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Guia da Saúde

Chá de alcachofra: as duas fórmulas oficiais

O Formulário de Fitoterápicos registra dois chás de alcachofra, não um. O primeiro é 1,5 g de folha em 150 mL, quatro vezes ao dia; o segundo é 3 g de folha seca em 150 mL, até duas vezes ao dia. Os dois são infusão de 10 minutos, e os dois são bebidos 10 minutos depois do preparo.

As duas fórmulas, lado a lado

Fórmula 1Fórmula 2
Folha1,5 g3 g, seca
Águaq.s.p. 150 mLq.s.p. 150 mL
Estado da folhaseca pulverizadaseca rasurada
Infusão10 minutos10 minutos
Quantas vezes ao diaquatroaté duas

Repare que as duas chegam ao mesmo teto: 1,5 g quatro vezes e 3 g duas vezes dão os mesmos 6 g de folha por dia — que é exatamente o topo da faixa declarada pela monografia europeia, 3 a 6 g diários. Não são dois regimes de força diferente; são dois jeitos de dividir a mesma quantidade ao longo do dia.

Para converter a gramatura em medida caseira, veja xícara de chá em gramas e mL e colher de chá em gramas.

Passo a passo

  1. Pese a folha seca. 1,5 g se você vai tomar quatro vezes ao dia; 3 g se vai tomar até duas.
  2. Ferva 150 mL de água e desligue o fogo. Infusão é fora do fogo — folha fervendo dentro da água é decocção, e não é o que a fórmula manda.
  3. Despeje sobre a folha e espere 10 minutos.
  4. Coe.
  5. Beba os 150 mL dez minutos depois do preparo, sem guardar.

De onde vêm dois esquemas diferentes: Polônia e Espanha

O relatório de avaliação europeu conta a origem de cada um, e ela não é farmacológica — é geográfica. A posologia foi construída a partir do que já estava no mercado de cada país há mais de 30 anos: 1,5 g em 150 mL quatro vezes ao dia (na Polônia) ou até 3 g em 150 mL ao dia (na Espanha), com o produto espanhol presente desde 1973.

É uma explicação que dá a dimensão exata do que significa “uso tradicional” numa monografia: a dose não saiu de um estudo de dose-resposta, saiu do hábito documentado de duas populações. O Formulário brasileiro importou os dois hábitos e os numerou como fórmula 1 e fórmula 2.

”Pulverizada” na fórmula 1 é uma divergência com a fonte citada

Vale abrir esse ponto porque ele muda o que se põe na xícara. A FT023 manda usar folhas secas pulverizadas na fórmula 1 e folhas secas rasuradas na fórmula 2, creditando as duas instruções a Wichtl 2004 e à EMA de 2018.

No texto da EMA, porém, os dois esquemas de chá usam folha rasurada (comminuted). A folha em pó (powdered dried leaves) existe lá, mas como preparação separada, que não é chá: é dosada em miligramas — 600 a 1500 mg por dia, divididos em 2 a 4 tomadas — e apresentada em forma sólida ou líquida para uso oral.

Isso não invalida a fórmula 1 brasileira, que também cita Wichtl como fonte. Mas explica por que o mesmo número aparece com granulometrias diferentes nos dois documentos, e sustenta uma recomendação prática: folha em pó e folha rasurada não são intercambiáveis colher por colher, porque o pó ocupa menos volume para a mesma massa e extrai mais rápido.

A cápsula não é o chá, e a dose não se traduz

O Formulário registra mais duas fórmulas, ambas em cápsula, e os números delas confundem quem tenta comparar com o chá:

FórmulaO que éDose diária
3extrato seco aquoso de folha fresca, RDE 15–35:1600 a 2700 mg, em até três cápsulas
4extrato seco aquoso de folha seca, RDE 2,0–7,5:1400 a 1320 mg, em até três cápsulas

Os miligramas da cápsula são de extrato, não de folha. Na fórmula 3, cada grama de extrato concentra de 15 a 35 gramas de folha fresca; na fórmula 4, de 2 a 7,5 gramas de folha seca. Ler “640 mg” como se fosse a erva da xícara subestima a concentração por um fator grande — e é o erro mais comum em conteúdo sobre fitoterápico.

A EMA ainda aceita duas preparações que o Formulário brasileiro não trouxe: um extrato mole de folha fresca (RDE 15–30:1, 600 mg por dose, 1800 mg ao dia) e um extrato mole de folha seca com etanol a 20% (RDE 2,5–3,5:1, 0,7 g três vezes ao dia). Por que a ausência dessa última importa está em tintura de alcachofra.

Duas semanas é o prazo escrito

A FT023 fecha com uma instrução de tempo: “Caso a sintomatologia persista por mais de duas semanas, um médico deverá ser consultado”. A monografia europeia diz o mesmo na seção de duração de uso.

Não é um teto para a planta, como acontece em outras espécies — é um limite para a queixa. Sintoma digestivo que atravessa duas semanas de chá deixou de ser autocuidado, e o que essa fronteira significa está em alcachofra para má digestão.

Antes da primeira xícara, confira a lista de quem não pode tomar alcachofra — ela inclui condições de fígado e de vesícula. O quadro geral da espécie está em alcachofra: para que serve.

Perguntas frequentes

Dá para usar folha fresca de alcachofra no chá?

As duas fórmulas de infuso especificam folha seca, e as duas cápsulas usam extrato aquoso — uma de folha fresca, outra de folha seca, com relações de extração diferentes. Para o chá, portanto, a droga vegetal registrada é a folha seca. Folha fresca colhida em casa não corresponde a nenhuma das quatro fórmulas e não tem gramatura definida no documento.

Precisa abafar a xícara durante os 10 minutos?

A orientação de preparo da FT023 para a alcachofra diz apenas preparar por infusão durante 10 minutos, sem mencionar abafamento — diferente do que outras monografias do mesmo Formulário fazem. Abafar não contraria a instrução e ajuda a manter a temperatura, mas quem procura a letra do documento não vai encontrar essa palavra aqui.

O chá de alcachofra é muito amargo. Posso misturar com outra erva?

O amargor vem das lactonas sesquiterpênicas da folha, entre elas a cinaropicrina, que a própria monografia associa aos relatos de hipersensibilidade. Misturar plantas cria uma preparação que nenhuma monografia descreve: cada espécie tem dose, contraindicação e advertência próprias, e a soma delas não está avaliada em documento nenhum.

Posso preparar o chá de manhã e beber ao longo do dia?

As duas fórmulas mandam tomar os 150 mL do infuso 10 minutos após o preparo. É uma instrução de tempo, não de sabor: a dose registrada é o infuso recém-feito. Garrafa preparada de manhã para o dia inteiro não corresponde ao que o documento descreve, e o número de vezes ao dia continua limitado.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT023, Cynara scolymus L.: a fórmula 1 (folha 1,5 g e água q.s.p. 150 mL, infusão de 10 minutos com folhas secas pulverizadas, 150 mL quatro vezes ao dia), a fórmula 2 (folha seca 3 g em 150 mL, infusão de 10 minutos com folhas secas rasuradas, até duas vezes ao dia) e as fórmulas 3 e 4 em cápsula, com as respectivas relações droga-extrato e doses diárias
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Cynara cardunculus L. (syn. Cynara scolymus L.), folium (EMA/HMPC/194014/2017), seção 4.2: os dois esquemas de infusão com folha rasurada (1,5 g em 150 mL quatro vezes ao dia ou 3 g em 150 mL uma a duas vezes), a dose diária declarada de 3 a 6 g, a preparação separada de folha em pó com dose diária de 600 a 1500 mg e o limite de duas semanas de sintoma
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Cynara cardunculus L. (syn. Cynara scolymus L.), folium (EMA/HMPC/194013/2017): a origem nacional de cada esquema de infusão (1,5 g quatro vezes ao dia na Polônia e até 3 g ao dia na Espanha), a presença no mercado espanhol desde 1973 e o levantamento das seis preparações de folha aceitas para uso tradicional

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026