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Guia da Saúde

Chá e antidepressivo: o que a monografia diz

Doze das 85 monografias do Formulário de Fitoterápicos citam sedativo, depressor do sistema nervoso central, barbitúrico, benzodiazepínico ou inibidor da monoaminoxidase. Nenhuma delas cita um ISRS pelo nome — nem fluoxetina, nem sertralina, nem escitalopram. O antidepressivo mais prescrito do Brasil simplesmente não aparece no documento.

Isso não significa ausência de risco. Significa que o risco descrito pelo documento brasileiro é de outro tipo.

O que o documento brasileiro descreve: soma de sedação

A advertência que se repete é sempre a mesma ideia. Um punhado de exemplos, transcritos:

PlantaO que a monografia registra
Passiflora (FT056)“Não usar em casos de tratamento com sedativos e depressores do sistema nervoso central”
Valeriana (FT082)evitar coadministração com “barbitúricos, anestésicos, benzodiazepínicos”, por aumento dos efeitos desses fármacos
Lavanda (FT041)“Não deve ser utilizado concomitantemente com depressores do Sistema Nervoso Central (SNC), como álcool etílico, benzodiazepínicos e narcóticos”
Capim-limão (FT022)“Não associar a depressores do sistema nervoso central”
Erva-cidreira-brasileira (FT044)pode potencializar medicamentos com ação sedativa e depressores do SNC

O mecanismo aqui é farmacodinâmico: dois sedativos somados sedam mais. Não é o fígado, não é enzima, e não é sutil — é sonolência excessiva, tontura e prejuízo de reflexo. Os detalhes de cada uma estão em passiflora e remédios e quem não pode tomar valeriana.

Os IMAO: a classe que aparece com nome próprio

Inibidor da monoaminoxidase é antidepressivo antigo, hoje pouco prescrito, e é a única classe de antidepressivo nomeada no documento. Aparece três vezes:

  • passiflora (FT056): o uso associado a “drogas inibidoras da monoaminoxidase (isocarboxazida, fenelzina e tranilcipromina) pode potencializar o efeito”;
  • alcaçuz (FT035): “pode potencializar o efeito de inibidores da MAO”;
  • abacateiro (FT058): não usar com IMAO, “pois pode favorecer o surgimento de crises hipertensivas”.

O erro de uma letra na monografia do abacateiro

A frase completa da FT058 é esta:

“Como possui tiamina, esta planta não deve ser utilizada com Inibidores da Monoaminoxidase (IMAO), pois pode favorecer o surgimento de crises hipertensivas.”

Tiamina é a vitamina B1, e ela não tem nenhuma relação com crise hipertensiva por IMAO. A substância que produz esse efeito é a tiramina — uma amina pressora que a monoaminoxidase normalmente degrada. Quando a enzima está bloqueada pelo medicamento, a tiramina da dieta se acumula e a pressão dispara. É o mecanismo clássico descrito no capítulo de IMAO do StatPearls, do NCBI: “os IMAO impedem a degradação da tiramina encontrada no corpo e em certos alimentos”.

O detalhe que fecha o caso: o abacate está na lista de alimentos ricos em tiramina desse mesmo capítulo, ao lado de queijos curados, embutidos e favas. Ou seja, a advertência está certa e o substantivo está errado — trocou-se uma letra e, com ela, a farmacologia inteira da frase.

Isso não afrouxa a conduta. Quem usa IMAO e evita abacate por causa da monografia está fazendo a coisa certa pelo motivo certo, só descrito com o nome trocado. Registrar o erro serve para outra coisa: mostrar que ler a fonte não é formalidade.

Onde o risco realmente é serotoninérgico

A síndrome serotoninérgica, que é a preocupação real de quem digita “chá e antidepressivo”, não está no documento brasileiro. Está no europeu, e sobre uma planta que não é uma das 85: a erva-de-são-joão.

A monografia europeia descreve o quadro com precisão incomum:

“Muito raramente podem ocorrer efeitos indesejados (síndrome serotoninérgica) com disfunções autonômicas (como sudorese, taquicardia, diarreia, febre), alterações mentais (como agitação, desorientação) e alterações motoras (como tremor ou mioclonias) em combinação com inibidores da recaptação de serotonina ou outras substâncias serotoninérgicas.”

O relatório de avaliação lista os fármacos envolvidos: citalopram, duloxetina, escitalopram, fluoxetina, fluvoxamina, mirtazapina, moclobemida, paroxetina, sertralina, tramadol, trazodona e venlafaxina. E traz os relatos de caso — sertralina, nefazodona, paroxetina, buspirona.

Há um segundo problema, de sinal oposto, que o NCCIH resume: a mesma planta enfraquece alguns antidepressivos, entre eles a amitriptilina e a bupropiona, porque acelera a enzima que os destrói. Então a erva-de-são-joão consegue, ao mesmo tempo, somar efeito com uns e apagar o efeito de outros — e é exatamente por isso que ela não é assunto de automedicação.

O que fazer

Quem toma antidepressivo e quer tomar chá tem uma pergunta útil e uma inútil. A inútil é “chá pode com antidepressivo”. A útil é qual planta, em que quantidade, por quanto tempo, e junto de qual remédio — e essa é a pergunta que se leva a quem prescreve.

Procure atendimento imediato se aparecer, durante o uso combinado, febre com agitação, tremor ou contrações musculares involuntárias, batimento acelerado com sudorese, confusão mental ou rigidez. E não interrompa antidepressivo por conta própria: o mapa completo das interações por classe está em interação entre chá e remédio.

Perguntas frequentes

Chá de camomila pode com fluoxetina?

A monografia da camomila não registra interação com antidepressivos nem com medicamentos para dormir. Isso é coerente com o fato de ela também não ter indicação registrada para ansiedade ou insônia. Ausência de registro não é liberação, mas é diferente de haver uma advertência — e no caso da camomila não há.

O que é síndrome serotoninérgica, em termos práticos?

É um excesso de sinalização de serotonina. A monografia europeia descreve três grupos de sinais: autonômicos, como sudorese, taquicardia, diarreia e febre; mentais, como agitação e desorientação; e motores, como tremor e mioclonias. É rara e é emergência médica — não é efeito para esperar passar em casa.

Chá calmante soma com o remédio calmante?

Nas monografias, sim, e essa é a interação mais frequente do grupo. Passiflora, valeriana, lavanda, capim-limão e erva-cidreira aparecem com a mesma orientação: não usar junto de sedativos, benzodiazepínicos, barbitúricos ou depressores do sistema nervoso central, porque o efeito soma.

Posso parar o antidepressivo e trocar por chá?

Não. Interromper antidepressivo por conta própria produz sintomas de retirada e risco de recaída, e nenhuma das 85 monografias brasileiras tem indicação registrada para depressão. Quem quiser entender por que a substituição não se sustenta em documento encontra o quadro em chá substitui remédio.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT056 (Passiflora incarnata), FT082 (Valeriana officinalis), FT041 (Lavandula angustifolia), FT022 (Cymbopogon citratus), FT044 (Lippia alba), FT035 (Glycyrrhiza glabra) e FT058 (Persea americana): as advertências de não usar com sedativos e depressores do sistema nervoso central, a potencialização de barbitúricos, benzodiazepínicos e anestésicos, a potencialização de inibidores da monoaminoxidase, e a frase da monografia do abacateiro que atribui à tiamina o risco de crise hipertensiva com IMAO
  2. Sub Laban T, Saadabadi A. Monoamine Oxidase Inhibitors (MAOIs). StatPearls, NCBI Bookshelf (NBK539848): o mecanismo da crise hipertensiva com IMAO, que decorre do bloqueio da degradação da tiramina presente em alimentos — com o abacate entre os alimentos ricos em tiramina listados — e a contraindicação do uso concomitante de IMAO com agentes serotoninérgicos, incluindo a erva-de-são-joão, pelo risco de síndrome serotoninérgica
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Hypericum perforatum L., herba, revisão 1 (EMA/HMPC/244315/2016): a lista de fármacos com possível interação farmacodinâmica com Hypericum, que inclui citalopram, duloxetina, escitalopram, fluoxetina, fluvoxamina, mirtazapina, moclobemida, paroxetina, sertralina, tramadol, trazodona e venlafaxina, e os relatos de caso de síndrome serotoninérgica com sertralina, nefazodona, paroxetina e buspirona
  4. NCCIH / National Institutes of Health — St. John's Wort: a lista de medicamentos cujo efeito é enfraquecido pela planta, incluindo os antidepressivos amitriptilina e bupropiona, e a advertência de que tomar erva-de-são-joão com certos antidepressivos ou outras drogas que afetam a serotonina pode aumentar os efeitos adversos relacionados à serotonina

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026