Pular para o conteúdo
Guia da Saúde

Por que sentimos fome: grelina, leptina e o hipotálamo

Sentimos fome porque dois grupos de neurônios antagonistas dentro do hipotálamo leem, o tempo todo, hormônios vindos do estômago e da gordura corporal. Quando a grelina sobe, um grupo se acelera; quando a leptina sobe, o outro assume. A fome não é um alarme do estômago — é o resultado dessa disputa, decidida no cérebro.

Onde a decisão é tomada

No núcleo arqueado do hipotálamo, que fica adjacente à eminência mediana — posição privilegiada, porque é ali que o cérebro tem acesso mais direto ao que circula no sangue. As duas áreas descritas como capazes de detectar diretamente os sinais neurais e hormonais da periferia são o hipotálamo e o tronco encefálico.

Dentro do núcleo arqueado existem duas populações antagonistas de neurônios:

  • os que expressam o peptídeo relacionado ao agouti (AgRP), que aumentam a atividade em resposta a hormônios orexigênicos — os que abrem o apetite — e são inibidos pelos anorexigênicos;
  • os que expressam a pró-opiomelanocortina (POMC), que fazem exatamente o inverso: aumentam a atividade com os anorexigênicos e são inibidos pelos orexigênicos.

Dois grupos vizinhos, com respostas espelhadas ao mesmo sinal químico. É esse arranjo — e não um sensor único — que produz a sensação.

Os hormônios que chegam com a informação

Grelina, do estômago. Células do estômago liberam a grelina, um hormônio orexigênico. E a regra de leitura é explícita: níveis elevados de grelina indicam ausência de alimento e fazem sentir fome. É o estômago informando o cérebro de que está vazio, por via química.

Leptina, da gordura. A leptina é liberada pelos adipócitos do tecido adiposo branco em proporção ao tamanho deles — quanto maior a massa de gordura, mais leptina é liberada, com efeito de reduzir a fome. Repare na diferença de escala de tempo: a grelina informa sobre a última refeição; a leptina informa sobre a reserva acumulada. Um é o extrato do dia, o outro é o saldo. Os dois entram no conjunto descrito em hormônios do corpo humano.

Sinais mecânicos e intestinais. Nem tudo é hormônio de longo alcance. Fibras sensitivas do nervo vago em torno do estômago aumentam a atividade quanto mais o estômago é distendido — a saciedade tem um componente puramente mecânico. E células do intestino liberam colecistocinina (CCK) e peptídeo YY (PYY), sinais rápidos que chegam antes de qualquer nutriente ser absorvido.

O relógio da fome: a “contração de fome”

Este é o dado que esta página traz e que costuma faltar nas explicações de grelina e leptina: a fome também tem um relógio motor.

A motilina é liberada periodicamente e aumenta durante o período de jejum. Ela atua sobre o movimento do trato gastrointestinal regulando o complexo motor migratório — e o nome que a literatura dá a esse movimento é, literalmente, contração de fome. Recentemente a motilina passou a ser considerada um hormônio orexigênico primário, por modular o neurocircuito no cérebro.

É por isso que a fome vem em ondas, e não como uma rampa contínua: existe um evento periódico comandando o intestino, o mesmo que faz a barriga roncar. A sensação sobe, passa, e volta no ciclo seguinte.

Um detalhe de parentesco fecha o quadro e evita uma confusão comum: a motilina tem homologia com a grelina e com o receptor dela — mas a grelina não se liga ao receptor de motilina. São moléculas primas, com endereços distintos. Dois hormônios diferentes, contando ao cérebro a mesma história por caminhos separados.

Perguntas frequentes

A fome nasce no estômago ou na cabeça?

A sensação é montada no cérebro, com informação vinda do corpo. As duas áreas descritas como detectoras diretas dos sinais neurais e hormonais da periferia são o hipotálamo e o tronco encefálico — o estômago envia, o cérebro decide.

Por que ficar sem comer por muitas horas dá fome em ondas, e não contínua?

A motilina é liberada periodicamente e aumenta durante o jejum, regulando um movimento intestinal que a literatura chama literalmente de contração de fome. Um sinal que reaparece em ciclos produz uma sensação que também reaparece em ciclos.

Quanto mais gordura corporal, menos fome?

É o que a lógica do hormônio prevê: a leptina é liberada pelos adipócitos em proporção ao tamanho deles, e quanto maior a massa de gordura, mais leptina circula, com efeito de reduzir a fome. Na prática, essa relação simples pode se romper, e o estudo dessa quebra é um campo de pesquisa próprio.

O que faz parar de comer antes mesmo de a comida ser digerida?

Sinais mecânicos e químicos rápidos. Fibras sensitivas do nervo vago em torno do estômago aumentam a atividade quanto mais o estômago é distendido, e células do intestino liberam colecistocinina e peptídeo YY. Nada disso espera pela absorção dos nutrientes.

Grelina e motilina são o mesmo hormônio?

Não, embora sejam parentes. A motilina tem homologia com a grelina e com o receptor dela, mas a grelina não se liga ao receptor de motilina. São duas moléculas da mesma família, com receptores distintos.

Fontes

  1. OpenStax, Introduction to Behavioral Neuroscience — 16.4 Neural Control of Feeding Behavior: as duas áreas que parecem detectar diretamente os sinais neurais e hormonais da periferia são o hipotálamo e o tronco encefálico; no núcleo arqueado do hipotálamo, adjacente à eminência mediana, existem duas populações antagonistas de neurônios, os que expressam o peptídeo relacionado ao agouti (AgRP) e os que expressam a pró-opiomelanocortina (POMC); os neurônios AgRP aumentam a atividade em resposta a hormônios orexigênicos como a grelina e são inibidos pelos anorexigênicos, enquanto os POMC fazem o inverso; células do estômago liberam o hormônio orexigênico grelina, e níveis elevados de grelina indicam ausência de alimento e fazem o animal sentir fome; a leptina é liberada pelos adipócitos do tecido adiposo branco em proporção ao seu tamanho, e quanto maior a massa de gordura, mais leptina é liberada, o que faz o animal sentir menos fome; fibras sensitivas do nervo vago em torno do estômago aumentam a atividade quanto mais o estômago é distendido; e células do intestino liberam colecistocinina (CCK) e peptídeo YY (PYY)
  2. StatPearls (NCBI Bookshelf), Physiology, Motilin: a motilina é liberada periodicamente e aumenta durante o período de jejum; ela atua sobre o movimento do trato gastrointestinal regulando o complexo motor migratório, movimento chamado de contração de fome; a motilina é considerada recentemente um hormônio orexigênico primário, por modular o neurocircuito no cérebro; e a motilina tem homologia com a grelina e com o receptor dela, embora a grelina não se ligue ao receptor de motilina

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026