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Guia da Saúde

Tanchagem: para que serve nas duas monografias

O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa registra duas monografias com o nome popular tanchagem, uma para cada espécie: a FT062, de Plantago lanceolata, e a FT063, de Plantago major. Não é redundância. As duas indicam coisas diferentes e, sobretudo, usam vias opostas: a primeira é de uso oral e se engole; a segunda é de uso externo, e o documento manda não engolir.

Duas espécies, um nome só

A seção NOMENCLATURA POPULAR das duas monografias traz exatamente a mesma palavra: Tanchagem. Quem procura pelo nome popular cai em dois documentos que não se substituem.

A separação entre elas não é botânica de curiosidade — ela muda o que se faz com a planta:

FT062P. lanceolataFT063P. major
Formas registradasinfuso + 2 cápsulasinfuso + tintura
Viaoralexterna
Indicaçãoirritação oral e de faringe com tosse secaafecções da cavidade oral
Faixa etária12 anos (infuso), 3 anos (cápsula)adulto
Limite de uso contínuo30 diasnão estabelecido

A espécie brasileira, a do quintal e a da feira, é a Plantago major — e é ela, e só ela, que a RENISUS lista sob o nome tanchagem, entre as espécies de interesse ao SUS. O detalhe de nomenclatura que embaralha tudo isso está em diferença entre tanchagem e plantago.

A que se bebe e a que não se engole

Esta é a frase mais importante das duas monografias, e está no MODO DE USAR da FT063:

“Não engolir a preparação após o bochecho e gargarejo.”

A P. major é registrada como uso externo. O infuso dela não é bebida: é aplicado sobre o local afetado, ou usado em bochecho e gargarejo. A tintura, idem — 2 a 4 mL diluídos em 50 mL de água, para bochechar.

A P. lanceolata é o oposto: uso oral, 150 mL do infuso de duas a três vezes ao dia, engolindo.

Ou seja, o “chá de tanchagem” que se toma no Brasil está sendo preparado, quase sempre, com a espécie cuja monografia diz para não engolir. Os dois preparos, lado a lado, estão em chá de tanchagem.

O que cada indicação cobre — e o que não cobre

A FT062 registra a tanchagem como auxiliar no tratamento sintomático de irritações orais e da faringe associadas à tosse seca. Duas palavras fazem trabalho pesado aí: sintomático (alivia o incômodo, não trata a causa) e seca (tosse com catarro não está na indicação).

A FT063 registra auxiliar no tratamento sintomático de afecções da cavidade oral, como anti-inflamatório e antisséptico. É um efeito de contato, na mucosa da boca — não um anti-inflamatório que circula pelo corpo. O que “inflamação” quer dizer nesses documentos está detalhado em tanchagem para inflamação, e a separação entre uso local e uso oral aparece em tanchagem para dor de garganta.

Nenhuma das duas registra indicação para gripe, imunidade, rim, fígado, cicatrização interna ou emagrecimento.

As três indicações europeias — e por que só uma virou brasileira

A monografia europeia de P. lanceolata foi revisada em 09 de julho de 2025, e a versão nova tem três indicações, todas por uso tradicional:

  1. demulcente para irritações orais ou faríngeas e tosse seca associada;
  2. alívio de tosse associada a resfriado;
  3. tratamento de inflamação leve da pele.

O Formulário brasileiro, publicado depois disso mas escrito antes, incorporou apenas a primeira, e cita como fonte a monografia europeia de 2014 — a versão anterior, que também só tinha uma indicação. É uma defasagem previsível, e vale saber de que lado ela cai: aqui a Anvisa está sendo mais restritiva, não mais permissiva.

Idade, gravidez e as advertências que valem para as duas

Nas duas monografias, o uso é contraindicado na gestação e na lactação — em ambos os casos por falta de dados que comprovem segurança, e não por dano demonstrado. As duas também contraindicam para hipotensos e para quem tem obstrução intestinal.

A idade mínima é onde elas mais divergem: a FT063 é de uso adulto, com menores de 18 anos contraindicados; a FT062 libera o infuso acima de 12 anos e as cápsulas acima de 3. Essa faixa de 3 a 4 anos guarda um número que não fecha, e ele está aberto em tanchagem para crianças.

Há ainda um cuidado próprio da FT063: nunca utilizar a casca da semente, e manipular a planta com atenção, porque o pólen e a casca da semente podem causar reações anafiláticas ou alérgicas.

Como esta planta entra no uso doméstico

Tanchagem é planta de terreno baldio, de beira de calçada e de horta — o que a torna fácil de colher e fácil de errar. Vale o mesmo cuidado de qualquer erva colhida fora do comércio, descrito em identificar planta medicinal, e a técnica de preparo padrão está em como fazer infusão.

O índice das espécies com monografia já publicadas aqui fica em plantas medicinais.

Perguntas frequentes

Qual das duas tanchagens eu tenho no quintal?

A distinção mais prática é a folha. A de Plantago lanceolata é estreita e lanceolada, o que dá à espécie o nome europeu de tanchagem menor. A de Plantago major é larga e arredondada, com nervuras marcadas saindo do talo. Identificação de planta, porém, não se faz por descrição de texto: se o material vai virar preparação, a origem precisa ser conhecida.

Tanchagem serve para o intestino?

Nenhuma das duas monografias brasileiras registra indicação intestinal, e as duas fazem o contrário: contraindicam o uso em quem tem obstrução intestinal. A fama de fibra pertence a outra espécie do mesmo gênero, a Plantago ovata, que não está no Formulário brasileiro e é vendida como psyllium.

Existe fitoterápico industrializado de tanchagem no Brasil?

O Formulário de Fitoterápicos descreve fórmulas de manipulação, que são coisa diferente de medicamento industrializado com registro. São cinco no total entre as duas espécies: um infuso e duas cápsulas na FT062, um infuso e uma tintura na FT063. Manipulação exige prescrição e farmácia habilitada.

Dá para usar tanchagem na pele?

No documento brasileiro, não existe fórmula cutânea. A revisão europeia de julho de 2025 acrescentou o uso na pele para inflamação leve, com macerado aplicado em curativo limpo, mas essa indicação não foi incorporada pela Anvisa. Ferida que não fecha ou pele que infecciona é assunto de consulta, não de macerado.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT062-00, Plantago lanceolata L.: o nome popular tanchagem, o infuso de 2 g de folha em 150 mL preparado por 10 minutos, as duas cápsulas de extrato seco, a indicação de auxiliar no tratamento sintomático de irritações orais e da faringe associadas à tosse seca, o uso oral e o limite de 30 dias de uso contínuo
  2. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT063-00, Plantago major L.: o mesmo nome popular tanchagem, o infuso de 2 a 6 g de folha em 150 mL, a tintura de parte aérea, a indicação de auxiliar no tratamento sintomático de afecções da cavidade oral como anti-inflamatório e antisséptico, o uso externo e a instrução de não engolir a preparação após o bochecho e gargarejo
  3. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Plantago lanceolata L., folium, Revision 1 (EMA/HMPC/887979/2022), adotada em 09 de julho de 2025: as três indicações por uso tradicional (demulcente para irritações orais e faríngeas com tosse seca, alívio de tosse associada a resfriado e tratamento de inflamação leve da pele), as três vias de administração e a contraindicação de hipersensibilidade ao pólen de tanchagem
  4. Ministério da Saúde — Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS): a lista de 2009 que registra a tanchagem com um único nome científico, Plantago major, entre as espécies de interesse para o desenvolvimento de produtos no SUS

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026