Pular para o conteúdo
Guia da Saúde

Tintura de carqueja: fórmula, dose e o limite de tempo

A segunda fórmula da monografia FT013 é a tintura: 10 g de caule alado em álcool etílico a 70%, completando 100 mL. É a única preparação da carqueja com prazo máximo escrito — duas semanas —, e a única com uma lista própria de gente que não pode usá-la.

Quanta planta há em cada dose

A monografia não faz esta conta, mas ela sai direto dos números da fórmula e explica muita coisa sobre o prazo. Dez gramas de caule alado em 100 mL significam 0,1 g de droga vegetal por mililitro de tintura. Aplicando à posologia:

Quantidade nominal de caule alado
Dose mínima da tintura (3 mL)0,3 g
Dose máxima da tintura (9 mL)0,9 g
Total diário pela tintura (2 doses)0,6 a 1,8 g
Total diário pelo chá (0,2 a 0,3 g, 2 a 3 vezes)0,4 a 0,9 g

No topo de cada faixa, a tintura entrega o dobro da quantidade diária de planta que o chá entrega. Uma ressalva honesta: esses valores são equivalentes nominais, calculados pela massa que entra na fórmula. Álcool e água não extraem os mesmos compostos nem nas mesmas proporções, e a monografia não publica marcador que permita comparar as duas preparações no que de fato passa para o líquido. Ainda assim, a diferença de escala é grande o bastante para não ser ruído — e ajuda a entender por que só a preparação alcoólica ganhou teto de tempo. A fórmula do decocto está em chá de carqueja.

O prazo que só a tintura tem

A frase da FT013: “O uso da preparação tintura deve ser restrito no máximo, a duas semanas”.

Não há frase equivalente para o chá. Em toda a monografia, o único outro prazo é a menção a doses excessivas e prolongadas maiores que três meses no parágrafo da leucopenia — que trata de excesso, não de duração normal de tratamento. Ou seja: a carqueja tem um teto explícito de 14 dias para a tintura e nenhum teto explícito para o decocto. Os efeitos ligados a uso prolongado estão em carqueja: efeitos colaterais.

As duas referências do prazo não estudaram prazo

Esta é a parte que só aparece conferindo a bibliografia. O limite de duas semanas vem creditado a duas referências, e vale abrir as duas:

  • Grance 2008 — extrato hidroetanólico em ratas Wistar gestantes, 8,4 mg/kg, por 19 dias num grupo e 10 dias no outro. O desfecho avaliado foi hepatorrenal e hematológico na mãe;
  • Rodrigues 2009 — extrato aquoso em camundongas, três doses únicas por três dias consecutivos, com ensaios cometa e de micronúcleo.

Nenhum dos dois testou duração de uso de tintura em pessoas. Um usou preparação alcoólica em animal gestante por período que nem coincide com duas semanas; o outro usou preparação aquosa por três dias. O número 14 não sai de nenhum deles.

Como isso se publica sem virar desculpa para ignorar o limite: o prazo é uma decisão de precaução da autoridade, sustentada por sinais de toxicidade em modelo animal, e não o resultado de um estudo de duração. Precaução com lastro experimental continua sendo o teto que vale — e, aliás, é mais coerente com o resto da monografia do que seria um número tirado de estudo inexistente. Quem usa a tintura respeita as duas semanas.

O preparo não está na monografia da espécie

A FT013 é econômica aqui. Sobre o preparo da tintura, ela diz apenas para seguir as técnicas de secagem do material vegetal e de preparo de tintura descritas nas Generalidades do próprio Formulário. Não há, dentro do verbete da carqueja, tempo de maceração, instrução de agitação nem temperatura de secagem.

É uma diferença concreta em relação a outras espécies do mesmo documento: o boldo-brasileiro, por exemplo, traz secagem em estufa com ventilação forçada por sete dias a 45 ºC e maceração de 20 dias escritas na própria monografia. Quem for preparar tintura de carqueja precisa da seção geral do Formulário em mãos — e não pode importar o procedimento de outra planta, que tem outra concentração e outro tempo. A propósito da concentração: o boldo-brasileiro usa 20 g por 100 mL, o dobro da carqueja.

Sobre a embalagem, a instrução é específica e curta: a tintura deve ser acondicionada em frasco de vidro âmbar, e a embalagem em geral precisa proteger contra contaminação, luz e umidade.

A lista de quem não pode cresce com o álcool

O teor alcoólico acrescenta contraindicados que o chá não tem: além de menores de 18 anos, gestantes e lactantes, a tintura é especialmente contraindicada para alcoolistas e diabéticos. O motivo escrito é o álcool, e não a ação da planta sobre a glicemia — distinção que muda a leitura e está detalhada em carqueja e remédios. O restante das restrições, válido para as duas preparações, está em quem não pode tomar carqueja.

Planta medicinal tem dose, prazo e contraindicação. Na tintura de carqueja os três estão escritos — e o prazo é o mais curto de toda a monografia.

Perguntas frequentes

Depois das duas semanas, quanto tempo esperar para repetir?

A monografia não responde. Ela fixa que o uso da tintura deve ser restrito a no máximo duas semanas e não escreve intervalo de descanso nem número de ciclos por ano. Na ausência de instrução, tratar o fim das duas semanas como fim do tratamento é a leitura fiel ao texto — e a persistência do sintoma é, pela própria monografia, motivo para consultar um médico.

Quantas gotas equivalem à dose?

A FT013 trabalha em mililitros: de 3 a 9 mL por vez, diluídos em 50 mL de água, duas vezes ao dia. Conta-gotas variam conforme o bico e conforme a viscosidade do líquido, e converter gotas em mililitros de cabeça é uma das fontes mais comuns de erro de dose em preparação alcoólica. Seringa dosadora resolve.

Posso usar cachaça, vodca ou álcool de farmácia?

A fórmula especifica álcool etílico a 70%. Destilado de bebida tem graduação bem menor, o que muda a capacidade de extração e a conservação da preparação. Álcool de uso doméstico, por sua vez, não é necessariamente etílico nem tem grau de pureza adequado para uso oral. Nenhum dos dois produz a preparação que a monografia descreve.

A tintura é mais forte que o chá?

Em quantidade nominal de planta por dose, sim — e a conta está nesta página. Mas forte não é sinônimo de melhor: a indicação é a mesma para as duas preparações, e é a tintura, não o chá, que carrega o prazo máximo de duas semanas e a lista extra de contraindicados por causa do álcool.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT013, Baccharis trimera: a fórmula 2 da tintura (caule alado 10 g, álcool etílico 70% q.s.p. 100 mL), a remissão às técnicas de secagem e preparo descritas em Generalidades, a exigência de frasco de vidro âmbar, a posologia de 3 a 9 mL diluídos em 50 mL de água duas vezes ao dia, a restrição de uso a no máximo duas semanas e a contraindicação especial para menores de 18 anos, gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos pelo teor alcoólico
  2. Grance SR et al. (2008), Journal of Ethnopharmacology 117(1):28-33 — uma das duas referências que a FT013 cita para o limite de duas semanas da tintura: estudo com extrato hidroetanólico em ratas Wistar gestantes tratadas por 19 e por 10 dias, com avaliação hepatorrenal materna
  3. Rodrigues CR et al. (2009), Journal of Ethnopharmacology 125(1):97-101 — a outra referência que a FT013 cita para o limite de duas semanas: estudo de genotoxicidade e antigenotoxicidade com extrato aquoso de Baccharis trimera em camundongas por três dias consecutivos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026