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Guia da Saúde

Como fazer tintura: a proporção 1:5 ou 1:10 da norma

Tintura, na definição da Farmacopeia Brasileira reproduzida pelo Formulário de Fitoterápicos, é uma preparação alcoólica obtida com 1 parte de droga vegetal para 10 partes de solvente, ou 1 para 5. O procedimento das monografias é sempre o mesmo: frasco de vidro âmbar, 20 dias de maceração com agitação diária, e filtração em papel de filtro.

A definição, e o que ela fixa

O Formulário traz a definição inteira na sua seção 3.2, creditada à Farmacopeia Brasileira:

“É a preparação alcoólica ou hidroalcoólica resultante da extração de drogas vegetais ou da diluição dos respectivos extratos. São obtidas por extração a líquido usando 1 parte, em massa, de droga vegetal e 10 partes de solvente de extração, ou 1 parte, em massa, de droga vegetal e 5 partes de solvente de extração.”

Três coisas ficam decididas aí. A proporção é por massa de planta, não por volume de folha solta. A relação pode ser expressa em massa por massa ou massa por volume. E o documento admite uma variante: em vez de “1 parte de planta mais 10 de solvente”, pode-se usar solvente “quantidade suficiente para produzir 10 partes” de tintura — o que dá concentrações ligeiramente diferentes e é a razão de duas receitas com o mesmo rótulo 1:10 não serem idênticas.

Um detalhe de bibliografia, para quem for conferir na fonte: essa definição de tintura é creditada pelo Formulário à 6ª edição da Farmacopeia Brasileira, enquanto as definições vizinhas na mesma lista alfabética — extrato fluido, extrato mole e extrato seco — foram atualizadas para a 8ª edição, que é a que está em vigor desde 1º de julho de 2026. A tintura ficou para trás na atualização das referências. Isso não altera a proporção, mas explica por que dois trechos do mesmo glossário citam edições diferentes do mesmo compêndio.

O documento também abre a porta: “Outras proporções de droga vegetal e solvente de extração podem ser utilizadas”. Por isso as fórmulas concretas das monografias costumam vir noutra escrita — por exemplo, 20 g de parte aérea e álcool etílico a 45% q.s.p. 100 mL, que é a fórmula de tintura de mil-folhas. Na prática das monografias, 20 g para 100 mL é o formato mais repetido.

O procedimento, escrito na monografia

A monografia de Achillea millefolium traz o passo a passo mais completo do documento, e ele se repete, com pequenas variações, nas demais tinturas:

  1. Secar e moer a droga vegetal — o Formulário fixa 45 °C em estufa de ar circulante por três dias quando a monografia não traz técnica própria de secagem.
  2. Colocar em frasco de vidro âmbar e adicionar o álcool etílico na proporção da fórmula.
  3. Tampar bem o frasco.
  4. Deixar em maceração por 20 dias, agitando diariamente.
  5. Filtrar em papel de filtro.

O âmbar não é estética: a definição de maceração exige “recipiente âmbar ou qualquer outro que elimina o contato com a luz”, e a embalagem da tintura pronta repete a exigência. O critério de material do recipiente, que também vale para o chá, está em que panela usar para ferver chá.

Tintura e alcoolatura não são a mesma coisa

Essa é a confusão mais comum, e o Formulário separa as duas com clareza. Alcoolatura é maceração a frio com planta fresca:

Planta fresca … 20 a 30 g

Álcool etílico a 80% (v/v) … 100 mL

Tintura parte de droga vegetal seca. Trocar uma pela outra muda a massa real de planta que entra no vidro, porque a folha fresca leva água junto — o mesmo problema que aparece ao medir erva para chá, detalhado em quantos gramas de erva por xícara.

A alcoolatura segue o mesmo relógio da tintura: as monografias que a descrevem mandam colocar a planta fresca picada no frasco âmbar, adicionar o líquido extrator, tampar bem e deixar em maceração por 20 dias, agitando o frasco diariamente.

Os teores alcoólicos, e por que variam

O teor do álcool não é preferência de quem prepara: ele define o que vai ser extraído. A distribuição nas fórmulas do Formulário:

Teor de álcool etílicoQuantas fórmulas o usam
70%17
25%11
45%9
60%4
80%5
40%2
30%2

O documento esclarece a unidade: “O teor etílico mencionado neste documento se refere a ºGL ou % (v/v)”. E adverte, 29 vezes ao longo das monografias, que “em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes” — ou seja, tintura fraca em álcool não se conserva sozinha.

As tinturas de espécies já publicadas aqui trazem a fórmula exata de cada uma: tintura de alcachofra e tintura de gengibre.

A advertência que vale para toda tintura

Está na seção de dispensação do Formulário, fora das monografias, e vale para todas elas:

“Não é recomendada a administração de tinturas e extratos fluidos a menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos, em função do teor etílico na formulação. Pelo mesmo motivo, recomenda-se evitar operar equipamentos e máquinas ou dirigir, após a ingestão do fitoterápico nessa forma farmacêutica.”

Isso reposiciona a tintura. Uma planta cujo chá é liberado a partir dos 12 anos pode ter a tintura vedada até os 18 — não pela planta, pelo álcool. E o modo de usar típico das monografias confirma que a forma é concentrada: tomam-se 2 a 4 mL diluídos em meio copo de água, três a quatro vezes ao dia, e não uma xícara. A conta de doses diárias de chá, que é outra, está em quantas xícaras de chá por dia.

Onde essas fórmulas foram feitas para ser preparadas

Este é o ponto que a maior parte dos tutoriais omite. As fórmulas de tintura do Formulário são preparações oficinais: na definição do próprio documento, “aquela preparada na farmácia habilitada, cuja fórmula esteja inscrita no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira”.

Não são receita doméstica. Entre o vidro na despensa e a preparação oficinal há identificação botânica conferida, droga vegetal com controle de qualidade, álcool de grau farmacêutico e Boas Práticas de Manipulação. A cartilha da Anvisa lista as precauções mínimas de quem insiste em preparar em casa, e a primeira delas é justamente certificar-se de que a planta é a correta — plantas diferentes carregam o mesmo nome popular.

Tintura não é chá com álcool: é uma forma farmacêutica concentrada, com advertência própria. Quem usa medicamento de uso contínuo, está grávida ou amamentando, ou pretende dar a uma criança, deve tratar disso com um profissional de saúde antes, e não depois. E qualquer reação após o uso é motivo para suspender e procurar atendimento.

Perguntas frequentes

Tintura caseira é fitoterápico?

Não. Fitoterápico é medicamento, com registro e controle de qualidade. As fórmulas de tintura do Formulário são preparações oficinais, feitas por farmácia habilitada a partir de fórmula inscrita no documento. O vidro que se prepara em casa não passa por controle de teor, de contaminação microbiológica nem de identidade botânica.

Qual álcool usar?

O documento especifica o teor em cada fórmula, e o mais frequente é o álcool etílico a 70%. Aparecem ainda 25%, 30%, 40%, 45%, 60% e 80%, conforme a espécie e o que se quer extrair. O Formulário registra que o teor citado se refere a graus GL, ou por cento em volume.

Por que algumas fórmulas exigem conservante?

Porque abaixo de certo teor o álcool deixa de garantir a conservação sozinho. A expressão em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes aparece 29 vezes no Formulário, sempre ligada às tinturas mais diluídas.

Tintura tem prazo de validade?

O Formulário define prazo de validade como o tempo durante o qual o produto pode ser usado, e delega a definição desse prazo a quem manipula, com base nas Boas Práticas de Manipulação e na estabilidade da formulação. Não há um número único no documento que sirva para toda tintura.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a definição de tintura, com as proporções de 1 parte de droga vegetal para 10 ou para 5 partes de solvente, a definição de alcoolatura com planta fresca e álcool a 80%, o procedimento de maceração por 20 dias em frasco de vidro âmbar com agitação diária e filtração em papel de filtro, a advertência de dispensação que desaconselha tinturas e extratos fluidos a menores de 18 anos, alcoolistas e diabéticos, e o crédito da definição de tintura à 6ª edição da Farmacopeia enquanto as definições vizinhas de extrato fluido, mole e seco são creditadas à 8ª
  2. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição (Anvisa), aprovada pela RDC nº 1.026 de 2026 e vigente desde 1º de julho de 2026: a edição em vigor do compêndio oficial de que o Formulário de Fitoterápicos é parte, e a referência atual para os métodos gerais de preparações vegetais
  3. Cartilha de orientações sobre o uso de fitoterápicos e plantas medicinais (Anvisa): a separação entre planta medicinal, chá alimentício e fitoterápico regularizado, e as precauções exigidas de quem prepara o próprio produto, incluindo identificação botânica correta e conhecimento da forma de preparação

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026