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Guia da Saúde

Quebra-pedra: efeitos colaterais registrados

A monografia FT060 descreve três efeitos adversos para o quebra-pedra: diarreia, hipotensão arterial e diurese pronunciada. Os três aparecem na mesma frase e compartilham uma condição que muda tudo — eles estão descritos para “concentrações acima das recomendadas”. Não são reações esperadas da dose registrada: são o que acontece quando se passa dela.

Os três efeitos, com a condição que os acompanha

“Concentrações acima das recomendadas podem causar diarreia, hipotensão arterial e diurese pronunciada.”

EfeitoComo ler
Diarreiaefeito gastrintestinal direto do excesso de material vegetal
Hipotensão arterialqueda de pressão — o item que torna a planta assunto de quem toma anti-hipertensivo
Diurese pronunciadaurinar muito além do habitual, com o desconforto e a perda de volume que isso traz

Repare que o terceiro efeito é o exagero da própria indicação. A planta é registrada para auxiliar no aumento do fluxo urinário; empurrar a dose transforma o efeito pretendido em evento adverso. É a demonstração mais limpa de por que aumentar a colher de erva não melhora nada, e a monografia fecha o ponto com uma ordem seca: “não utilizar em doses acima das recomendadas”. As proporções válidas estão em chá de quebra-pedra.

O efeito que não apareceu quando alguém foi medir

Aqui está o dado que quase nenhum site publica. Em 2018, uma equipe do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP acompanhou 56 pacientes com cálculos menores de 10 mm que tomaram infusão de Phyllanthus niruri por 12 semanas, com avaliação antes, durante e nas 12 semanas seguintes de suspensão.

O que não mudou, em nenhum dos períodos:

  • hemograma, creatinina, ácido úrico, sódio, potássio e cálcio no sangue;
  • pH urinário;
  • volume urinário.

O que mudou, todos em exame de urina de 24 horas:

  • potássio urinário: de 50,5 para 56,2 mg;
  • razão magnésio/creatinina: de 58 para 69,1 mg/g de creatinina;
  • razão potássio/creatinina: de 39,3 para 51,3 mg/g de creatinina;
  • nos pacientes com hiperoxalúria, o oxalato urinário caiu de 59,0 para 28,8 mg/24 h;
  • nos pacientes com hiperuricosúria, o ácido úrico urinário caiu de 0,77 para 0,54 mg/24 h.

A leitura honesta é dupla, e as duas metades importam. Do lado da segurança, é um resultado tranquilizador: doze semanas de chá sem mexer em creatinina, eletrólitos séricos nem hemograma. Do lado do efeito, é um resultado desconcertante — o volume urinário não aumentou. Ou seja, o desfecho que a indicação brasileira nomeia, “aumento do fluxo urinário”, é justamente o que não se moveu no estudo brasileiro que o mediu. Registrar isso não afrouxa nenhuma advertência: a hipotensão e a diurese pronunciada continuam descritas para concentração acima da recomendada, e continuam sendo motivo para não passar da dose.

As três semanas e o argumento químico

O limite de tempo é o item mais rígido da monografia: não usar por mais de três semanas, com pausa de uma semana a cada ciclo em tratamento prolongado. O prazo é creditado a sete referências diferentes do documento — é um consenso da literatura que o Formulário reúne.

A justificativa química desse prazo, porém, vem de uma única fonte, e é esta: “devido à presença de alcaloides pirrolizidínicos”. Vale registrar o que está publicado sobre a química da espécie, porque não é exatamente isso. Os alcaloides efetivamente isolados de Phyllanthus niruri e descritos em periódico são da família Securinega — é o caso da epibubbialina, isolada da espécie e com estrutura resolvida por difração de raios X em 2012. A revisão de referência sobre esse grupo descreve um esqueleto tetracíclico com anel butenolídico e sistema azabiciclo[3.2.1]octano, biossintetizado a partir de lisina e tirosina, e distribuído em gêneros da família Phyllanthaceae. É outra química, com outra rota, que o Formulário não chama pelo nome.

Isso não encurta nem alonga o prazo. O limite de três semanas é o que está na monografia vigente, tem sete referências por trás dele e é a regra a seguir — o argumento químico é apenas um dos apoios, e é o que merece ressalva.

O que dizem os estudos que mediram segurança

A revisão sistemática mais recente sobre a espécie, publicada em 2025 em Actas Urológicas Españolas, reuniu 16 estudos de 1994 a 2022 e concluiu que a evidência sustenta de forma consistente a segurança de longo prazo da planta, confirmada por medidas seriadas de eletrólitos séricos e de função hepática.

Duas ressalvas antes de usar essa frase como salvo-conduto. A primeira: a maior parte desses estudos usou extrato padronizado, em cápsula, e não chá preparado em casa — quantidade de extrato e quantidade de erva não são a mesma medida. A segunda: revisão de literatura não revoga documento sanitário. O que vale para quem prepara o chá continua sendo a monografia, com o teto de três semanas e a lista de quem não pode, em quem não pode tomar quebra-pedra.

Quando parar

A instrução da monografia para qualquer reação é uma só e não admite interpretação: “em caso de aparecimento de eventos adversos, suspender o uso do produto e consultar um médico”. E há a outra frase, a que decide o rumo quando nada acontece: “ao persistirem os sintomas, um médico deverá ser consultado”.

A hipotensão merece um parágrafo próprio, porque é a que mais provavelmente encontra um remédio pela frente: quem usa anti-hipertensivo, diurético ou medicamento para diabetes tem uma recomendação específica escrita na monografia, detalhada em quebra-pedra e remédios.

Perguntas frequentes

Tontura ao levantar depois de começar o chá é da planta?

Pode ser. Hipotensão arterial é um dos três efeitos que a monografia associa a concentração acima da recomendada, e ela costuma se manifestar assim, ao mudar de posição. A instrução do documento para qualquer evento adverso é a mesma: suspender o uso e consultar um médico — e, se houver anti-hipertensivo em uso, a conversa é com quem prescreveu.

Beber mais água ajuda ou piora?

Hidratação é assunto de quem acompanha o caso, não desta página, e a monografia não trata do tema. O que ela trata é o oposto: aumentar a quantidade de erva para reforçar o efeito, o que está expressamente proibido pela instrução de não utilizar em doses acima das recomendadas.

O chá pode manchar o exame de sangue?

O estudo brasileiro com 56 pacientes mediu hemograma, creatinina, ácido úrico, sódio, potássio e cálcio no sangue antes, durante e depois de 12 semanas de infusão e não encontrou alteração significativa em nenhum deles. O que mudou foi na urina, não no soro — o que é uma informação útil para quem faz exames de rotina.

Por que a monografia limita a três semanas se dizem que a planta é segura?

São duas afirmações de tipos diferentes. O limite de três semanas está escrito na monografia brasileira e é a regra a seguir. A revisão sistemática de 2025 conclui que a evidência sustenta a segurança de longo prazo, mas revisão de literatura não revoga documento sanitário vigente — e a maior parte dos estudos revisados usou extrato padronizado, não chá caseiro.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT060, Phyllanthus niruri L.: a advertência de que concentrações acima das recomendadas podem causar diarreia, hipotensão arterial e diurese pronunciada, a instrução de não utilizar em doses acima das recomendadas, o limite de três semanas de uso justificado pela presença de alcaloides pirrolizidínicos, a interrupção por uma semana a cada três semanas em tratamentos prolongados e a orientação de suspender o uso e consultar um médico diante de eventos adversos
  2. Pucci ND et al. (2018), International Braz J Urol 44(4):758-764 — efeito do Phyllanthus niruri sobre parâmetros metabólicos de pacientes com cálculo urinário: 56 pacientes com cálculos menores de 10 mm, 12 semanas de infusão seguidas de 12 semanas de suspensão, ausência de alteração de hemograma, creatinina, ácido úrico, sódio, potássio, cálcio, volume urinário e pH, aumento do potássio urinário de 50,5 para 56,2 mg/24 h e das razões magnésio/creatinina e potássio/creatinina, e queda do oxalato urinário nos pacientes com hiperoxalúria
  3. Iregui-Parra J et al. (2025), Actas Urológicas Españolas 49(6):501791 — revisão sistemática do Phyllanthus niruri no manejo da nefrolitíase: os 16 estudos selecionados entre 1994 e 2022 e a conclusão de que a evidência sustenta de forma consistente a segurança de longo prazo da planta, confirmada por medidas seriadas de eletrólitos séricos e de função hepática
  4. Zhou M et al. (2012), Natural Product Research 26(8):762-764 — isolamento e estrutura cristalina por raios X de um alcaloide do tipo Securinega, a epibubbialina, obtido de Phyllanthus niruri Linn.: a evidência publicada de qual classe de alcaloide a espécie de fato contém
  5. Chirkin E, Atkatlian W, Porée FH (2015), The Alkaloids: Chemistry and Biology 74:1-120 — revisão sobre os alcaloides Securinega: o esqueleto tetracíclico com anel butenolídico e sistema azabiciclo[3.2.1]octano que define a família, a biossíntese a partir de lisina e tirosina e a distribuição botânica restrita a gêneros da família Phyllanthaceae

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026