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Guia da Saúde

Sabugueiro: para que serve segundo a Anvisa

O sabugueiro entrou no Formulário de Fitoterápicos da Anvisa com uma indicação e uma parte da planta: auxiliar no tratamento dos sintomas iniciais do resfriado comum, usando a flor. A folha é proibida no mesmo texto, e o fruto — que é o que se vende em cápsula, goma e xarope — não tem monografia nem no Brasil nem na Europa.

A indicação é uma só, e é do resfriado

A seção INDICAÇÕES da FT072 tem uma linha: “Auxiliar no tratamento dos sintomas iniciais do resfriado comum”. O comitê europeu chegou exatamente ao mesmo lugar — “traditional herbal medicinal product used for the relief of early symptoms of common cold” — e classificou a indicação como uso tradicional, que é a categoria aceita pelo tempo de uso, não por ensaio clínico.

Duas palavras nessa frase costumam passar batido e são as que mais limitam a promessa. A primeira é iniciais: a indicação é para o começo do quadro, não para o resfriado instalado nem para a recuperação. A segunda é resfriado — a palavra gripe não aparece na monografia brasileira da espécie, e essa ausência é o assunto de sabugueiro para gripe. A diferença entre os dois quadros está em gripe e resfriado: as diferenças.

Só a flor entra — e a folha está proibida no mesmo texto

As quatro fórmulas da FT072 usam a mesma matéria-prima: flor. Infuso, decocto, tintura e extrato fluido mudam a técnica e o solvente, nunca a parte da planta. E há uma frase de advertência que quase nenhum site brasileiro reproduz:

“Não utilizar as folhas, pois contêm glicosídeos cianogênicos tóxicos.”

É uma proibição, não uma ressalva. O sabugueiro é um arbusto de quintal, e a tentação de usar a folha porque está ali é justamente o que a monografia veta. A mesma frase, quase palavra por palavra, aparece na monografia da espécie brasileira — as duas plantas concordam nesse ponto.

Pela Farmacopeia Europeia, citada no relatório de avaliação da EMA, a droga vegetal é a flor seca, com no mínimo 0,80% de flavonoides expressos em isoquercitrosídeo. Uma análise comparativa das flores das duas espécies de sabugueiro por cromatografia líquida identificou a rutina como constituinte principal de ambas, e foi desenhada exatamente para servir de controle de qualidade de matéria-prima.

O sabugueiro de cápsula e de goma é outra coisa: é o fruto

O produto que virou febre de “imunidade” não é a flor — é o fruto, o elderberry dos rótulos em inglês. E aqui está o dado que muda a conversa: a EMA abriu, em 2011, uma chamada de dados para fazer a monografia do fruto e concluiu que não conseguia estabelecê-la. A frase final do comunicado público é direta:

“the HMPC is of the opinion that a Community herbal monograph on Sambucus nigra L., fructus cannot be established at present.”

O motivo declarado foi a falta de informação completa sobre uso tradicional com posologia e concentração especificadas. Ou seja: o regulador europeu não disse que o fruto faz mal — disse que não havia base documental para escrever quanto se toma, de quê, e por quanto tempo. No Brasil o Formulário nem chegou a tratar do fruto: a FT072 é da flor, do começo ao fim.

A Flora e Funga do Brasil registra duas plantas chamadas sabugueiro. Sambucus nigra aparece como naturalizada — veio de fora e se estabeleceu. Sambucus australis, o sabugueiro-do-brasil, é nativa, e tem monografia própria, a FT071, com dose quase dez vezes menor e limites de uso diferentes.

Essa é a armadilha prática deste verbete: uma receita achada na internet pode ser de uma espécie e a planta do quintal ser a outra. As doses, as idades mínimas e o tempo de tratamento não são intercambiáveis — e estão publicados separadamente aqui, começando por chá de sabugueiro e por quem não pode tomar sabugueiro.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e é isso que este índice publica, espécie por espécie, em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Sabugueiro aumenta a imunidade?

Nenhum dos documentos oficiais consultados diz isso. O Formulário de Fitoterápicos registra uma indicação, que é aliviar os sintomas iniciais do resfriado comum, e o comitê europeu registra a mesma, marcada como uso tradicional. Imunidade, defesa do organismo e prevenção de infecção não aparecem em nenhum dos dois textos.

Existe fitoterápico de sabugueiro registrado no Brasil?

O sabugueiro tem monografia no Formulário de Fitoterápicos, que é o documento que padroniza preparações manipuladas em farmácia. Isso não é o mesmo que registro de medicamento industrializado, e não cobre suplemento em cápsula, goma ou xarope vendido como alimento — esses produtos não seguem a fórmula da monografia.

Sabugueiro e sabugueiro-do-brasil são a mesma planta?

Não. São duas espécies do mesmo gênero, com monografias separadas e números diferentes no mesmo Formulário: FT072 para Sambucus nigra e FT071 para Sambucus australis. A Flora e Funga do Brasil registra o nome popular sabugueiro para as duas, o que explica a confusão — mas a dose, a idade mínima e o tempo máximo de uso são diferentes.

Que quantidade de flavonoide a flor precisa ter?

Pela Farmacopeia Europeia, citada no relatório de avaliação da EMA, a flor de sabugueiro consiste na flor seca de Sambucus nigra e deve conter no mínimo 0,80% de flavonoides calculados como isoquercitrosídeo, em relação à droga seca. É um critério de matéria-prima, e é o que separa flor de qualidade farmacêutica de flor a granel sem especificação.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT072, Sambucus nigra L.: a indicação única de auxiliar no tratamento dos sintomas iniciais do resfriado comum, as quatro fórmulas feitas todas com a flor (infuso de 2 a 5 g em 150 mL, decocto de 3 a 6 g em 200 mL, tintura de 20 g em 100 mL e extrato fluido 1:1), a advertência de uso acima de 12 anos, o limite de uma semana e a proibição expressa de usar as folhas por conterem glicosídeos cianogênicos tóxicos
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Sambucus nigra L., flos (EMA/HMPC/611512/2016, 27 de março de 2018): a indicação por uso tradicional para alívio dos sintomas iniciais do resfriado comum, a coluna de uso bem estabelecido inteiramente vazia e a única contraindicação registrada, que é hipersensibilidade
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Sambucus nigra L., flos (EMA/HMPC/611504/2016): a definição da droga vegetal como flor seca de Sambucus nigra com no mínimo 0,80% de flavonoides expressos em isoquercitrosídeo (Farmacopeia Europeia 1217), a composição da flor e a frase de que não há dados clínicos disponíveis
  4. European Medicines Agency (HMPC) — Public statement on Sambucus nigra L., fructus (EMA/HMPC/32465/2013, versão final): a conclusão de que não é possível estabelecer monografia para o fruto do sabugueiro por faltar informação completa de uso tradicional com posologia e concentração especificadas
  5. Flora e Funga do Brasil (Jardim Botânico do Rio de Janeiro) — verbete de Sambucus nigra L., Adoxaceae: o registro da espécie como naturalizada no Brasil e o nome vernacular sabugueiro, o mesmo da espécie nativa Sambucus australis
  6. Scopel M, Mentz LA, Henriques AT (2010), Planta Medica 76(10):1026-1031 — análise comparativa das flores de Sambucus nigra e Sambucus australis por CLAE: a rutina como constituinte principal das duas espécies e a validação do método para controle de qualidade da matéria-prima

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026