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Guia da Saúde

Sabugueiro-do-brasil: para que serve, pela Anvisa

O sabugueiro-do-brasil é Sambucus australis, espécie nativa, com monografia própria e número próprio no Formulário de Fitoterápicos: FT071. Ela indica a flor para os sintomas de gripe e resfriado comum — e traz uma dose que surpreende quem conhece a receita do sabugueiro europeu: 0,4 a 0,6 g em 150 mL de água.

A dose é quase dez vezes menor que a da espécie europeia

Este é o número que define a página. Colocadas lado a lado, com a mesma quantidade de água, as duas monografias do mesmo Formulário pedem quantidades de flor que nem sequer se encostam:

Sabugueiro-do-brasil (FT071)Sabugueiro (FT072)
EspécieSambucus australisSambucus nigra
Flor por 150 mL0,4 a 0,6 g2 a 5 g
Vezes ao dia2 a 33
Flor por dia0,8 a 1,8 g6 a 15 g
Tempo máximo30 dias, com pausa de 7uma semana
Idade mínima18 anos12 anos

As faixas diárias não se sobrepõem em nenhum ponto: o menor dia da espécie europeia, 6 g, ainda é mais do que o triplo do maior dia da espécie nativa, 1,8 g. Uma receita trocada não é um detalhe de rótulo — é uma diferença de ordem de grandeza. O preparo da outra espécie está em chá de sabugueiro, e a ficha dela em sabugueiro.

Vale registrar de onde vem essa dose: a fórmula, o modo de usar e boa parte das advertências da FT071 são creditadas a uma única referência, um formulário de preparações extemporâneas publicado em livro em 2017. Não é ensaio clínico, e a monografia não afirma que seja.

Nativa, e nem sempre reconhecida como tal

A Flora e Funga do Brasil registra Sambucus australis como nativa e não endêmica, com ocorrência confirmada em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, nos domínios Mata Atlântica e Pampa, na forma de arbusto ou árvore. O nome vernacular que a base registra para ela é simplesmente sabugueiro — o mesmo que registra para a espécie europeia, que consta como naturalizada.

É por isso que a confusão é a regra e não a exceção: as duas plantas dividem o nome popular na própria base oficial de botânica do país.

A flor tem os mesmos marcadores, mas se degrada mais rápido

Uma análise comparativa por cromatografia líquida encontrou a rutina como constituinte principal das duas espécies e não achou variabilidade significativa entre trinta amostras de origens diferentes. Até aí, semelhança. A diferença apareceu no estudo de estabilidade acelerada: as amostras de S. australis perderam rutina de forma significativa já nos primeiros 30 dias, chegando a 57% em 90 dias, contra 25% em 90 dias nas de S. nigra.

Traduzindo para a prática de quem colhe no quintal: a flor da espécie nativa não é boa de estocar por temporada. Uma triagem fitoquímica de extratos aquosos da planta encontrou ainda o canferol como composto predominante nas inflorescências e o ácido clorogênico nas folhas — e as folhas, aqui como na espécie europeia, estão proibidas pela monografia, por conterem glicosídeos cianogênicos tóxicos.

O que a monografia não promete

Não há, na FT071, indicação para imunidade, para prevenção de infecção, para febre isolada ou para qualquer uso contínuo de manutenção — ao contrário, há um teto de 30 dias e uma pausa obrigatória de 7. O que ela reconhece é alívio de sintoma em quadro agudo, e nada além disso. Os detalhes de cada restrição estão em sabugueiro-do-brasil na gravidez, sabugueiro-do-brasil para crianças e sabugueiro-do-brasil: efeitos colaterais.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e é isso que este índice publica, espécie por espécie, em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

O sabugueiro-do-brasil é a mesma planta do xarope de elderberry?

Não. O elderberry dos rótulos importados é o fruto de Sambucus nigra, a espécie europeia. O sabugueiro-do-brasil é Sambucus australis, espécie sul-americana, e o que a monografia brasileira registra dele é a flor em infusão, não o fruto em xarope. São espécie diferente, parte diferente e preparação diferente.

Onde essa planta ocorre naturalmente?

A Flora e Funga do Brasil registra Sambucus australis como nativa e não endêmica, com ocorrência confirmada em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, nos domínios Mata Atlântica e Pampa. A forma de vida registrada é arbusto ou árvore.

Pode usar o fruto do sabugueiro-do-brasil?

A monografia FT071 não registra o fruto. A fórmula única é de flor, e a advertência escrita trata só das folhas, que são proibidas por conterem glicosídeos cianogênicos tóxicos. Fruto e casca ficam fora do que o documento padroniza, então não existe dose nem preparo oficial para eles.

A flor seca perde efeito guardada?

Um estudo de estabilidade acelerada mediu a rutina, que é o marcador químico das duas espécies, e encontrou queda significativa já nos primeiros 30 dias nas amostras de Sambucus australis, chegando a 57% em 90 dias — contra 25% em 90 dias nas de Sambucus nigra. É um argumento concreto contra guardar flor solta por meses.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT071, Sambucus australis Cham. & Schltdl.: a fórmula única de 0,4 a 0,6 g de flor em 150 mL preparada por infusão de 5 minutos, a indicação de auxiliar no tratamento dos sintomas decorrentes de gripe e resfriado comum, a advertência de uso adulto, o limite de 30 dias contínuos com intervalo de 7 dias e a proibição de usar as folhas por conterem glicosídeos cianogênicos tóxicos
  2. Flora e Funga do Brasil (Jardim Botânico do Rio de Janeiro) — verbete de Sambucus australis Cham. & Schltdl., Adoxaceae: o registro da espécie como nativa e não endêmica, a ocorrência confirmada em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, os domínios Mata Atlântica e Pampa, a forma de vida arbusto ou árvore e o nome vernacular sabugueiro
  3. Scopel M, Mentz LA, Henriques AT (2010), Planta Medica 76(10):1026-1031 — análise comparativa das flores de Sambucus nigra e Sambucus australis por CLAE: a rutina como constituinte principal das duas espécies, a ausência de variabilidade significativa entre trinta amostras de origens diferentes e a queda de 57% de rutina em 90 dias na flor de S. australis contra 25% na de S. nigra em estudo de estabilidade acelerada
  4. Tedesco M et al. (2017), Anais da Academia Brasileira de Ciências 89(3 Supl):2141-2154 — triagem fitoquímica e ensaio de atividade antiproliferativa e antigenotóxica de extratos aquosos de Sambucus australis em ciclo celular de Allium cepa: o canferol como composto predominante nas inflorescências e o ácido clorogênico nas folhas

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026