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Guia da Saúde

Sabugueiro-do-brasil para gripe: o que consta

Das duas monografias de sabugueiro do Formulário brasileiro, só uma tem a palavra gripe escrita na indicação — e é a da espécie nativa. A FT071 indica a flor de Sambucus australis para “os sintomas decorrentes de gripe e resfriado comum”. A da espécie europeia para pela palavra resfriado.

A indicação mais ampla é da espécie com menos literatura

Colocadas lado a lado, as duas indicações do mesmo Formulário:

MonografiaIndicação, na íntegra
FT071 — Sambucus australis”Auxiliar no tratamento dos sintomas decorrentes de gripe e resfriado comum”
FT072 — Sambucus nigra”Auxiliar no tratamento dos sintomas iniciais do resfriado comum”

A da espécie nativa é mais ampla em dois eixos ao mesmo tempo: acrescenta a gripe e não limita o uso ao início do quadro. E é a espécie com menos documentação por trás. As três referências que a FT071 credita à indicação são livros brasileiros de plantas medicinais e de formulários de preparação — de 1998, 2008 e 2017. Nenhum ensaio clínico, e a monografia não afirma que haja.

Isso não desqualifica a indicação: no Formulário, uso tradicional é uma categoria legítima, e significa que a planta é aceita pelo histórico de uso, não por eficácia demonstrada. O que não se pode fazer é ler a palavra “gripe” ali e concluir que existe prova de que o chá trata gripe. A comparação com o que a espécie europeia registra — e com o que os ensaios do fruto realmente mostraram — está em sabugueiro para gripe.

O que a literatura internacional testou não foi esta planta

Toda a pesquisa clínica de sabugueiro que aparece em manchete é com preparações de Sambucus nigra, quase sempre do fruto. A revisão sistemática mais completa sobre sabugueiro em doenças respiratórias virais localizou cinco ensaios randomizados, todos com essa espécie, e concluiu que o sabugueiro pode não reduzir o risco de desenvolver resfriado comum, e que pode reduzir a duração da gripe — com evidência incerta nos dois casos.

Nenhum desses ensaios usou Sambucus australis. E não é por descuido de busca: a literatura indexada sobre a espécie nativa é pequena e pré-clínica. A comparação química que existe encontrou a rutina como constituinte principal das duas espécies, o que é uma semelhança real — mas semelhança de marcador químico não transfere resultado de ensaio de uma planta para outra, ainda mais quando as doses das duas monografias nem sequer se encostam.

Em resumo: a indicação brasileira para gripe existe; a evidência clínica para ela, não. As duas coisas cabem na mesma frase e é assim que a fonte deve ser lida.

O que fazer com um quadro gripal, então

A dose está publicada e é modesta: 0,4 a 0,6 g de flor em 150 mL, duas a três vezes ao dia. Serve para aliviar sintoma, é o que a monografia diz, e não substitui avaliação médica nem vacinação. Os limites de idade e de tempo continuam valendo — 18 anos, 30 dias de uso contínuo — e estão detalhados em sabugueiro-do-brasil para crianças e sabugueiro-do-brasil: efeitos colaterais.

Saber se o quadro é gripe ou resfriado muda o que se espera dos próximos dias, e essa distinção está em gripe e resfriado: as diferenças, sintomas de gripe e febre e dor no corpo. A ficha completa da planta fica em sabugueiro-do-brasil.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e ter a indicação escrita não é o mesmo que ter a eficácia medida.

Perguntas frequentes

A indicação da espécie nativa vale para a europeia, e vice-versa?

Não. São monografias separadas, com números diferentes, doses diferentes, prazos diferentes e indicações redigidas de forma diferente. Aplicar o texto de uma à outra é exatamente o erro que ter duas monografias no mesmo documento serve para evitar.

Se a fonte é livro, a indicação vale menos?

Vale o que ela declara valer: é indicação de uso tradicional, aceita pelo histórico de uso, não por demonstração de eficácia. É uma categoria legítima e explícita no Formulário. O erro seria apresentar uma indicação assim como se fosse resultado de ensaio clínico.

Posso tomar junto com o antitérmico?

A FT071 não registra interação medicamentosa nenhuma, o que significa ausência de registro e não ausência de interação — não há estudo de interação publicado com esta espécie. Quem usa medicamento de uso contínuo deve conferir com quem prescreveu antes de somar qualquer chá.

Quanto tempo até melhorar?

A monografia não estabelece prazo de resposta, apenas o teto de 30 dias de uso contínuo e a instrução de consultar um médico ao persistirem os sintomas. Como a indicação é de sintoma agudo, sintoma que não cede em poucos dias é motivo para avaliação, não para prolongar o chá.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT071, Sambucus australis Cham. & Schltdl.: a indicação de auxiliar no tratamento dos sintomas decorrentes de gripe e resfriado comum, creditada a três referências de livro (Lorenzi & Matos 2008, Panizza 1998 e Pereira et al. 2017), a fórmula única de 0,4 a 0,6 g de flor em 150 mL e o modo de usar de 150 mL do infuso de duas a três vezes ao dia
  2. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT072, Sambucus nigra L.: a indicação restrita aos sintomas iniciais do resfriado comum, sem menção a gripe, usada aqui como termo de comparação entre as duas espécies do mesmo gênero
  3. Scopel M, Mentz LA, Henriques AT (2010), Planta Medica 76(10):1026-1031 — análise comparativa das flores de Sambucus nigra e Sambucus australis por cromatografia líquida: a rutina como constituinte principal comum às duas espécies e a validação de método de controle de qualidade para as duas matérias-primas
  4. Wieland LS et al. (2021), BMC Complementary Medicine and Therapies 21(1):112 — revisão sistemática sobre sabugueiro em doenças respiratórias virais: os cinco ensaios randomizados localizados, todos com preparações de Sambucus nigra, e a conclusão de evidência incerta para duração da gripe e do resfriado

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026