Pular para o conteúdo
Guia da Saúde

Quebra-pedra na gravidez: o que a Anvisa diz

O quebra-pedra é contraindicado na gestação e na amamentação. A monografia FT060 dá o motivo em uma frase, e o motivo importa: “devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações”. Não é uma proibição por dano demonstrado — é uma proibição por ausência de estudo. E, desde 2020, existe um estudo que preenche parte dessa lacuna.

A frase da monografia, e o que ela não diz

“O uso é contraindicado durante a gestação, lactação e para menores de 18 anos, devido à falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações.”

Repare que a mesma cláusula cobre três grupos com uma única justificativa. Não há, no texto, menção a efeito abortivo, a contração uterina, a malformação ou a passagem para o leite materno. Esse tipo de precisão importa porque circula muito conteúdo atribuindo à planta um risco específico que o documento não afirma.

Há uma segunda camada, e essa é específica de uma das formas: a tintura é “especialmente contraindicada para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, em função do teor alcoólico na formulação”. A aritmética do álcool dessa preparação está em tintura de quebra-pedra.

O estudo que testou exatamente o que faltava

Em 2020, um grupo das universidades federais de Mato Grosso e da Unesp de Botucatu publicou no Journal of Ethnopharmacology o desenho que o Formulário diz não existir: ratas prenhes tratadas com extrato aquoso de Phyllanthus niruri por gavagem, do dia 0 ao dia 21 de gestação, em três doses — 150, 300 e 600 mg/kg — mais um grupo controle com veículo. No dia 21 foram avaliados desempenho reprodutivo, perfil bioquímico, tecido renal materno, fetos e placentas.

Os resultados, na ordem em que os autores os apresentam:

DesfechoO que o estudo encontrou
Desempenho reprodutivosem alteração
Efeito teratogênicoausente
Rim maternoalteração de peso e de morfologia no grupo de 600 mg/kg
Peso fetalmacrossomia — fetos mais pesados que o esperado
Esqueleto fetalaumento dos sítios de ossificação

A conclusão publicada não é ambígua: o tratamento não causou toxicidade reprodutiva, mas levou a alterações nos rins maternos e no peso da prole, mostrando que o extrato pode produzir efeitos prejudiciais durante a gestação.

Como ler esse resultado sem torcê-lo

É tentador usar a ausência de teratogenicidade como sinal verde. Seria um erro de leitura, por três razões que o próprio estudo deixa claras.

Primeira: o órgão que apareceu alterado é justamente o rim — o mesmo sistema sobre o qual a planta age, segundo a indicação registrada. É o achado que menos se pode ignorar numa espécie usada para “fazer urinar mais”.

Segunda: macrossomia fetal não é um bônus. Feto grande demais é um desfecho obstétrico vigiado, não uma boa notícia sobre nutrição.

Terceira, e a mais importante: isso é rato, com dose por quilo, por gavagem, em extrato aquoso padronizado. Não é gestante tomando chá. Um experimento animal com sinal de alerta em rim materno e em peso fetal reforça a contraindicação humana — não a substitui e muito menos a derruba.

O que mudou com o estudo, então? Mudou a frase que se pode dizer com honestidade. Antes: “é proibido porque ninguém estudou”. Agora: “é proibido porque ninguém estudou em pessoas, e o único experimento controlado que existe encontrou efeito no rim da mãe e no peso da prole”. As duas sustentam a mesma conduta, e a segunda a sustenta melhor.

Por que tanta gente procura isso na gravidez

A busca não vem do nada. Queixa urinária é comum na gestação, e é uma das que menos admitem espera: o NIDDK registra que infecção de bexiga é tratada, na maior parte das vezes, com antibiótico, e que sem tratamento pode evoluir para infecção nos rins. Chá nenhum ocupa esse lugar — o que o quebra-pedra tem registrado, e o que ele não tem, está em quebra-pedra para infecção urinária.

Ardor ao urinar, urina turva, dor lombar ou febre no pré-natal são motivo de contato com a equipe no mesmo dia. Como o sistema funciona e por onde a infecção sobe está em como funciona o sistema urinário.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e aqui a contraindicação é explícita, vale para as duas fases e não depende de o chá “ser natural”. A lista completa de quem não pode está em quem não pode tomar quebra-pedra.

Perguntas frequentes

Tomei antes de descobrir que estava grávida. E agora?

Não há relato de dano por exposição pontual nos documentos consultados, e o estudo experimental disponível não encontrou efeito teratogênico. Isso não é liberação nem motivo para continuar: a conduta é interromper o uso e contar à equipe do pré-natal o que foi tomado, em que quantidade e por quantos dias, para que a decisão fique com quem acompanha a gestação.

E na amamentação, pode?

Não. A lactação está na mesma frase de contraindicação da gestação, pelo mesmo motivo declarado: falta de dados adequados de segurança. Não há informação publicada na monografia sobre passagem para o leite nem sobre efeito no lactente, e é essa ausência que sustenta a proibição.

Existe chá liberado para inchaço na gravidez?

Esta página não é o lugar para escolher um substituto, e a resposta honesta é que inchaço na gestação é um sinal que o pré-natal avalia — inclusive porque pode acompanhar alteração de pressão. Trocar uma planta contraindicada por outra sem passar por quem acompanha o caso repete o mesmo erro com outro nome.

A tintura é mais proibida que o chá?

Ela acumula duas razões. A contraindicação geral da gestação vale para todas as formas, e a monografia acrescenta que o uso da preparação de tintura é especialmente contraindicado para gestantes e lactantes em função do teor alcoólico da formulação. São dois motivos independentes que apontam para o mesmo lado.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT060, Phyllanthus niruri L.: a contraindicação do uso durante a gestação, a lactação e para menores de 18 anos por falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações, a contraindicação especial da tintura para gestantes e lactantes em função do teor alcoólico, e a advertência de que concentrações acima das recomendadas podem causar diarreia, hipotensão arterial e diurese pronunciada
  2. Paula VG et al. (2020), Journal of Ethnopharmacology 254:112728 — repercussões materno-fetais do tratamento com Phyllanthus niruri durante a prenhez em ratas: os quatro grupos (controle, 150, 300 e 600 mg/kg por gavagem do dia 0 ao 21), a ausência de alteração do desempenho reprodutivo, a ausência de efeito teratogênico, a alteração de peso e de morfologia do rim materno no grupo de 600 mg/kg e a ocorrência de macrossomia fetal e de aumento dos sítios de ossificação na prole
  3. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK/NIH) — Bladder Infection (Urinary Tract Infection) in Adults: a informação de que infecções de bexiga são tratadas na maior parte das vezes com antibióticos e de que, sem tratamento, uma infecção de bexiga pode evoluir para infecção nos rins

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026