Equinácea para gripe: as 3 monografias dizem resfriado
Nenhuma das três monografias de equinácea do Formulário de Fitoterápicos escreve a palavra gripe. As três dizem resfriado comum — que é outra doença, com outro vírus e outra gravidade. E, sobre o resfriado, existe uma divergência aberta entre duas leituras da mesma literatura: a revisão Cochrane não encontrou benefício no tratamento; a agência europeia concedeu uso bem estabelecido a uma preparação específica.
O que a revisão Cochrane de 2014 mediu
É a maior síntese disponível sobre o assunto, e vale ler os números sem intermediário. Foram incluídos 24 ensaios duplo-cegos, com 4.631 participantes e 33 comparações entre preparações de equinácea e placebo. Dez ensaios foram julgados de baixo risco de viés, seis de risco incerto e oito de alto risco.
Os revisores tomaram uma decisão metodológica que diz muito: “due to the strong clinical heterogeneity of the studies we refrained from pooling for the main analysis” — não agregaram os resultados na análise principal porque os estudos eram clinicamente heterogêneos demais. Ou seja, os produtos testados eram diferentes entre si.
| Frente | Resultado |
|---|---|
| Prevenção — comparações que contaram quem teve ao menos um resfriado | Nenhuma das 12 foi estatisticamente significativa |
| Prevenção — agrupamento feito depois (post hoc) | Sugere redução de risco de 10% a 20% |
| Tratamento — ensaios com dado de duração do resfriado | 1 de 7 mostrou efeito |
| Segurança | Abandono por evento adverso sem diferença significativa |
A conclusão dos autores é escrita com cuidado e sem rodeio: “Echinacea products have not here been shown to provide benefits for treating colds”, com a ressalva de que pode existir um benefício fraco em alguns produtos na profilaxia, de relevância clínica questionável.
Uma nota de transparência que a própria revisão publica: quatro dos seis autores participaram de estudos incluídos na revisão, e por isso não fizeram a extração de dados nem a avaliação de qualidade dos trabalhos em que estiveram envolvidos.
A agência europeia chegou a outra conclusão — sobre outra preparação
Aqui está o ponto que explica por que as duas leituras coexistem. A EMA não avaliou “equinácea”: ela avaliou preparações específicas, uma por uma. E concedeu status de uso bem estabelecido, que é a categoria que exige dados clínicos, a uma única delas — o suco espremido da parte aérea fresca de E. purpurea, por via oral.
Os avaliadores citam, entre os trabalhos que sustentam isso:
- o ensaio de Hoheisel (1997), em que 24 pacientes do grupo equinácea tiveram um resfriado “verdadeiro”, contra 36 do placebo;
- a metanálise de Shah (2007), que estimou redução de 58% na chance de desenvolver resfriado comum e de 1,25 dia na duração do quadro.
Não há como conciliar isso com a Cochrane apenas escolhendo um lado. O que separa as duas leituras é o recorte: a EMA olhou para um produto, a Cochrane olhou para a categoria inteira — e o próprio resumo da Cochrane avisa que “most consumers and physicians are not aware that products available under the term Echinacea differ appreciably in their composition”.
O NIH, que precisa resumir isso para o público, ficou no meio: tomar equinácea pode reduzir levemente a chance de pegar um resfriado, e segue incerto se encurta o que já começou.
A preparação que ganhou o status não é vendida aqui
Este é o detalhe prático que fecha o raciocínio. O suco espremido da parte aérea fresca — a única preparação de equinácea com uso bem estabelecido na Europa — não está no Formulário de Fitoterápicos brasileiro. A FT025, que é a monografia dessa mesma parte da planta, traz apenas a pomada.
As três preparações orais disponíveis no Brasil (chá e cápsula de raiz de angustifólia, tintura e cápsulas de raiz de purpúrea) estão todas na categoria de uso tradicional, com a coluna de uso bem estabelecido vazia nas monografias europeias correspondentes. O mapa completo está em equinácea e as diferenças de preparo em chá de equinácea.
Traduzindo: os estudos favoráveis mais citados foram feitos com um produto que não é o que está na prateleira brasileira.
Resfriado e gripe não são a mesma consulta
Febre alta, dor no corpo, prostração intensa e início súbito descrevem gripe, não resfriado — a diferença clínica está em gripe e resfriado e a lista de sinais em sintomas de gripe. Nenhuma monografia de equinácea cobre esse quadro.
Procure serviço de saúde se houver febre acima de 39 °C ou que dure mais de três dias, falta de ar, dor no peito, confusão, lábios ou unhas arroxeados, piora depois de uma melhora inicial, ou se o quadro atinge bebê, gestante, idoso ou pessoa com doença crônica. A FT024 fixa três dias como prazo de reavaliação, e a FT026 fixa dez — os dois prazos e o teto de oito semanas estão em por quanto tempo tomar equinácea.
As demais plantas com indicação registrada para quadro gripal estão reunidas em remédio natural para gripe, e a comparação direta com a outra planta da mesma prateleira em equinácea ou sabugueiro.
Perguntas frequentes
Equinácea substitui a vacina da gripe?
Não, e nenhum documento consultado sugere isso. Prevenção de influenza não aparece como indicação em nenhuma das monografias brasileiras ou europeias da planta, e os estudos citados mediram resfriado comum, não gripe. Vacina e antiviral são outra categoria de intervenção, com outro tipo de evidência.
Tomar equinácea o inverno inteiro protege?
A única preparação com dados de prevenção é limitada a dez dias de uso, inclusive quando o objetivo é prevenir. Não existe esquema sazonal descrito em documento oficial, e o teto de uso contínuo das formas orais brasileiras é de oito semanas, com recomendação de tratamentos descontínuos.
Por que os produtos de equinácea dão resultados tão diferentes?
Os próprios autores da revisão Cochrane abrem o texto explicando: produtos vendidos sob o nome equinácea diferem consideravelmente em composição, por usarem material vegetal variável, métodos de extração distintos e adição de outros componentes. Comparar dois estudos de equinácea pode ser comparar dois produtos diferentes.
Equinácea ajuda quem já está com o nariz entupido há dias?
As duas monografias orais mandam começar aos primeiros sinais do quadro. Uma delas fixa reavaliação em três dias e a outra em dez dias sem melhora. Um quadro já instalado há vários dias está fora da janela em que as preparações foram descritas para agir.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — as seções INDICAÇÕES das monografias FT024, FT025 e FT026 de Echinacea: alívio de sintomas decorrentes do resfriado comum na FT024, tratamento local de pequenas lesões cutâneas superficiais na FT025, e prevenção e alívio de sintomas decorrentes do resfriado comum mais acne leve na FT026, nenhuma delas usando a palavra gripe ou influenza
- Karsch-Völk M, Barrett B, Kiefer D, Bauer R, Ardjomand-Woelkart K, Linde K. Echinacea for preventing and treating the common cold. Cochrane Database of Systematic Reviews 2014;2014(2):CD000530 (PMID 24554461) — a revisão de 24 ensaios duplo-cegos com 4.631 participantes e 33 comparações contra placebo, em que nenhuma das 12 comparações de prevenção que contaram pacientes com ao menos um resfriado foi significativa, apenas 1 dos 7 ensaios de tratamento com dados de duração mostrou efeito, e a conclusão dos autores de que os produtos de equinácea não demonstraram trazer benefício para tratar resfriados
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Echinacea purpurea (L.) Moench, herba recens (EMA/HMPC/557979/2013): a conclusão de que há boa evidência clínica de eficácia do suco espremido da parte aérea fresca no tratamento de infecção aguda de vias aéreas superiores em adultos e adolescentes, sustentada nos ensaios de Hoheisel (1997) e Schulten (2001); os números do estudo de Hoheisel, com 24 resfriados verdadeiros no grupo da equinácea contra 36 no placebo; a metanálise de Shah (2007), que estimou redução de 58% na chance de desenvolver resfriado comum e de 1,25 dia na duração; e a limitação da duração de uso a 10 dias
- National Center for Complementary and Integrative Health (NIH) — página sobre equinácea: a avaliação de que tomar equinácea pode reduzir levemente a chance de pegar um resfriado, mas que permanece incerto se ela encurta a duração de um resfriado já instalado
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026