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Guia da Saúde

Calêndula: efeitos colaterais e o que os sustenta

A calêndula tem uma única reação adversa registrada: sensibilização cutânea. A monografia europeia classifica a frequência como não conhecida; a brasileira escreve “em casos raros” e acrescenta a dermatite de contato. E a documentação que sustenta as duas frases é mais curta do que qualquer um dos dois textos deixa supor.

O que está registrado, e com que palavras

Comitê europeu (seção 4.8): “Sensibilização cutânea foi relatada. A frequência não é conhecida.” Nada além disso. Na seção de superdose, outra linha só: nenhum caso relatado.

Anvisa (FT015): “Em casos raros pode causar dermatite de contato ou outras sensibilizações cutâneas.”

A diferença não é de estilo. “Frequência não conhecida” é a classificação usada quando existem relatos, mas não há dado para estimar com que frequência acontecem. A monografia brasileira atribuiu uma frequência — raros — que a europeia declinou expressamente de atribuir.

A referência citada não é sobre reação adversa à calêndula

A advertência brasileira de dermatite de contato traz duas fontes entre parênteses: a EMA de 2018 e Brown e Dattner, 1998. Vale abrir a segunda, porque ela é a única referência primária do parágrafo.

O artigo existe, o volume e as páginas conferem — Archives of Dermatology, v. 134, p. 1401-1404, 1998 — e é uma revisão narrativa sobre abordagens fitoterápicas em condições dermatológicas comuns. O próprio resumo declara o objetivo: discutir preparações vegetais historicamente usadas em dermatologia e estudos recentes que apoiam seu uso. Não é uma série de casos, não é um estudo de patch test e não é um trabalho sobre reação adversa à calêndula.

O dado correto, que está no relatório de avaliação europeu, é ainda mais desconfortável: os dados sobre risco de irritação e reação alérgica são controversos, e não há casos claramente documentados de dermatite de contato por calêndula. A sensibilização fraca aparece descrita pela OMS e pela ESCOP; os casos individuais, não.

Nada disso afrouxa a conduta. A advertência continua de pé, porque sensibilização foi relatada e porque a contraindicação para alérgicos a Asteraceae é anterior a esse debate. O que muda é a honestidade da leitura: quem repete “a calêndula causa dermatite de contato em casos raros” está repetindo uma frase cuja documentação primária é escassa.

Por que a calêndula sensibiliza menos que a arnica

A família Asteraceae é uma das causas importantes de dermatite de contato alérgica por planta na Europa. Dentro dela, porém, as espécies não se comportam igual — e a revisão de referência sobre o assunto explica por quê.

Ao menos 15 espécies da família são suspeitas de sensibilizar, entre elas arnica, camomila alemã, camomila romana, equinácea e a própria calêndula. Existem dados epidemiológicos para apenas duas — arnica e camomila alemã —; para todas as outras, a evidência é anedótica. Os alérgenos mais importantes do grupo são as lactonas sesquiterpênicas.

Daí a hipótese que o relatório europeu registra: experimentalmente, o extrato de calêndula é apenas fracamente sensibilizante, o que é compatível com a escassez de relatos de caso — e isso pode se explicar pela ausência de lactonas sesquiterpênicas na flor de calêndula. É a explicação química de por que a planta mais associada à pele é, dentro da própria família, uma das menos implicadas.

Há um contraponto publicado, e ele também está no relatório: um trabalho de 2001 encontrou 2% de 443 pacientes reagindo positivamente à calêndula em teste de contato, contra 1% para a arnica. O comitê considerou o achado de valor limitado, porque os autores testaram as partes aéreas inteiras da planta, e não as flores liguladas de que trata a monografia. É a mesma confusão entre planta e flor que atravessa toda a literatura clínica da calêndula.

O único caso grave publicado veio de um gargarejo

Entre todos os relatos, um se destaca por gravidade e é citado no relatório de avaliação: um caso de choque anafilático após gargarejo com tintura de calêndula, publicado em 1992, sem detalhes reportados.

É um caso isolado, e não muda a estatística de nada. Mas ele diz duas coisas úteis. A primeira é que a via de mucosa concentra o risco: é ali que o contato é mais direto e a absorção, maior — vale lembrar disso em calêndula para dor de garganta e em tintura de calêndula. A segunda é que reação alérgica grave não pede dose alta nem uso prolongado: dificuldade para respirar, inchaço de lábios ou pálpebras e tontura súbita depois do uso é procurar atendimento, não observar em casa.

O que não está descrito

Vale listar, porque a ausência também é informação:

  • nenhuma interação medicamentosa relatada;
  • nenhum caso de superdose;
  • nenhuma atividade fototóxica;
  • nenhum relato de risco maior de irritação em pessoas atópicas.

A comparação com a prima de família fecha o quadro: a camomila: efeitos colaterais tem uma lista bem mais longa e mais grave, com hipersensibilidade de frequência não conhecida incluindo colapso vascular e choque anafilático. Duas Asteraceae, dois perfis diferentes.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e via. Quem está no grupo que não deve usar de saída está em quem não pode usar calêndula, e o resumo das sete fórmulas, em calêndula: para que serve.

Perguntas frequentes

Passei calêndula e a pele coçou. É reação à planta?

Pode ser, e a conduta não muda enquanto a dúvida existe: suspender o uso e, se o quadro não ceder, procurar um médico. É o que a monografia brasileira orienta diante de qualquer evento adverso. Coceira que aparece depois da aplicação não é sinal de que o produto está agindo.

Calêndula mancha a pele ou aumenta o risco no sol?

O relatório de avaliação europeu é direto nos dois pontos: não há evidência de atividade fototóxica e não há relato de que a aplicação tópica de preparações de flor de calêndula traga risco maior de irritação para pessoas atópicas. Nenhuma das duas monografias pede proteção solar depois do uso.

Existe caso de intoxicação por calêndula?

A seção de superdose da monografia europeia tem uma linha: nenhum caso relatado. Isso é coerente com as vias registradas, que são externas e de contato limitado. Não significa que a planta seja inofensiva — significa que o risco descrito dela é alérgico, e alergia não depende de quantidade.

Quem tem rinite por artemísia ou ambrósia deve evitar calêndula?

A contraindicação por família Asteraceae inclui esse grupo, e é o que se segue na prática. Vale saber, porém, que o próprio comitê europeu escreve que a sensibilidade cruzada entre membros da família não pode ser excluída, mas não foi relatada até hoje — a regra é preventiva.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT015, Calendula officinalis L.: a advertência de que em casos raros o uso externo pode causar dermatite de contato ou outras sensibilizações cutâneas, creditada a Brown e Dattner (1998) e à EMA (2018), e a orientação de suspender o uso e consultar um médico diante de evento adverso
  2. European Union herbal monograph on Calendula officinalis L., flos (EMA/HMPC/437450/2017): a seção 4.8, que registra sensibilização cutânea como única reação adversa e classifica sua frequência como não conhecida, e a seção 4.9, que registra não haver caso de superdose relatado
  3. Assessment report on Calendula officinalis L., flos (EMA/HMPC/603409/2017): o registro de que os dados sobre risco de irritação e reação alérgica são controversos e de que não há casos claramente documentados de dermatite de contato; a hipótese de que a baixa sensibilização se explica pela ausência de lactonas sesquiterpênicas na flor; o dado de Reider (2001), com 2% de 443 pacientes reagindo à calêndula contra 1% à arnica, considerado de valor limitado por testar partes aéreas inteiras; e o relato isolado de choque anafilático após gargarejo com tintura de calêndula
  4. Brown DJ, Dattner AM (1998), Archives of Dermatology 134(11):1401-4 — revisão narrativa sobre abordagens fitoterápicas em condições dermatológicas comuns, cujo objetivo declarado é discutir preparações vegetais historicamente usadas em dermatologia e estudos recentes que apoiam seu uso; é a única referência que a monografia brasileira cita para a advertência de dermatite de contato
  5. Paulsen E (2002), Contact Dermatitis 47(4):189-98 — sensibilização de contato por remédios e cosméticos contendo Compositae: o registro de que ao menos 15 espécies da família, incluindo a calêndula, são suspeitas de sensibilização, de que há dados epidemiológicos para apenas duas delas (arnica e camomila alemã) e de que o restante da evidência é anedótico, sendo as lactonas sesquiterpênicas os alérgenos mais importantes

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026