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Guia da Saúde

Passiflora e remédios: o que consta, e o que não

A monografia brasileira lista quatro frentes de interação da passiflora: sedativos e depressores do SNC, barbitúricos, varfarina e inibidores da monoaminoxidase. Abrindo as referências uma a uma, elas não têm o mesmo peso — e a da varfarina não sustenta o que a monografia afirma.

As quatro frentes, e o lastro de cada uma

Com o quêO que a monografia afirmaO que sustenta a afirmação
Sedativos e depressores do SNCnão usar durante o tratamentomecanismo somado; Europa concorda sem dado clínico
Pentobarbital e hexobarbitalpotencializa o efeito sedativo, aumentando o tempo de sonoestudos em camundongos, por via oral
Varfarinacumarinas com ação anticoagulante potenciala referência citada não trata disso
Isocarboxazida, fenelzina, tranilciprominapode potencializar o efeitomanual de fitoterapia; base é um alcaloide em traços

A varfarina e a referência que não fala de varfarina

A frase da FT056 é: “há indícios de que as cumarinas presentes na espécie vegetal apresentam ação anticoagulante potencial e possivelmente interajam com a varfarina”, seguida de uma única referência — Ramos-Ruiz e colaboradores, 1996.

Abrindo o artigo (PMID 8771452), o título é “Screening of medicinal plants for induction of somatic segregation activity in Aspergillus nidulans”. É uma triagem de genotoxicidade em fungo: extratos aquosos e alcoólicos de 13 plantas da medicina popular cubana, testados em ensaio de incorporação em placa com a cepa D-30 de Aspergillus nidulans, para detectar recombinação mitótica, má segregação cromossômica e efeito clastogênico.

Passiflora incarnata está entre as 13 plantas testadas. O resultado do artigo é que apenas Momordica charantia produziu aumento estatisticamente significativo de setores segregantes. Não há no trabalho uma linha sobre cumarinas, sobre coagulação ou sobre varfarina.

Dois indícios confirmam que a citação foi trocada de contexto, e não que estamos lendo o artigo errado:

  • a OMS e a EMA citam o mesmo trabalho — corretamente. As duas o usam no lugar certo, a seção de genotoxicidade, para registrar que o extrato fluido de passiflora não foi genotóxico até 1,3 mg/mL em Aspergillus nidulans;
  • cumarinas não aparecem na composição da planta. As listas de constituintes da EMA e da OMS trazem flavonoides C-glicosídeos, maltol, crisina, gynocardina e traços de alcaloides beta-carbolínicos. Cumarina não está em nenhuma das duas.

O que isso não muda. Quem usa varfarina tem a dose ajustada por exame, e qualquer variável nova desloca esse ajuste — inclusive dieta e outras plantas. A conduta prudente continua sendo informar o uso de passiflora a quem acompanha a anticoagulação. O que isso muda é o grau de certeza: ninguém pode afirmar que existe interação demonstrada entre passiflora e varfarina citando essa referência, porque ela não diz isso.

Os beta-carbolínicos e o inibidor da MAO

A advertência sobre isocarboxazida, fenelzina e tranilcipromina é creditada a um manual de fitoterapia de 1996, e a lógica por trás dela é conhecida: a passiflora contém alcaloides beta-carbolínicos — harmana, harmol, harmalol —, e essa classe de moléculas inibe a monoaminoxidase. Somar dois inibidores da MAO é uma preocupação legítima.

O problema está na premissa. O relatório europeu qualifica a presença desses alcaloides em uma frase: eles ocorrem em traços e são “undetectable in most commercial materials”. A OMS trata o assunto como controle de qualidade e fixa um teto: no máximo 0,01% de alcaloides harmânicos na droga vegetal.

Ou seja, a interação é plausível pela química e improvável pela quantidade. Como quem usa IMAO já convive com uma lista longa de restrições — inclusive alimentares —, a conduta segue a mesma: avisar quem prescreve antes de acrescentar qualquer planta.

O relato que existe: valeriana, passiflora e lorazepam

A interação com benzodiazepínico é a que tem o registro clínico mais concreto, e ele é um relato de caso publicado em 2009 (PMID 19441067). Um paciente com transtorno de ansiedade generalizada, em uso de lorazepam, se automedicou com valeriana e passiflora e desenvolveu tremor de mãos, tontura, sensação pulsátil e fadiga muscular nas 32 horas anteriores ao diagnóstico. A investigação afastou tremor essencial, doença de Parkinson e doença de Wilson. Os sintomas desapareceram ao parar as plantas, mantido o lorazepam.

Os autores suspeitam de efeito aditivo ou sinérgico sobre os receptores GABA. Duas ressalvas honestas: o paciente tomava duas plantas ao mesmo tempo, então o caso não isola a passiflora; e um relato não estabelece frequência. Ainda assim, é a razão pela qual a EMA escreve que, mesmo sem dado clínico da passiflora isolada, o uso concomitante com sedativos sintéticos não é recomendado. As restrições da outra planta do caso estão em quem não pode tomar valeriana.

O campo que os dois reguladores deixam vazio

Vale conhecer antes de citar qualquer lista de interações de passiflora como se fosse consenso:

  • EMA, seção 4.5, interações com outros medicamentos: “None reported.”
  • OMS, outras precauções: não há informação disponível sobre precauções gerais nem sobre interações medicamentosas.
  • Anvisa, FT056: quatro frentes, com as referências que esta página abriu.

Não é contradição de dado, é diferença de critério. “Nenhuma interação relatada” significa que não existe relato clínico formal com a planta isolada; as advertências brasileiras nascem de mecanismo e de fontes secundárias. Para quem vai usar, a conduta prudente é a mais restritiva das três — que é a brasileira, mesmo com a referência trocada.

E vale repetir o que nenhuma dessas listas autoriza: passiflora não substitui calmante prescrito, e ninguém suspende um psicofármaco por conta própria. Reduzir benzodiazepínico é procedimento médico, feito com plano e prazo. As reações já descritas com a planta estão em passiflora: efeitos colaterais; a lista de quem não pode, em quem não pode tomar passiflora; e o que a espécie sustenta, em passiflora.

Perguntas frequentes

Passiflora pode ser tomada com antidepressivo?

Antidepressivos em geral não aparecem na lista brasileira, que cita nominalmente três inibidores da monoaminoxidase: isocarboxazida, fenelzina e tranilcipromina. Ausência na lista não é liberação — a monografia veta sedativos e depressores do sistema nervoso central em bloco, e vários antidepressivos têm efeito sedativo. Quem usa qualquer psicofármaco decide isso com quem prescreve.

Passiflora corta o efeito do anticoncepcional?

Nenhum dos três documentos registra interação da passiflora com contraceptivos hormonais. A planta que aparece em documentos oficiais com esse problema é a erva-de-são-joão. Para a passiflora, o que consta são sedativos, barbitúricos, inibidores da MAO, álcool e a menção à varfarina discutida nesta página.

Quem toma remédio para dormir pode acrescentar passiflora?

A orientação brasileira é não usar em tratamento com sedativos e depressores do sistema nervoso central, e a europeia diz que o uso concomitante com sedativos sintéticos não é recomendado mesmo sem dado clínico. E vale a regra que não muda: remédio prescrito não se troca nem se suspende por conta própria para dar lugar a um chá.

Pode tomar uma taça de vinho usando passiflora?

A monografia orienta não utilizar o fitoterápico simultaneamente ao consumo de bebidas alcoólicas. O motivo é somar depressão do sistema nervoso central a uma planta que já traz advertência de sonolência e de não dirigir. E há o detalhe da forma farmacêutica: a tintura e o extrato fluido são, eles próprios, preparações alcoólicas.

Preciso avisar o anestesista que uso passiflora?

Sim. O NIH orienta que a passiflora pode interagir com fármacos usados em anestesia e que ela deve ser evitada antes de cirurgia sem aprovação médica. As monografias não fixam prazo de suspensão, ao contrário da valeriana, que tem regra escrita de 15 dias — o que torna o aviso à equipe ainda mais importante.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT056, Passiflora incarnata L.: a orientação de não usar em casos de tratamento com sedativos e depressores do sistema nervoso central; a potencialização dos efeitos sedativos do pentobarbital e do hexobarbital; a afirmação de que as cumarinas da espécie teriam ação anticoagulante potencial e possivelmente interagiriam com a varfarina, creditada a Ramos-Ruiz e colaboradores (1996); a potencialização do efeito de inibidores da monoaminoxidase (isocarboxazida, fenelzina e tranilcipromina), creditada a Newall e colaboradores (1996); e a orientação de não usar simultaneamente a bebidas alcoólicas
  2. Ramos Ruiz A, De la Torre RA, Alonso N, Villaescusa A, Betancourt J, Vizoso A. Screening of medicinal plants for induction of somatic segregation activity in Aspergillus nidulans. Journal of Ethnopharmacology, v. 52, n. 3, p. 123-127, 1996 (PMID 8771452) — a triagem de genotoxicidade de extratos aquosos e alcoólicos de 13 plantas medicinais cubanas, entre elas Passiflora incarnata, em ensaio de incorporação em placa com a cepa D-30 de Aspergillus nidulans, em que apenas Momordica charantia produziu aumento estatisticamente significativo de setores segregantes
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669738/2013): a lista de constituintes, em que os alcaloides beta-carbolínicos aparecem em traços e são descritos como indetectáveis na maioria dos materiais comerciais; o registro de que não há dados clínicos sobre interação da passiflora isolada com sedativos sintéticos e de que o uso concomitante não é recomendado; e o relato de caso de interação de Valeriana officinalis e Passiflora incarnata em paciente tratado com lorazepam
  4. Carrasco MC, Vallejo JR, Pardo-de-Santayana M, Peral D, Martín MA, Altimiras J. Interactions of Valeriana officinalis L. and Passiflora incarnata L. in a patient treated with lorazepam. Phytotherapy Research, v. 23, n. 12, p. 1795-1796, 2009 (PMID 19441067) — o caso de um paciente com transtorno de ansiedade generalizada em uso de lorazepam que se automedicou com valeriana e passiflora e apresentou tremor de mãos, tontura, sensação pulsátil e fadiga muscular nas 32 horas anteriores ao diagnóstico, com suspeita de efeito aditivo ou sinérgico sobre os receptores GABA
  5. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Passiflora incarnata L., herba (EMA/HMPC/669740/2013): a seção 4.5, que registra 'None reported' no campo de interações com outros medicamentos e outras formas de interação
  6. WHO monographs on selected medicinal plants, volume 3 (Organização Mundial da Saúde, 2007) — monografia Herba Passiflorae: a seção de outras precauções, que declara não haver informação disponível sobre precauções gerais nem sobre interações medicamentosas; o limite de no máximo 0,01% de alcaloides harmânicos na droga vegetal; a lista de constituintes sem cumarinas; e o uso correto da referência de Ramos-Ruiz, na seção de genotoxicidade, para registrar que o extrato fluido não foi genotóxico até 1,3 mg/mL em Aspergillus nidulans

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026