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Guia da Saúde

Erva-doce para crianças: a idade mínima é 12 anos

A monografia brasileira da erva-doce começa a seção de advertências assim: “uso adulto e pediátrico acima de 12 anos. É a mesma planta que, no Brasil, se dá de colherinha para bebê com cólica. Não há dose pediátrica reduzida, não há faixa intermediária — abaixo dos 12 anos a Anvisa não recomenda, e a Organização Mundial da Saúde contraindica.

Por que 12 anos, e não uma dose menor

Muita planta do Formulário tem escala pediátrica: dose reduzida por faixa de peso ou de idade. A erva-doce não tem. O corte é seco, e o relatório de avaliação europeu dá três razões distintas, que se somam:

  1. Falta de estudo. “The use in children under 12 years of age has not been established due to lack of adequate data for safety assessment.” Não há ensaio em criança — a seção de estudos clínicos em populações especiais do relatório traz, literalmente, “No data available.”
  2. Estragol. O composto responde por 0,5% a 5% do óleo essencial do anis e é carcinogênico em camundongos. A agência conclui que o risco não é relevante para adultos e idosos na dose recomendada, porque a quantidade numa infusão é pequena — e completa: “the risk cannot be calculated with high doses or prolonged use or in children”.
  3. Metabolismo desconhecido. “No metabolic data for anethole in children is reported, posing toxicological concern.” Não se sabe como o organismo de uma criança processa o anetol.

Note o que essas três razões têm em comum: nenhuma delas é “faz mal”. Todas são “não se sabe”. Em um público que não pode relatar sintoma, isso basta.

O caso do bebê de 12 dias

O relatório de avaliação europeu registra um relato que resume o problema melhor que qualquer advertência genérica. Um lactente de 12 dias de vida recebeu, sem intenção de dose, várias administrações de óleo de anis não diluído como tratamento para cólica. Chegou ao pronto-socorro pediátrico com convulsão tônico-clônica generalizada.

Hemograma, eletrólitos, análise e cultura do líquor, hemoculturas, tomografia de crânio e eletroencefalograma vieram todos normais. Não houve nova crise após a internação, e o bebê se recuperou sem sequelas relatadas.

Duas leituras honestas desse caso: era óleo essencial, não infusão de fruto, e a exposição foi muito maior do que a de um chá — o mesmo documento registra que a ingestão de 1 a 5 mL de óleo de anis foi associada a náusea, vômito, convulsões e edema pulmonar. Mas a indicação que levou ao uso é exatamente a brasileira: cólica de bebê. O que de fato ajuda numa crise de cólica está em o que fazer para aliviar a cólica do bebê, e quanto tempo a fase costuma durar, em cólica do recém-nascido.

Os sinais que a OMS descreve — e o que a Anvisa deixou de fora

A frase brasileira sobre o anetol tem seis sinais: “hipertonia, choro contínuo, movimentos oculares atípicos, espasmos, cianose e inapetência”. A frase original da OMS, que a Anvisa cita como fonte, tem sete: “hypertonia, continued crying, atypical ocular movements, twitching, cyanosis, vomiting and lack of appetite”.

O vômito sumiu na travessia. Não é detalhe de tradutor: vômito é o sinal mais visível dos sete para quem está em casa com o bebê no colo, e é o único que uma mãe consegue notar sem treino. Quem for usar a lista para saber o que observar precisa da lista inteira.

Para separar esses sinais do que é comportamento normal de recém-nascido, valem sintomas de cólica em bebês e cólica ou refluxo.

A referência que não sustenta a frase

Um registro de auditoria de fonte, pelo mesmo motivo da página anterior: a afirmação da OMS sobre toxicidade do anetol em lactentes é creditada a duas referências. A primeira é um manual farmacêutico alemão de 1992. A segunda é Gorelick, 1995 — “Genotoxicity of trans-anethole in vitro”, publicado na Mutation Research.

Esse artigo é um estudo de bancada: teste de Ames com Salmonella, ensaio de linfoma de camundongo L5178Y e aberrações cromossômicas em células de ovário de hamster chinês. Não há paciente, não há lactente, não há descrição clínica em lugar nenhum dele. A referência não sustenta a frase que ela acompanha, e o Formulário brasileiro herdou a citação ao reproduzir a passagem.

Isso não muda a conduta em nada, e é importante dizer por quê: a idade mínima de 12 anos não se apoia nesse relato. Ela se apoia na ausência de estudo pediátrico, no estragol incalculável em crianças e no metabolismo desconhecido do anetol — três motivos que continuam de pé com ou sem aquela citação. O que muda é o peso que se pode dar ao relato: menor do que a redação sugere.

Nome parecido, planta diferente

Existe um dado pediátrico sólido nesse território, mas ele é de outra espécie. Em 2004, a revista Pediatrics publicou sete casos de reação neurológica adversa em lactentes que receberam chá de anis-estrelado preparado em casa, com evidência de contaminação do Illicium verum chinês pelo Illicium anisatum japonês, que é neurotóxico. A conclusão dos autores é explícita: chá de anis-estrelado não deve mais ser administrado a lactentes.

Illicium não é Pimpinella: são famílias botânicas diferentes. Mas as duas se vendem sob nomes quase iguais, na mesma prateleira, para a mesma finalidade — e acabam na mesma mamadeira. As três plantas que dividem o nome estão separadas em erva-doce, e a lista completa de quem não deve usar, em quem não pode tomar erva-doce.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e quando o público é um bebê, a ausência de dose documentada já é a resposta.

Perguntas frequentes

Sempre deram chá de erva-doce para bebê. Isso quer dizer que é seguro?

Quer dizer que é comum, que é diferente. Uso disseminado não gera dado de segurança: o motivo declarado pela Anvisa e pela agência europeia para não autorizar abaixo dos 12 anos é justamente que os estudos não existem. E há relatos clínicos na direção contrária, incluindo o de um lactente de 12 dias que convulsionou depois de receber óleo de anis para cólica.

A partir de que idade a criança pode tomar chá de erva-doce?

Doze anos. É a idade escrita na advertência da monografia brasileira e a faixa da posologia europeia, que fala em adolescentes acima de 12 anos, adultos e idosos. Não existe dose pediátrica reduzida documentada para essa planta, ao contrário do que acontece com a camomila, por exemplo.

E se a criança já tomou?

Uma tomada isolada não é o cenário dos relatos de toxicidade, que envolvem óleo essencial ou uso repetido. Interrompa o uso e leve a informação ao pediatra, principalmente se apareceu qualquer sinal neurológico, vômito ou recusa alimentar. Diante de sintoma, o serviço de saúde é o lugar da avaliação, não a internet.

Chá de anis-estrelado é a mesma coisa?

Não, e essa troca é a mais perigosa da prateleira. O anis-estrelado é Illicium verum, de outra família, e a literatura pediátrica registra sete casos de reação neurológica em lactentes que receberam o chá em casa, ligados à contaminação com a espécie japonesa Illicium anisatum. Nome parecido, planta diferente, risco diferente.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT061, Pimpinella anisum L.: a advertência de uso adulto e pediátrico acima de 12 anos, a não recomendação em menores de 12 anos por ausência de dados e o relato de toxicidade do anetol em crianças com hipertonia, choro contínuo, movimentos oculares atípicos, espasmos, cianose e inapetência
  2. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Pimpinella anisum L., fructus (2013): a posologia restrita a adolescentes acima de 12 anos, adultos e idosos, e a seção 4.4, que declara não estabelecido o uso em menores de 12 anos por falta de dados adequados de segurança
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Pimpinella anisum L., fructus: o relato do lactente de 12 dias com convulsão tônico-clônica após doses de óleo de anis dadas para cólica, a contraindicação do óleo em menores de 18 anos, a ausência de dados metabólicos do anetol em crianças e a conclusão de que o risco genotóxico do estragol não pode ser calculado em crianças
  4. WHO monographs on selected medicinal plants, volume 3 (OMS, 2007) — monografia Fructus Anisi: a contraindicação em menores de 12 anos e a lista completa dos sinais clínicos descritos na toxicidade do anetol em lactentes
  5. Gorelick NJ (1995), Mutation Research — 'Genotoxicity of trans-anethole in vitro': o estudo de genotoxicidade citado pela OMS como referência do relato clínico em lactentes (PMID 7529885)
  6. Ize-Ludlow D et al. (2004), Pediatrics — sete casos de reação neurológica em lactentes após chá de anis-estrelado preparado em casa, com evidência de contaminação de Illicium verum por Illicium anisatum (PMID 15492355)

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026