Boldo-brasileiro: para que serve segundo a Anvisa
O boldo-brasileiro tem uma única indicação registrada no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira: auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos. Nada além disso. Fígado, ressaca, vesícula e “desinchar” não aparecem na monografia — e o uso é adulto.
As três formas farmacêuticas que o Formulário registra
Esta é a primeira surpresa de quem abre a monografia esperando encontrar só “chá de boldo”. A FT064 descreve três preparações diferentes, com líquidos extratores, estados da folha e doses próprios:
| Fórmula | Preparação | Folha | Líquido | Dose |
|---|---|---|---|---|
| 1 | preparação extemporânea (o chá) | 1 a 3 g, seca | água q.s.p. 150 mL | 150 mL, 2 a 3 vezes ao dia |
| 2 | alcoolatura | 20 g, fresca | álcool etílico 80% q.s.p. 100 mL | 3 a 10 mL em 50 mL de água, 3 vezes ao dia |
| 3 | tintura | 20 g, seca em estufa | álcool etílico 70% q.s.p. 100 mL | 2,5 mL em 75 mL de água, 3 vezes ao dia |
Repare que a fórmula 2 é a única que pede folha fresca. As outras duas exigem folha seca — e a 2 e a 3, que parecem iguais à primeira vista, se distinguem pela graduação alcoólica e pelo modo de secagem. O detalhamento das duas preparações alcoólicas está em tintura de boldo-brasileiro.
A distância entre a fama e o registro
No imaginário brasileiro, boldo é a planta do fígado e a do dia seguinte à bebedeira. A monografia oficial não sustenta nenhuma das duas coisas. A palavra “fígado” não aparece entre as indicações; ela aparece do outro lado, na lista de advertências — o Formulário diz que o fitoterápico não deve ser utilizado por portadores de hepatite nem por quem tem obstrução das vias biliares.
Isso inverte completamente a leitura popular: a planta que se toma “para ajudar o fígado” é contraindicada justamente para quem tem doença hepática ativa. Não se trata de a fonte ser omissa — ela se posiciona, e no sentido oposto ao do senso comum.
O que a monografia reconhece é o alívio de sintomas dispépticos: o desconforto de digestão que vem depois de comer. O recorte dessa indicação, e o que ela cobre e não cobre, está em boldo-brasileiro para má digestão.
Uso adulto — e isso é literal
A primeira linha das advertências da FT064 é curta: “Uso adulto.” Logo abaixo, a lista de quem não deve usar inclui menores de 18 anos, junto com gestantes, lactantes, hipertensos e portadores de doença renal policística.
É um contraste forte com outras plantas do mesmo documento. A camomila, por exemplo, tem dose pediátrica registrada a partir dos 6 meses e uso permitido na gestação — como se vê em camomila: para que serve. O boldo-brasileiro está no extremo oposto da mesma edição do Formulário. Os detalhes por faixa etária estão em boldo-brasileiro para crianças, e a lista completa de restrições, em quem não pode tomar boldo-brasileiro.
O que fazer com isso na prática
Se o objetivo é o incômodo digestivo pontual, a preparação registrada é o chá — proporção, técnica e frequência estão em chá de boldo-brasileiro. Se o uso já dura semanas, vale conhecer o teto que a própria monografia fixa, em por quanto tempo tomar boldo-brasileiro.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e é justamente isso que este site publica, espécie por espécie, no índice de plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Boldo-brasileiro e boldo-do-chile são a mesma planta?
Não. São espécies diferentes que dividem o nome popular no Brasil. A monografia FT064 do Formulário de Fitoterápicos trata de Plectranthus barbatus Andrews, também chamada boldo-africano e boldo-nacional — é a de folha grossa e aveludada que cresce em quintal. Cada espécie tem sua própria fórmula, dose e lista de advertências, e uma não responde pela outra.
Que parte do boldo-brasileiro se usa?
A folha. As três fórmulas do Formulário partem dela: 1 a 3 g para o chá, 20 g para a alcoolatura e 20 g para a tintura. Não há registro de uso da raiz, do caule ou da planta inteira.
Boldo-brasileiro é o mesmo que malva-santa?
Malva-santa é um dos nomes regionais usados no Brasil para Plectranthus barbatus, e aparece assim em um dos estudos citados pela própria monografia. O Formulário, porém, registra oficialmente três nomes populares: boldo-africano, boldo-brasileiro e boldo-nacional.
O que é exatamente o Formulário de Fitoterápicos?
É um compêndio farmacopeico de formulações fitoterápicas oficinais, publicado pela Anvisa. Serve de referência para notificar medicamento tradicional fitoterápico e para o preparo em farmácia de manipulação e em Farmácia Viva. A 3ª edição reúne 85 monografias e 236 formulações, foi aprovada pela RDC nº 1.024 de 14 de maio de 2026 e está em vigor desde 1º de julho de 2026. Não é bula de produto de prateleira: é a referência técnica de como preparar e usar cada espécie.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT064, Plectranthus barbatus Andrews: a sinonímia Coleus barbatus (Andrews) Benth., os nomes populares boldo-africano, boldo-brasileiro e boldo-nacional, as três formas farmacêuticas registradas (preparação extemporânea, alcoolatura e tintura), a indicação única de auxiliar no alívio dos sintomas dispépticos e a advertência de uso adulto
- Anvisa — página oficial do Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira: a definição do documento como compêndio farmacopeico de formulações fitoterápicas oficinais, seu uso como referência para notificação de medicamento tradicional fitoterápico e para preparo em farmácia de manipulação e Farmácia Viva, e os dados da 3ª edição (85 monografias, 236 formulações, aprovada pela RDC nº 1.024 de 14 de maio de 2026, em vigor desde 1º de julho de 2026)
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026