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Guia da Saúde

Tintura de alcachofra: a fórmula que não existe

Não existe tintura de alcachofra registrada no Formulário de Fitoterápicos da Anvisa. A monografia FT023 tem quatro fórmulas — dois infusos de folha e duas cápsulas de extrato seco aquoso — e nenhuma delas usa álcool. Mesmo assim, a seção de advertências fala da tintura. Esse descompasso é o assunto desta página.

As quatro fórmulas, e o que falta entre elas

O Formulário organiza a monografia da alcachofra em dois blocos:

BlocoFórmulaO que éSolvente
Preparação extemporânea11,5 g de folha em 150 mLágua
Preparação extemporânea23 g de folha seca em 150 mLágua
Cápsula com derivado3extrato seco de folha fresca, RDE 15–35:1água
Cápsula com derivado4extrato seco de folha seca, RDE 2,0–7,5:1água

Quatro fórmulas, quatro vezes água. Em espécies que têm tintura registrada, o Formulário abre um bloco próprio com esse título e fixa a massa de droga vegetal, a graduação do álcool etílico e a relação de extração — é o que acontece, por exemplo, na tintura de hortelã-pimenta. Na alcachofra esse bloco não existe.

A advertência fala de uma preparação que a monografia não registra

E ainda assim, no meio das advertências da FT023, está esta frase:

“O uso da preparação tintura é especialmente contraindicado para menores de 18 anos, gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, em função do teor alcoólico na formulação.”

A frase é padrão do Formulário: ela aparece em nove monografias da 3ª edição, sempre com a mesma redação. Conferindo as nove uma a uma, oito registram de fato uma tintura no corpo da monografia — mil-folhas, bardana, carqueja, calêndula, cúrcuma, equinácea, hortelã-pimenta e guaco.

A alcachofra é a única das nove sem tintura registrada. A advertência viajou junto com o modelo de texto e ficou órfã: restringe o público de uma preparação que a própria monografia não descreve.

Isso não é motivo para ignorar a frase — e sim para ler o que ela de fato entrega. Ela não autoriza tintura de alcachofra; ela só diz que, se existir uma, menores de 18 anos, gestantes, lactantes, pessoas com alcoolismo e diabéticos ficam de fora. O que continua sem existir é a dose. Por que a idade sobe de 12 para 18 nas preparações alcoólicas está em alcachofra para crianças.

O que a EMA aceita com álcool, e que o Brasil não trouxe

A monografia europeia lista seis preparações de folha de alcachofra com mais de 30 anos de mercado. Uma única usa solvente alcoólico:

  • extrato mole de folha seca, relação droga-extrato de 2,5 a 3,5 para 1, solvente etanol a 20% V/V;
  • dose única de 0,7 g, três vezes ao dia;
  • dose diária de 2,1 g.

Duas observações. A primeira: não é uma tintura. É um extrato mole, concentrado depois da extração e dosado em gramas de extrato, não em mililitros de solução — e etanol a 20% é uma graduação baixa perto da de uma tintura registrada, como a de melissa brasileira, que usa álcool de 45 a 53%.

A segunda: o Formulário brasileiro não reproduziu essa preparação, assim como deixou de fora a folha em pó e o extrato mole de folha fresca. Das seis europeias, quatro atravessaram — e as quatro que atravessaram são exatamente as que usam água.

O que existe registrado, e onde estão as doses

Para quem chegou aqui procurando uma forma concentrada da planta, o que existe com dose e fonte é:

  • os dois infusos, com gramatura, tempo de infusão e frequência, em chá de alcachofra;
  • as duas cápsulas de extrato seco aquoso, com relação droga-extrato e dose diária, descritas na mesma página.

E, antes de qualquer uma delas, a lista de quem não pode tomar alcachofra — que inclui condições de fígado e de vesícula. Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação; quando a dose não existe no documento, o que existe é só a contraindicação. O panorama da espécie está em alcachofra: para que serve.

Perguntas frequentes

Então a tintura de alcachofra é proibida?

Ela não é proibida por nome: ela simplesmente não foi registrada. E isso tem consequência prática maior do que parece — sem fórmula registrada não existe proporção oficial, dose oficial, indicação oficial nem duração de uso a citar. A única frase do Formulário sobre a tintura de alcachofra é uma restrição de público, não uma autorização de uso.

Posso fazer tintura de alcachofra em casa com álcool de cereais?

Não há proporção registrada para copiar. Nas espécies em que o Formulário descreve tintura, ele fixa massa de droga vegetal, graduação alcoólica, relação de extração e às vezes conservante e tipo de frasco. Para a alcachofra nada disso existe, o que significa que qualquer receita caseira estará fora de qualquer documento oficial brasileiro.

Extrato mole com etanol a 20% é a mesma coisa que tintura?

São formas farmacêuticas diferentes. A preparação europeia é um extrato mole, obtido com etanol a 20% V/V e depois concentrado, dosado em gramas de extrato. Uma tintura é uma solução que se toma em mililitros e costuma ter graduação alcoólica muito mais alta — a de melissa registrada no Brasil, por exemplo, usa álcool de 45 a 53%.

Comprei um vidro escrito tintura de alcachofra. O que fazer?

Vale ler o rótulo procurando três coisas que uma preparação registrada sempre declara: a parte da planta, a graduação alcoólica e a relação droga-extrato. Faltando qualquer uma delas, não há como saber quanta folha há em cada gota. E como a preparação não consta do Formulário, não existe dose de referência para comparar.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT023, Cynara scolymus L.: as quatro fórmulas registradas (fórmulas 1 e 2 de preparação extemporânea por infusão e fórmulas 3 e 4 de cápsula com extrato seco aquoso), nenhuma delas com solvente alcoólico, e a advertência de que o uso da preparação tintura é especialmente contraindicado para menores de 18 anos, gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos em função do teor alcoólico na formulação
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Cynara cardunculus L. (syn. Cynara scolymus L.), folium (EMA/HMPC/194014/2017), seções 2 e 4.2: as seis preparações aceitas para uso tradicional, das quais apenas uma usa solvente alcoólico — o extrato mole de folha seca com relação droga-extrato de 2,5 a 3,5 para 1 e etanol a 20% V/V, em dose única de 0,7 g três vezes ao dia e dose diária de 2,1 g
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Cynara cardunculus L. (syn. Cynara scolymus L.), folium (EMA/HMPC/194013/2017): o levantamento das preparações com mais de 30 anos de mercado europeu que embasaram a monografia, incluindo o extrato mole de folha seca com etanol a 20% comercializado na França, e a ausência de tintura hidroalcoólica entre elas

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026