Como fazer infusão: o passo a passo da monografia
Infusão, na definição do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa, é “verter água fervente sobre a droga vegetal e, em seguida, se aplicável, tampar ou abafar o recipiente por tempo determinado”. A planta não vai ao fogo: recebe a água já fervente, fora dele. É a técnica de 54 das 85 monografias do documento.
O procedimento, como a monografia escreve
A instrução mais completa do documento está na monografia do cardo-mariano, e serve de gabarito:
“Preparar por infusão. Verter água fervente sobre a droga vegetal e manter em contato durante 10 a 15 minutos, considerando a proporção indicada na fórmula. Utilizar os frutos sem papilos secos e rasurados.”
Desmontando em etapas, na ordem em que o documento as coloca:
- Pese a droga vegetal seca na quantidade da fórmula. A unidade é o grama, e a faixa muda muito entre espécies — está em quantos gramas de erva por xícara.
- Rasure, ou seja, fragmente o material. O termo “rasurada” aparece 77 vezes no Formulário; “pulverizada”, 28. Algumas monografias exigem que isso seja feito imediatamente antes do uso — é o caso do funcho e do anis.
- Ferva a água e tire do fogo. O volume é o da fórmula: 150 mL na maioria delas.
- Verta a água fervente sobre a planta, e não o contrário. Colocar a erva na chaleira que ferve é outra técnica.
- Tampe ou abafe, quando a monografia mandar.
- Aguarde o tempo determinado e coe.
O “se aplicável” que quase ninguém lê
A definição não manda abafar sempre. Ela diz “em seguida, se aplicável, tampar ou abafar” — e a ressalva não é retórica. Palavras da família de tampar e abafar aparecem 44 vezes no documento, mas a maior parte das orientações de infusão se limita a fixar o tempo, sem falar em cobertura.
Quando o documento resolve escrever, ele escreve de forma inequívoca:
| Monografia | Instrução literal |
|---|---|
| Funcho (fruto) | “Preparar por infusão, tampar o recipiente durante 15 minutos” |
| Boldo-do-chile | ”Abafar durante 10 minutos e posteriormente coar” |
| Mil-folhas | ”Preparadas por infusão, durante 10 a 15 minutos” — sem menção a tampa |
O critério por trás disso está no Quadro 1 de incompatibilidades do próprio Formulário: os óleos essenciais sofrem “volatilização dos princípios ativos na presença de calor”. Abafar retém o vapor; onde não há óleo essencial relevante, a cobertura pesa menos. Por que isso não significa usar água mais fria está em água fervente estraga o chá?.
Os casos concretos estão em chá de funcho e chá de boldo-do-chile.
A regra da parte da planta, e as 11 exceções
A definição indica infusão para “drogas vegetais de consistência menos rígida tais como folhas, flores, inflorescências e frutos, ou que contenham substâncias ativas voláteis”.
Só que o mesmo documento infunde parte rígida em 11 monografias. Algumas delas:
| Espécie | Parte rígida infundida | Tempo |
|---|---|---|
| Canela | Casca | 10 a 15 minutos |
| Cúrcuma | Rizoma seco, rasurado ou pulverizado | 10 a 15 minutos |
| Valeriana | Raiz | 10 a 15 minutos |
| Salgueiro | Casca do caule | 5 minutos |
| Bardana | Raiz | sem tempo declarado |
| Equinácea | Raiz | ”por pelo menos 10 minutos” |
A cláusula final da definição explica a maioria dos casos — “ou que contenham substâncias ativas voláteis” —, e é o que justifica infundir rizoma de cúrcuma e casca de canela em vez de fervê-los. A monografia da equinácea vai além e oferece as duas técnicas para a mesma raiz: decocção de dez minutos ou infusão de pelo menos dez. Os desdobramentos por espécie estão em chá de canela e chá de valeriana.
A leitura correta, portanto, não é “folha se infunde, raiz se ferve”. É: a monografia da espécie manda, e a regra geral só vale quando ela cala. A técnica oposta, com suas próprias exceções, está em como fazer decocção.
O gengibre e o direito de escolher
Uma monografia inteira do Formulário deixa a escolha ao preparador: a de Zingiber officinale, cujas fórmulas 1 e 2 devem ser preparadas “por infusão ou decocção, durante 5 minutos”, com o rizoma seco e pulverizado. É a mesma droga, o mesmo tempo, e dois caminhos autorizados — o que mostra que a fronteira entre as técnicas não é rígida onde a evidência não exige. O detalhamento está em chá de gengibre.
Depois de coar
Dezesseis posologias do Formulário mandam tomar o infuso logo após o preparo, e várias outras marcam o momento com precisão — “10 minutos após o preparo”, “15 minutos após o preparo”. Esse segundo relógio, que não é o do tempo de infusão, está explicado em quanto tempo deixar o chá em infusão; o que acontece com o que sobra, em quanto tempo dura o chá pronto.
Executar a técnica corretamente não torna a planta apropriada para qualquer pessoa: idade mínima, gravidez, amamentação e interação com medicamento estão na monografia de cada espécie, e sintoma que persiste ou piora é assunto para serviço de saúde, não para uma infusão mais forte.
Perguntas frequentes
Infusão e chá são a mesma coisa?
Chá é o produto; infusão é uma das três técnicas de fazê-lo. A definição de chá medicinal da Anvisa diz justamente isso: fitoterápico a ser preparado por infusão, decocção ou maceração em água no momento do uso. Toda infusão de planta é um chá, mas nem todo chá é infusão.
Preciso mexer o chá enquanto infunde?
Nenhuma monografia manda agitar durante a infusão. Agitação diária aparece no documento, mas em outra técnica: a maceração alcoólica das tinturas, que dura 20 dias. Mexer o infuso não é errado, apenas não é parte do procedimento descrito.
Sachê e erva solta infundem igual?
O tempo é o mesmo, mas o contato não. O papel do sachê limita a circulação de água entre os fragmentos, e o conteúdo costuma vir mais finamente dividido, o que compensa em parte. O que muda de verdade é saber a gramatura, que no sachê vem declarada.
Posso infundir duas vezes a mesma erva?
As fórmulas do Formulário são escritas para uma extração: uma massa de droga vegetal, um volume de água, um tempo. Uma segunda infusão da mesma porção entrega uma dose desconhecida e menor. Se a intenção é dose registrada, cada preparo parte de droga vegetal nova.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026): a definição de infusão como verter água fervente sobre a droga vegetal e tampar ou abafar o recipiente por tempo determinado, as 54 monografias que empregam a técnica, as instruções literais de preparo do cardo-mariano, do funcho e do boldo-do-chile, e as 11 monografias que infundem raiz, rizoma ou casca apesar de a definição indicar a técnica para partes menos rígidas
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Species sedativae (EMA/HMPC/438183/2017): a posologia de 1,5 a 4 g da mistura em 150 mL de água fervente como infusão, de três a quatro vezes ao dia, com a última dose antes de deitar, e a remissão ao glossário de chás medicinais do comitê
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026