Carqueja: para que serve segundo a Anvisa
A monografia FT013 do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa registra uma indicação para a carqueja: auxiliar no alívio de sintomas dispépticos — o desconforto da má digestão. As duas palavras que vendem a planta no Brasil, emagrecimento e detox, não aparecem no documento. E há uma inversão maior: os efeitos que a fama celebra estão listados como reação adversa.
A indicação cabe em uma linha
A seção INDICAÇÕES da FT013 tem uma frase: “Como auxiliar no alívio de sintomas dispépticos”. Não há segunda indicação, não há indicação por faixa etária, não há uma para o chá e outra para a tintura — as duas fórmulas servem à mesma coisa. O que essa expressão cobre na prática está em carqueja para má digestão.
Fora dessa linha, o restante da monografia é sobre limite: quem não pode, com o que não misturar, o que acontece se usar demais e por quanto tempo. É uma proporção incomum. Em plantas de indicação digestiva já publicadas aqui, como o boldo-do-chile e a espinheira-santa, a lista de advertências existe, mas não domina o texto do jeito que domina na carqueja.
A planta mais citada do país para emagrecer
Uma revisão sistemática publicada em 2015 no Journal of Ethnopharmacology reuniu 33 levantamentos etnobotânicos feitos em regiões brasileiras e catalogou 50 espécies usadas por pessoas com sobrepeso ou obesidade para perder peso. A espécie mais citada de todas foi Baccharis trimera — a carqueja.
A conclusão dos autores é curta e vale reproduzir: para a maioria das espécies levantadas não há base científica que assegure os efeitos biológicos desse uso, e a revisão termina indicando quais plantas mereceriam estudos controlados — ou seja, tratando-as como hipótese ainda por testar, não como recurso disponível. A revisão aponta ainda um erro de raciocínio comum: muitos estudos mediram efeito sobre glicemia, lipídios ou peso fora da condição de obesidade, o que não autoriza a recomendação para quem quer emagrecer.
Somando as duas fontes: a carqueja lidera a lista popular de emagrecimento e não tem essa indicação em documento oficial nenhum. Este site não publica promessa de emagrecimento, e neste caso nem precisaria da regra — não há o que publicar.
O detox que inibe a enzima da detoxificação
Aqui está a ironia mais concreta do dossiê. Um estudo toxicológico de 2011 preparou o extrato aquoso de carqueja por infusão em água fervente — a preparação mais próxima do chá caseiro que a literatura oferece — e avaliou o efeito em camundongos e em cultura de células. Três resultados, na ordem em que importam:
- não houve mutagenicidade no teste de Ames, com quatro linhagens de Salmonella typhimurium;
- o extrato inibiu a atividade da glutationa S-transferase, descrita pelos próprios autores como “a hepatic detoxification enzyme” — uma enzima de detoxificação do fígado;
- houve dano ao DNA de células renais nos camundongos tratados por 15 dias, e alteração do peso relativo do rim na dose mais alta testada.
A planta que carrega a fama de “limpar o organismo” reduziu, nesse modelo, a atividade de uma das enzimas que o fígado usa justamente para eliminar substâncias. O achado não transforma a carqueja em veneno, e o próprio estudo mostra ausência de mutagenicidade — mas desmonta a metáfora do detox com o dado, não com opinião. As reações que a monografia lista estão em carqueja: efeitos colaterais.
O caule que parece folha
A fórmula da monografia não pede folha: pede caule alado. A carqueja é um subarbusto cujas folhas são reduzidas ao ponto de quase desaparecer, e as fitas verdes achatadas que se vê no saquinho são expansões do caule — as “alas” que dão nome à parte usada e que fazem a fotossíntese no lugar da folha.
Isso tem consequência prática. Receita de internet que manda usar “folha de carqueja” está descrevendo uma parte que a planta praticamente não tem, e nenhuma das duas fórmulas oficiais menciona raiz, flor ou planta inteira. A quantidade exata e o modo de preparo estão em chá de carqueja.
O respaldo é nacional, e isso muda a leitura
A Flora e Funga do Brasil registra Baccharis trimera como espécie nativa, subarbusto com ocorrência confirmada em 13 estados e nos domínios Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa. É planta brasileira, e o documento que a sustenta é brasileiro.
Em plantas de circulação europeia — a camomila é o exemplo — esta série consegue comparar o texto da Anvisa com o do comitê europeu, e a comparação às vezes muda a conclusão. Na carqueja não há esse segundo documento para conferir. O que existe é a FT013, e ela é a régua desta página inteira.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — na carqueja as três estão escritas, e a lista de quem deve ficar longe está em quem não pode tomar carqueja. O índice das espécies já publicadas fica em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Carqueja é boa para o fígado?
A palavra fígado não aparece nas indicações da monografia FT013: o que está registrado é o alívio de sintomas dispépticos. Existem estudos pré-clínicos com a planta em modelos de lesão hepática em animais, e existem também estudos que encontraram efeito tóxico sobre células renais e inibição de uma enzima hepática de detoxificação. Nada disso virou indicação, e nenhum desses trabalhos foi feito em pessoas.
Qual a diferença entre carqueja e carqueja-amargosa?
Nenhuma. A Flora e Funga do Brasil registra carqueja e carqueja-amargosa como nomes populares da mesma espécie, Baccharis trimera. O gênero Baccharis, porém, tem dezenas de espécies no Brasil, e nem todas são a que a monografia descreve — por isso o nome científico no rótulo importa mais do que o nome popular.
Carqueja é planta brasileira?
Sim. A Flora e Funga do Brasil registra Baccharis trimera como espécie nativa, um subarbusto com ocorrência confirmada em 13 estados e em quatro domínios: Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa. É também por isso que o documento que a respalda é brasileiro, e não europeu.
Existe fitoterápico industrializado de carqueja?
O Formulário de Fitoterápicos descreve duas formas para manipulação em farmácia: a preparação extemporânea, que é o chá, e a tintura. Produto industrializado com registro é outra categoria regulatória, e a existência dele se confirma na consulta de medicamentos da própria Anvisa, não nesta monografia.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT013, Baccharis trimera (Less.) DC.: a indicação única de auxiliar no alívio de sintomas dispépticos, as duas fórmulas registradas (decocto de 0,2 a 0,3 g de caule alado em 150 mL e tintura de 10 g em álcool 70% até 100 mL), a advertência de uso adulto e a contraindicação para gestação, lactação e menores de 18 anos
- Flora e Funga do Brasil (Jardim Botânico do Rio de Janeiro) — verbete FB5172 de Baccharis trimera (Less.) DC., Asteraceae: o nome científico aceito, o porte de subarbusto, a condição de espécie nativa e a ocorrência confirmada em 13 estados e nos domínios Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa
- Cercato LM et al. (2015), Journal of Ethnopharmacology 176:286-296 — revisão sistemática de 33 levantamentos etnobotânicos sobre plantas usadas para emagrecer no Brasil: Baccharis trimera é a espécie mais citada entre as 50 levantadas, e a conclusão de que há pouca evidência científica corroborando esse uso
- Nogueira NP et al. (2011), Journal of Ethnopharmacology 138(2):513-522 — avaliação toxicológica do extrato aquoso de Baccharis trimera obtido por infusão: ausência de mutagenicidade no teste de Ames, inibição da glutationa S-transferase hepática e efeitos tóxicos sobre células renais in vivo e in vitro
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026