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Guia da Saúde

Tintura de quebra-pedra: a fórmula registrada

A fórmula 4 da monografia FT060 é a única preparação alcoólica do quebra-pedra: 10 g de parte aérea e álcool etílico a 70% até completar 100 mL — uma proporção 1:10. A dose é de 1 a 3 mL diluídos em 50 mL de água, três vezes ao dia. E é a única forma da planta com uma lista própria de contraindicações.

O que muda em relação ao chá

Três coisas, e nenhuma é detalhe.

A parte da planta. A tintura usa a parte aérea, como o infuso da fórmula 1. Os dois decoctos, ao contrário, usam a planta inteira, o que inclui a raiz. Não são materiais intercambiáveis, e a comparação completa está em chá de quebra-pedra.

A embalagem. É a única fórmula da monografia com material de acondicionamento especificado: “acondicionar em frasco de vidro âmbar”. Vidro não reage com a preparação e a cor âmbar barra parte da luz. Uma tintura guardada em garrafa transparente já sai fora do que o documento descreve.

O preparo. A fórmula 4 não traz o passo a passo: ela remete às “técnicas de secagem do material vegetal e preparo de tintura descritas em Informações gerais em Generalidades”. Ou seja, o procedimento é o do próprio Formulário, e não uma receita livre — e é ele que define a secagem, a maceração e o acerto do volume final.

A contraindicação que não é da planta: diabetes

Aqui está o item que só esta página tem. A monografia escreve:

“O uso da preparação de tintura é especialmente contraindicado para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, em função do teor alcoólico na formulação.”

Repare no fim da frase. O motivo declarado não é a planta — é o álcool. Quem tem diabetes é excluído da tintura por causa do solvente, não por causa do Phyllanthus. E isso convive com uma advertência separada, essa sim sobre a planta, de que ela pode potencializar o efeito de medicamentos hipoglicêmicos e de que o uso junto de hipoglicemiantes e insulina exige acompanhamento médico, como está em quebra-pedra e remédios.

São dois avisos, por duas razões independentes, chegando à mesma conclusão para a mesma pessoa. É um caso em que o documento se repete por caminhos diferentes — e isso costuma indicar que o ponto importa.

Quanto de álcool cabe na dose

A monografia não faz essa conta, mas ela sai dos números da própria fórmula, e ajuda a entender por que quatro grupos são excluídos.

A tintura é preparada com álcool etílico a 70%. Na dose máxima registrada:

CálculoResultado
Etanol em 3 mL de tintura3 mL × 70%2,1 mL
Etanol em três doses de 3 mL2,1 mL × 36,3 mL por dia
Etanol na dose mínima de 1 mL1 mL × 70%0,7 mL

São volumes pequenos, e a diluição em 50 mL de água os torna ainda mais discretos no copo. Mas eles não são zero — e é por não serem zero que gestante, lactante, pessoa em tratamento de alcoolismo e pessoa com diabetes ficam de fora desta forma farmacêutica, ainda que o chá continue disponível para parte delas. Quem está no primeiro grupo encontra o quadro completo em quebra-pedra na gravidez.

A toxicologia que mais se aproxima de uma tintura

Quase toda a pesquisa publicada com a espécie usa extrato aquoso. Há uma exceção útil aqui: um estudo de 2012 conduzido em Gana avaliou o extrato etanólico da planta inteira — solvente alcoólico, como o da tintura — em três frentes:

  • genotoxicidade, pela razão entre eritrócitos policromáticos e normocromáticos na medula óssea de ratos: 63% no extrato e no controle negativo, contra 168 no controle positivo;
  • citotoxicidade, em células mononucleares de sangue periférico: CC50 de 26,3 mg/mL;
  • toxicidade subcrônica, com 30 ou 300 mg/kg por 90 dias: nenhuma toxicidade hepatorrenal.

A conclusão publicada é que o extrato etanólico não é citotóxico nem genotóxico e é, no geral, não tóxico em administração subcrônica. É um bom sinal de segurança — em rato, com extrato padronizado, por gavagem. Não substitui as advertências humanas do Formulário, que continuam valendo inteiras, inclusive o limite de três semanas de uso e a orientação de suspender diante de qualquer evento adverso. Os efeitos descritos estão em quebra-pedra: efeitos colaterais.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e forma farmacêutica — e aqui a forma farmacêutica carrega restrições próprias, que a lista geral de quem não pode tomar quebra-pedra resume ao lado das demais.

Perguntas frequentes

Quantas gotas equivalem à dose?

A monografia não publica a dose em gotas: ela publica de 1 a 3 mL. O tamanho da gota varia com o conta-gotas, com a viscosidade e com o teor alcoólico da preparação, e é justamente na conversão de cabeça que a dose se perde. Se o frasco não tem medida em mililitros, não há como cumprir a posologia registrada.

Dá para fazer em casa com cachaça ou vodca?

A fórmula especifica álcool etílico a 70% e remete às técnicas de secagem do material vegetal e de preparo de tintura descritas na seção de Generalidades do próprio Formulário. Destilado de bar tem graduação bem mais baixa, o que muda o que é extraído e a estabilidade da preparação — e, mudado isso, a dose de 1 a 3 mL deixa de corresponder ao que foi registrado.

Por que frasco âmbar?

É exigência escrita da monografia para esta forma farmacêutica: a tintura deve ser acondicionada em frasco de vidro âmbar. O vidro escuro barra parte da luz e o vidro não reage com a preparação. É a única das quatro fórmulas da planta com material de embalagem especificado desse jeito.

A tintura é mais forte que o chá?

São medidas diferentes e a comparação direta engana. A tintura é uma preparação 1:10 em álcool, tomada em 1 a 3 mL; o chá parte de 1,5 a 3 g de erva em 150 mL, tomados inteiros. O que se pode dizer com segurança é que o limite de três semanas de uso e as advertências gerais valem para as duas, e que a tintura acrescenta restrições que o chá não tem.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT060, Phyllanthus niruri L.: a fórmula 4 de tintura (parte aérea 10 g, álcool etílico 70% q.s.p. 100 mL), a remissão às técnicas de secagem e de preparo de tintura descritas em Generalidades, o acondicionamento obrigatório em frasco de vidro âmbar, a posologia de 1 a 3 mL diluídos em 50 mL de água três vezes ao dia, a advertência de uso adulto e a contraindicação especial da tintura para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos em função do teor alcoólico
  2. Asare GA et al. (2012), Genetics and Molecular Research 11(1):100-111 — avaliação de genotoxicidade, citotoxicidade e toxicidade geral do extrato etanólico da planta inteira de Phyllanthus niruri: doses únicas de 30 e 300 mg/kg por gavagem em ratos, razão PCE:NCE de 63% no extrato e no controle negativo contra 168 no controle positivo, CC50 de 26,3 mg/mL em células mononucleares de sangue periférico, ausência de toxicidade hepatorrenal após 90 dias de administração subcrônica e conclusão de que o extrato não é citotóxico nem genotóxico

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026