantamento retrospectivo de 86 chamadas ao Centro de Intoxicações de Montevidéu entre 1986 e 1999, com 30 espécies vegetais, em que os abortos e as mortes registrados envolveram arruda, salsa e o produto Carachipita

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026