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Guia da Saúde

Equinácea: 3 monografias e 3 indicações diferentes

A equinácea é a única planta do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa com três monografias separadas — FT024, FT025 e FT026. Não são versões da mesma coisa: são duas espécies e três partes da planta, com indicações que não se cobrem. Uma serve para resfriado, outra para acne leve, outra para ferida superficial. Comprar “equinácea” sem saber qual delas é comprar no escuro.

As três monografias, lado a lado

MonografiaEspécie e parteFormasIndicação registrada
FT024E. angustifolia, raizChá, tintura, extrato fluido, cápsulaAlívio dos sintomas do resfriado comum
FT025E. purpurea, planta inteiraPomada de sumoLesões cutâneas superficiais pequenas
FT026E. purpurea, raizTintura, duas cápsulasPrevenção e alívio do resfriado; acne leve

Repare no que cada linha exclui. A FT025 é só de uso externo — não existe chá nem cápsula de planta inteira de E. purpurea no documento brasileiro. A FT024 é a única com preparação extemporânea, isto é, a única que autoriza chá; o preparo está em chá de equinácea. E a acne leve aparece uma vez só, na FT026, e por via oral — não como pomada, o que é o assunto de equinácea para acne.

A preparação com melhor evidência na Europa não entrou no Brasil

Aqui está o achado que muda a leitura de todo o resto. A monografia europeia da parte aérea fresca de E. purpurea tem duas colunas: uso bem estabelecido e uso tradicional.

  • Na coluna de uso bem estabelecido está o suco espremido, por via oral, para “short-term prevention and treatment of common cold” — dose diária de 6 a 9 mL, no máximo 10 dias. Uso bem estabelecido é a categoria que exige ensaio clínico, e o relatório de avaliação cita nominalmente os estudos que a sustentam.
  • Na coluna de uso tradicional está a pomada, com 10 a 20 g de sumo por 100 g de base, para pequenas lesões superficiais.

A FT025 brasileira copiou exatamente a segunda coluna — a fórmula da pomada é a mesma, grama por grama — e não trouxe a primeira. O resultado é que a única preparação de equinácea com status de uso bem estabelecido na Europa não existe no Formulário brasileiro, enquanto as três fórmulas orais que existem aqui são todas de uso tradicional. Nenhuma tem, na Europa, a coluna de uso bem estabelecido preenchida.

O que “resfriado comum” exclui

As três monografias usam a mesma palavra, e ela é resfriado. Gripe não aparece em nenhuma delas — nem influenza, nem vírus respiratório em geral. A distinção clínica está em gripe e resfriado e o quadro em sintomas de resfriado; o que a revisão sistemática encontrou sobre o assunto está em equinácea para gripe.

Vale reparar também numa diferença entre as duas espécies: a FT026, da raiz de E. purpurea, é a única que escreve prevenção na indicação. A FT024, da angustifólia, fala só em alívio, e acrescenta que “a terapia deve começar aos primeiros sinais do resfriado comum”.

A advertência que se repete nas três

Se há uma frase que atravessa as três monografias, é a das condições em que a equinácea não é recomendada: doenças sistêmicas progressivas, doenças autoimunes, imunodeficiências, imunossupressão e doenças hematológicas da série branca — com tuberculose, colagenoses, esclerose múltipla e infecção por HIV citadas nominalmente. A lista completa, com as demais populações vetadas, está em quem não pode tomar equinácea.

Essa advertência tem uma lógica: o efeito que a planta reivindica é sobre o sistema de defesa, e é justamente por isso que ela é evitada em quem tem esse sistema desregulado ou farmacologicamente freado. O funcionamento por trás disso está em como funciona o sistema imunológico.

Onde a equinácea se encaixa entre as plantas de resfriado

O outro nome grande da prateleira é o sabugueiro, e as duas plantas costumam ser vendidas juntas — mas a família, a parte usada e o tempo máximo de uso são diferentes, e a comparação está em equinácea ou sabugueiro.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e no caso da equinácea tem também três documentos diferentes que precisam ser lidos separadamente. O índice das espécies publicadas fica em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Equinácea aumenta a imunidade?

Nenhuma das três monografias registra imunidade como indicação. O que está escrito é resfriado comum, acne leve e lesão cutânea superficial. O relatório europeu da raiz diz que existem dados sobre efeito no sistema imune de adultos, mas que os mecanismos e as substâncias responsáveis permanecem em grande parte desconhecidos.

Qual espécie de equinácea é a melhor?

A pergunta não tem resposta única porque as espécies não têm o mesmo uso registrado. A raiz de Echinacea angustifolia é a que tem chá. A raiz de Echinacea purpurea é a que tem acne leve. A parte aérea fresca de Echinacea purpurea é a que vira pomada. Escolher pela espécie sem olhar a parte da planta leva à preparação errada.

A Echinacea pallida tem monografia no Brasil?

Não. O Formulário de Fitoterápicos traz três monografias do gênero e nenhuma delas é da Echinacea pallida, embora o NIH liste essa terceira espécie entre as usadas comercialmente. Sem monografia, não há fórmula, dose nem indicação padronizada para ela no documento brasileiro.

Existe fitoterápico industrializado de equinácea no Brasil?

O Formulário de Fitoterápicos padroniza preparações manipuladas em farmácia, o que é diferente de registro de medicamento industrializado. Cápsula, goma e xarope vendidos como suplemento não seguem essas fórmulas e não estão sujeitos à avaliação de indicação terapêutica descrita nas monografias.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — as três monografias do gênero Echinacea: FT024 (Echinacea angustifolia DC., raiz) com quatro fórmulas orais e indicação de alívio dos sintomas do resfriado comum; FT025 (Echinacea purpurea, planta inteira) com uma única fórmula, pomada de sumo, para lesões cutâneas superficiais; e FT026 (Echinacea purpurea, raiz) com tintura e duas cápsulas, indicadas para prevenção e alívio do resfriado comum e para acne leve
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Echinacea purpurea (L.) Moench, herba recens (EMA/HMPC/48704/2014 Corr): a coluna de uso bem estabelecido para o suco espremido por via oral na prevenção e no tratamento de curto prazo do resfriado comum, com dose diária de 6 a 9 mL e limite de 10 dias, ao lado da coluna de uso tradicional para a pomada em pequenas lesões cutâneas superficiais
  3. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Echinacea purpurea (L.) Moench, radix (EMA/HMPC/424583/2016, revisão 1): as duas indicações por uso tradicional da raiz, alívio dos sintomas do resfriado comum com extrato seco etanólico e alívio de manchas e espinhas da acne leve com extrato seco aquoso, ambas com a coluna de uso bem estabelecido vazia
  4. European Medicines Agency (HMPC) — Community herbal monograph on Echinacea angustifolia DC., radix (EMA/HMPC/688216/2008): a indicação por uso tradicional para tratamento de suporte do resfriado comum, o chá de 1 g de raiz rasurada em 150 mL e a tintura 1:5 em etanol 45%, com uso não recomendado abaixo dos 12 anos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026