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Guia da Saúde

Calêndula na gravidez: contraindicada mesmo na pele

O Formulário de Fitoterápicos contraindica a calêndula na gestação e na lactação — e, como todas as sete fórmulas são de uso externo, a contraindicação vale para creme, compressa e bochecho, não só para alguma versão que se ingira. O motivo declarado é a falta de dados adequados, e essa frase merece ser destrinchada, porque as fontes citadas não dizem exatamente a mesma coisa.

O que cada documento diz, com as palavras de cada um

Anvisa (FT015): “O uso é contraindicado durante a gestação e lactação, devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”. A frase é creditada a três fontes: ESCOP 2003, WHO 2004 e EMA 2018.

Comitê europeu (EMA/HMPC, 2018): a segurança na gravidez e na lactação não foi estabelecida e, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado. Não há dado de fertilidade.

São redações diferentes. “Contraindicado” e “não recomendado” não são sinônimos no vocabulário regulatório: a Anvisa endureceu a formulação europeia. No Brasil, vale a versão brasileira — e ela é a mais restritiva das duas.

A fonte citada que diz o contrário

Este é o ponto que nenhum site publica, e ele aparece abrindo o relatório de avaliação europeu, que resume cada documento consultado. Sobre a ESCOP — uma das três fontes que a Anvisa credita pela contraindicação —, o relatório registra: segundo a monografia da ESCOP de 2003, não há objeções ao uso externo durante a gravidez e a lactação, ainda que não haja dados que confirmem a segurança.

Ou seja: uma das três referências citadas para sustentar a proibição do uso externo é justamente a que não se opunha ao uso externo. Vale registrar o achado com todas as letras — e vale registrar também o que ele não muda. A ESCOP fala de ausência de objeção, não de segurança demonstrada, e as outras duas fontes seguem outra direção. A conduta continua sendo a da monografia brasileira: na gravidez e na amamentação, não se usa calêndula.

O que existe de dado, e por que ele não basta

Duas peças de laboratório sustentam a cautela, e nenhuma delas é em pessoas.

Efeito uterotônico observado fora do corpo. Um infuso aquoso de flor de calêndula produziu contração em corno uterino isolado de coelha e de cobaia, num experimento de 1981 registrado no relatório europeu. É um tecido em banho de órgão, não uma gestação.

Toxicidade materna em ratas, na fase fetal. Um estudo brasileiro deu extrato hidroalcoólico de flores de calêndula, por via oral, a ratos e ratas Wistar em três doses: 0,25, 0,5 e 1,0 g/kg. O resultado tem três partes, e a leitura correta exige as três:

  • não afetou os parâmetros reprodutivos dos machos;
  • não foi tóxico nos períodos de pré-implantação (dias 1 a 6) nem de organogênese (dias 7 a 14);
  • reduziu o ganho de peso materno quando administrado no período fetal (dias 15 a 19), o que os autores classificam como toxicidade materna.

O comitê europeu leu esse mesmo trabalho e decidiu que a preparação não estava bem caracterizada. Por isso a monografia registra, na seção de dados pré-clínicos, uma frase seca: testes adequados de toxicidade reprodutiva não foram realizados. Do outro lado, os testes de genotoxicidade disponíveis não deram motivo de preocupação.

É esse o tamanho real do dossiê: um tecido isolado, um estudo em roedor por via que nem sequer é a via registrada, e nenhum ensaio em gestantes. A contraindicação se sustenta por ausência de dado, não por dano demonstrado — e ausência de dado, na gravidez, é motivo suficiente.

De onde vem a fama de “descer a menstruação”

A literatura tradicional revisada pelo comitê lista, entre usos internos baseados em experiência, amenorreia e dismenorreia. É de lá que vem a crença de que a calêndula mexe com o ciclo, e é provavelmente ela que faz a planta aparecer em listas de “chás que grávida não pode”.

Nenhuma das duas autoridades converteu esse uso em indicação, e não há ensaio clínico que o tenha medido. Dizer que a calêndula “provoca aborto” é ir além do que qualquer fonte sustenta; dizer que por isso ela é segura na gravidez também é. O que existe é uma contraindicação regulatória firme sobre um dossiê pequeno.

A comparação que mostra que não é regra automática

Vale contrastar com a planta vizinha de prateleira e de família: a camomila na gravidez é permitida pelo mesmo Formulário, com uma ressalva pontual sobre o mamilo. Duas Asteraceae, o mesmo documento, decisões opostas — o que mostra que a contraindicação da calêndula não é carimbo genérico de “planta na gestação”, e sim o resultado do dossiê específico dela.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e via. O quadro completo de quem não pode está em quem não pode usar calêndula; as vias e formas registradas, em calêndula: para que serve; e as idades mínimas, em calêndula para crianças.

Perguntas frequentes

Grávida pode usar creme ou pomada de calêndula na pele?

Pelo Formulário brasileiro, não: a contraindicação está escrita para a gestação inteira e não abre exceção por via, e as cinco fórmulas de creme são justamente de uso na pele. A monografia europeia usa uma redação mais branda, de uso não recomendado, mas chega ao mesmo destino prático.

Passei calêndula antes de saber que estava grávida. E agora?

A contraindicação se apoia em ausência de dado, não em dano demonstrado em pessoas — não existe relato de malformação atribuída à calêndula em humanos. O que se faz é interromper o uso e contar ao pré-natal, e não tratar o episódio como emergência.

Calêndula desce a menstruação ou atrasa?

A fama vem da literatura tradicional, que lista amenorreia e dismenorreia entre usos internos baseados em experiência. Nem a Anvisa nem o comitê europeu converteram isso em indicação, e não há ensaio que meça esse efeito. É tradição registrada, não efeito comprovado.

Pode passar calêndula no mamilo durante a amamentação?

A monografia contraindica o uso na lactação sem abrir exceção para o mamilo — e o mamilo é, além disso, superfície de contato direto com a boca do bebê, que tem sua própria idade mínima. Fissura mamilar tem conduta própria e é assunto para quem acompanha a amamentação.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT015, Calendula officinalis L.: a frase 'O uso é contraindicado durante a gestação e lactação, devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações', creditada a ESCOP 2003, WHO 2004 e EMA 2018, e a contraindicação adicional da tintura para gestantes e lactantes por causa do teor alcoólico
  2. European Union herbal monograph on Calendula officinalis L., flos (EMA/HMPC/437450/2017): a seção 4.6, que afirma que a segurança na gravidez e na lactação não foi estabelecida e que, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado, sem dados de fertilidade; e a seção 5.3, segundo a qual não foram realizados testes adequados de toxicidade reprodutiva e de carcinogenicidade
  3. Assessment report on Calendula officinalis L., flos (EMA/HMPC/603409/2017): o registro de que, segundo a monografia da ESCOP de 2003, não há objeções ao uso externo durante a gravidez e a lactação; o efeito uterotônico de um infuso aquoso observado ex vivo em corno uterino isolado de coelha e de cobaia (Shipochliev, 1981); e a decisão do comitê de considerar inadequado o estudo de toxicidade reprodutiva disponível
  4. Silva EJ et al. (2009), Phytotherapy Research 23(10):1392-8 — avaliação reprodutiva do extrato hidroalcoólico de flores de Calendula officinalis em ratos Wistar: ausência de efeito sobre parâmetros reprodutivos de machos e ausência de toxicidade nos períodos de pré-implantação e de organogênese, mas redução do ganho de peso materno quando administrado por via oral no período fetal, nas doses de 0,25, 0,5 e 1,0 g/kg

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026