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Guia da Saúde

Bebê pode tomar chá? O que diz o Ministério da Saúde

Antes dos 6 meses, não. A recomendação do Ministério da Saúde é de aleitamento materno exclusivo nesse período — o bebê recebe somente leite materno, “sem necessidade de sucos, chás, água e outros alimentos”. E o texto antecipa a objeção mais comum: a oferta de água e chás é desnecessária mesmo em locais secos e quentes, porque o leite materno já traz a água de que o bebê precisa.

Depois dos 6 meses, a amamentação continua — até os dois anos ou mais — e entra a alimentação complementar. Chá não é parte obrigatória dessa lista.

Por que a recomendação não é só sobre hidratação

O argumento não é que chá seja veneno; é que ele ocupa espaço. Estômago de lactente é pequeno, e cada mililitro de chá é um mililitro a menos de leite materno. Oferecer outros alimentos na fase do aleitamento exclusivo, além de desnecessário, pode ser prejudicial: aumenta o risco de doença e interfere na absorção de nutrientes já presentes no leite, como ferro e zinco.

Quanto de líquido a mãe que amamenta precisa, esse sim, é uma conta que existe — está em água diária na amamentação.

Só uma planta tem dose registrada abaixo dos 12 meses

Vale a pena ver o tamanho da exceção. O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa avalia 85 espécies, e uma única delas tem posologia oral a partir dos 6 meses: a camomila (FT047), com 0,5 a 1 g de flor por dose entre 6 meses e 2 anos. A mesma monografia contraindica o uso oral para menores de 6 meses.

Repare no encaixe que isso produz: a cólica do recém-nascido, que é o quadro que leva as famílias ao chá, acontece antes dos 6 meses — ou seja, fora da única faixa etária autorizada. A escala completa está em camomila para crianças, e o que separar cólica de fome nessa idade em cólica ou fome no bebê.

O anis-estrelado é o caso documentado mais grave

Em 2004, a revista Pediatrics publicou a série do Miami Children’s Hospital: 7 lactentes de 2 a 12 semanas com reações neurológicas adversas depois de receberem chá de anis-estrelado feito em casa. Convulsões, agitação, irritabilidade, hiperexcitabilidade, vômitos, nistagmo vertical e movimentos mioclônicos. Os autores encontraram evidência de que o anis-estrelado chinês (Illicium verum) estava adulterado com o japonês (Illicium anisatum), este último reconhecidamente neurotóxico, e encerraram com uma frase sem meio-termo: o chá de anis-estrelado não deve mais ser administrado a lactentes. Casos novos continuaram aparecendo — o relato de 2021 na Rhode Island Medical Journal descreve convulsão em recém-nascido pela mesma causa.

O Formulário brasileiro chega ao mesmo lugar por outro caminho: a monografia FT039 classifica o anis-estrelado como uso adulto, contraindicado durante a gestação, a lactação e para menores de 18 anos. E descreve o que o anetol em alta dose faz — “excitabilidade cerebral, choro contínuo, em crianças, seguida por tremores, convulsões, sonolência, congestão cerebral e pulmonar, acidose e coma”.

Erva-doce, o chá que quase todo bebê brasileiro tomou

A erva-doce (Pimpinella anisum, FT061) é da mesma família química — anetol de novo. A monografia é de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos, diz que a utilização em menores de 12 anos, lactantes e gestantes não é recomendada, e registra: “foi relatada a toxicidade do anetol em crianças com sintomas clínicos de hipertonia, choro contínuo, movimentos oculares atípicos, espasmos, cianose e inapetência”.

O funcho, que também é vendido como erva-doce no Brasil, tem piso de 4 anos nas monografias que o detalham. Nem por um nome nem pelo outro existe autorização para bebê. Os textos completos estão em erva-doce para crianças e funcho para crianças.

Quando procurar atendimento na hora

Leve o bebê ao serviço de saúde imediatamente se, depois de qualquer chá, aparecerem: convulsão, tremores ou rigidez, movimentos oculares estranhos, choro inconsolável, sonolência que não se quebra, recusa de mamar, vômitos repetidos, cianose ou dificuldade para respirar. O Disque-Intoxicação da Anvisa (0800 722 6001) funciona 24 horas, é gratuito e orienta enquanto você se desloca.

Quando o chá volta a fazer sentido, e com que quantidade, está em a partir de que idade pode tomar chá e em como preparar chá para criança.

Perguntas frequentes

Bebê com sede em dia quente precisa de água ou chá?

A orientação do Ministério da Saúde é explícita quanto a isso: a oferta de água e chás é desnecessária mesmo em locais secos e quentes, porque o leite materno já contém a água necessária para a hidratação. Se houver sinal de desidratação, o caminho é o pediatra, não o chá.

Chá de erva-doce serve para cólica de recém-nascido?

Não há autorização oficial para isso. A monografia da erva-doce é de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos, e registra toxicidade do anetol em crianças, com hipertonia, choro contínuo, movimentos oculares atípicos, espasmos, cianose e inapetência. Cólica de recém-nascido é assunto de pediatra.

Meu bebê já tomou chá. O que faço?

Um episódio isolado costuma passar sem consequência, mas suspenda a oferta e observe. Procure atendimento imediato se houver choro inconsolável, tremores, rigidez, movimentos oculares estranhos, vômitos repetidos, sonolência incomum, cianose ou convulsão. O Disque-Intoxicação da Anvisa, 0800 722 6001, atende 24 horas.

Depois dos 6 meses libera qualquer chá?

Não. Depois dos 6 meses começa a alimentação complementar, e a amamentação continua. Entre as 85 espécies do Formulário de Fitoterápicos, apenas a camomila tem dose registrada nessa faixa. Todas as outras começam aos 3, 4, 6, 12 anos ou são exclusivas de adulto.

Fontes

  1. Ministério da Saúde — Aleitamento materno: a recomendação de que nos primeiros 6 meses o bebê receba somente leite materno, 'sem necessidade de sucos, chás, água e outros alimentos', sendo desnecessária a oferta de água e chás 'mesmo em locais secos e quentes', e a manutenção da amamentação até os dois anos de idade ou mais
  2. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — a monografia FT047 (camomila), única das 85 com dose oral registrada a partir dos 6 meses e com uso oral contraindicado abaixo dessa idade; a FT039 (anis-estrelado), de uso adulto e contraindicada a menores de 18 anos, cujo anetol em altas doses provoca excitabilidade cerebral, choro contínuo em crianças, tremores, convulsões, sonolência, congestão cerebral e pulmonar, acidose e coma; e a FT061 (anis e erva-doce), que registra toxicidade do anetol em crianças com hipertonia, choro contínuo, movimentos oculares atípicos, espasmos, cianose e inapetência
  3. Ize-Ludlow D, Ragone S, Bruck IS, Bernstein JN, Duchowny M, Peña BM. Neurotoxicities in infants seen with the consumption of star anise tea. Pediatrics. 2004 Nov;114(5):e653-6 (PMID 15492355) — os 7 lactentes de 2 a 12 semanas atendidos no Miami Children's Hospital com reações neurológicas após chá de anis-estrelado caseiro, a evidência de adulteração do anis-estrelado chinês com o japonês e a conclusão de que o chá não deve mais ser administrado a lactentes
  4. Donner J, Ruest S. Neonate with Seizures After Consuming Star Anise Tea. R I Med J (2013). 2021 Oct 1;104(8):8-10 (PMID 34582506) — relato mais recente de convulsão em recém-nascido após ingestão de chá de anis-estrelado

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026