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Guia da Saúde

Carqueja na gravidez: por que é contraindicada

Não. A monografia FT013 contraindica a carqueja durante a gestação e a lactação, sem exceção de dose, de preparação ou de trimestre. A frase da Anvisa é curta e dá um motivo: falta de dados que comprovem a segurança. Só que a bibliografia da própria monografia contém um estudo em ratas grávidas — e o que ele achou torna a contraindicação mais firme, não menos.

O que a monografia escreve

O texto integral, na seção de advertências:

“O uso é contraindicado durante a gestação, lactação e para menores de 18 anos, devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações.”

E, mais adiante, uma segunda camada só para a preparação alcoólica: “O uso da preparação tintura é especialmente contraindicado para menores de 18 anos, gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, em função do teor alcoólico na formulação”. A gestante aparece, portanto, duas vezes, com dois motivos diferentes: ausência de dado, no caso geral, e álcool, no caso da tintura.

O estudo que está na própria bibliografia

A lista de referências da FT013 traz, entre seus doze itens, um artigo cujo título já diz do que se trata: Baccharis trimera: effect on hematological and biochemical parameters and hepatorenal evaluation in pregnant rats, publicado em 2008 no Journal of Ethnopharmacology.

O desenho é o seguinte. Trinta e cinco ratas Wistar foram divididas em três grupos. Dois receberam 8,4 mg/kg de extrato hidroetanólico de carqueja por via oral — um do 1º ao 19º dia de gestação, outro do 6º ao 15º —, e o terceiro recebeu água destilada. Os autores abrem o artigo explicando por que o fizeram: a planta é “well-known consumed in pregnancy” e pouco se sabe sobre seus efeitos tóxicos em gestantes.

Os resultados, na ordem em que aparecem:

  • nenhum sinal clínico de toxicidade materna e nenhuma alteração dos parâmetros hematológicos;
  • ureia e peso do rim diferiram significativamente entre o grupo tratado do 1º ao 19º dia e o controle;
  • alterações histopatológicas em rins e fígados maternos nos dois grupos tratados.

A conclusão dos autores é que o extrato, naquela dose, foi tóxico para células renais e hepáticas maternas, “although such alterations are reversible once administration is discontinued”.

A divergência, e o que ela muda

O texto da monografia diz que a contraindicação existe por falta de dados. Isso é impreciso em relação à própria bibliografia que a sustenta: existe dado experimental, ele está listado ali, e o que ele mostra é sinal de dano em órgão materno — não ausência de informação.

Registrada a imprecisão, o que ela muda na conduta? Nada, exceto reforçá-la. A contraindicação não fica mais frágil por existir um estudo; fica mais bem fundamentada. E as lacunas continuam todas de pé, agora nomeadas com precisão:

  • o estudo avaliou fígado, rim, baço e sangue da mãe — não avaliou desfecho fetal, malformação nem peso dos filhotes, então não existe dado publicado nessa monografia sobre o feto;
  • a preparação testada foi hidroetanólica, próxima da tintura e não do decocto que se toma em casa;
  • a espécie era rato, e dose por quilo em roedor não se converte em xícara de chá em pessoa.

O que falta, de fato, é dado humano. É uma frase diferente de “falta de dados” — e mais honesta.

Amamentação

A lactação está na mesma frase da gestação e tem o mesmo motivo escrito. A monografia não registra efeito sobre a produção de leite nem sobre a passagem de componentes para o leite; ela simplesmente não libera. Vale lembrar que a restrição por idade da FT013 vai até os 18 anos, o que é tratado em carqueja para crianças — de modo que nem a mãe nem o bebê estão dentro da faixa de uso registrada.

A queixa digestiva da gravidez continua existindo

Azia, enjoo e má digestão são das queixas mais comuns da gestação, e é por isso que a carqueja aparece tanto nessa conversa. A saída, aqui, não é trocar por outra planta escolhida na internet: é levar o sintoma ao pré-natal, onde ele tem tratamento com dado de segurança avaliado para gestantes. Os quadros por trás da queixa estão descritos em azia frequente: o que pode ser e enjoo depois de comer.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e na gravidez a carqueja está do lado da contraindicação, com o texto oficial e com o estudo. A lista completa de restrições está em quem não pode tomar carqueja.

Perguntas frequentes

Tomei chá de carqueja sem saber que estava grávida. E agora?

A conduta é parar e contar ao pré-natal, com a informação de quanto e por quanto tempo. O que existe de dado experimental descreve alteração hepática e renal na fêmea gestante, reversível após a suspensão, em uma preparação alcoólica e numa espécie animal. Não há como transportar isso para um caso humano concreto, e é exatamente por isso que a avaliação é de quem acompanha a gestação.

Carqueja corta o efeito do leite ou do anticoncepcional?

A monografia da carqueja não registra nada sobre produção de leite nem sobre contraceptivos. As duas classes de medicamento que ela nomeia são anti-hipertensivos e hipoglicemiantes. A contraindicação na lactação existe, mas o motivo escrito é a falta de dados de segurança, não um efeito sobre a amamentação.

A contraindicação vale para chá fraco e para uma xícara só?

O texto não gradua. Ele contraindica o uso durante a gestação e a lactação, sem faixa de dose, sem distinguir chá de tintura e sem prever exceção para uso ocasional. Quando uma monografia quer graduar, ela escreve a faixa — nesta a frase é única e categórica.

Existe chá digestivo liberado na gravidez?

Existe planta cuja monografia brasileira não contraindica o uso na gestação, e a camomila é o caso mais conhecido desta série. Mas nenhuma decisão desse tipo deveria ser tomada por comparação entre plantas: cada monografia tem a sua conclusão, e a queixa digestiva na gravidez é assunto de pré-natal antes de ser assunto de chá.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT013, Baccharis trimera: a frase que contraindica o uso durante a gestação, a lactação e para menores de 18 anos por falta de dados adequados que comprovem a segurança, a contraindicação adicional da tintura para gestantes e lactantes em função do teor alcoólico, e a lista de referências que sustenta a monografia
  2. Grance SR et al. (2008), Journal of Ethnopharmacology 117(1):28-33 — estudo com extrato hidroetanólico de Baccharis trimera em ratas Wistar gestantes, citado na própria bibliografia da FT013: 8,4 mg/kg por via oral do 1º ao 19º e do 6º ao 15º dia de gestação, sem sinais clínicos de toxicidade materna nem alteração hematológica, com alterações histopatológicas em rins e fígados maternos reversíveis após a suspensão

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026