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Guia da Saúde

Tanchagem efeitos colaterais: 1% em 593 pacientes

O Formulário brasileiro lista quatro tipos de reação para a tanchagem: náusea e vômito por tanino, dermatite de contato, reações de hipersensibilidade e, em dose excessiva, bradicardia e hipotensão arterial. A monografia europeia da mesma espécie escreve, na seção equivalente, duas palavras: “None known”.

O que cada documento registra

ReaçãoFT062 (Anvisa)EMA, revisão de 2025
Náuseas e vômitossim, por tanino, em dose ou concentração altanão listado
Dermatite de contatorelatadanão listado
Hipersensibilidaderelatadavira contraindicação
Bradicardia e hipotensãoacima da dose recomendadanão listado
Efeitos indesejáveis, no geralquatro itens”None known”
Casos de superdosagem“No case of overdose has been reported”

A divergência é real e vale entender por que existe. A seção 4.8 de uma monografia europeia registra o que a farmacovigilância europeia recebeu — notificação espontânea de reação atribuída ao produto. “Nenhum conhecido” quer dizer não notificado, não “investigado e descartado”. O documento brasileiro puxa de outra fonte, um formulário de preparações extemporâneas brasileiro, e traz o que a literatura descreve para a espécie, independentemente de notificação.

Nenhuma das duas listas é a lista completa. E entre um documento que enumera reações e outro que não recebeu notificação, a informação útil é a soma, não o menor denominador.

Os números do único estudo com gente

Existe um estudo pós-comercialização com 593 pacientes (média de 42 anos, de 1 a 88 anos) que usaram xarope de Plantago lanceolata por cerca de 10 dias. Os resultados de segurança:

  • eventos adversos em 7 pacientes — 1% da amostra;
  • 5 desses 7 foram diarreia, incluindo uma criança de 10 anos;
  • todos os casos de diarreia ocorreram num único centro do estudo, o que levou o investigador a suspeitar de causa infecciosa;
  • nenhuma reação alérgica foi relatada;
  • tolerabilidade avaliada como excelente por 49% dos pacientes e 51% dos médicos; como “moderada”, por cerca de 2%.

Um por cento de eventos leves é um número tranquilizador, e ele tem limites que precisam vir junto: o estudo não tinha grupo de comparação, durou dez dias e olhou uma preparação só. Ele não diz nada sobre uso prolongado — prazo que tem regra própria, em por quanto tempo tomar tanchagem.

Tanino, náusea e a tentação do chá forte

A FT062 nomeia o responsável pelo desconforto digestivo:

“Devido ao moderado conteúdo de tanino, em doses e concentrações mais elevadas, pode causar náuseas e vômitos.”

Taninos são adstringentes — a sensação de “amarrar a boca” da banana verde e do chá preto forte. Em concentração alta irritam a mucosa gástrica, e a náusea é a resposta previsível. O detalhe que importa: a advertência fala em dose e concentração, duas variáveis que o preparo caseiro controla mal. Dobrar a folha na mesma água não é ajuste de sabor; é sair da fórmula, cujas gramaturas exatas estão em chá de tanchagem.

Bradicardia e hipotensão: a reação que muda a conduta

De todas as reações listadas, esta é a que menos parece com “efeito colateral de chá”:

“Doses acima das recomendadas podem causar bradicardia e hipotensão arterial.”

Coração mais lento e pressão mais baixa. É o mesmo eixo da advertência que manda evitar a planta em pessoas hipotensas, e é o motivo de a interação com digitálicos aparecer na mesma monografia — detalhada em quem não pode tomar tanchagem.

Tontura ao levantar, escurecimento de vista, batimento lento e sensação de desmaio durante o uso não são “efeito de desintoxicação”. São o quadro que a advertência descreve, e pedem suspensão e avaliação.

Alergia: o pólen é o problema, e ele cresceu

A revisão europeia de 2025 acrescentou uma contraindicação nova — hipersensibilidade ao pólen de tanchagem — e o relatório de avaliação explica o gatilho. Um estudo alemão avaliou testes cutâneos de 6.220 pacientes ao longo de 20 anos e encontrou a sensibilização ao pólen de tanchagem quase dobrando, de 26,6% na década de 1998–2007 para 50,5% em 2008–2017, com o aumento mais acentuado entre os pacientes mais jovens.

Há uma ressalva importante nesse dado, e ela vem de outro estudo citado no mesmo relatório: entre 35 pacientes com teste cutâneo positivo para tanchagem, só 37,1% tinham sensibilização verdadeira. Os outros 62,9% eram positivos apenas por reatividade cruzada com pólen de gramínea, bétula ou freixo — moléculas parecidas o bastante para enganar o teste.

E há uma segunda ressalva, escrita pelo próprio relatório: o extrato de folha não contém pólen e não é inalado, de modo que reação alérgica pela preparação é considerada improvável. O comitê registrou a contraindicação assim mesmo. A distinção prática: o risco maior está em manipular a planta inteira — colher, secar, moer, com flor e semente junto — e não no líquido coado. Os sintomas de alergia respiratória a pólen estão em alergia respiratória: sintomas; os da reação de pele, em dermatite: sintomas.

Procure atendimento de urgência se aparecerem inchaço de lábios, língua ou garganta, dificuldade para respirar ou engolir, chiado, urticária que se espalha rápido ou tontura intensa — o quadro descrito em urticária: sintomas quando vem acompanhado de falta de ar é emergência. A FT063 registra que o pólen e a casca da semente da tanchagem podem causar reações anafiláticas, e essa palavra está no documento por um motivo.

A conduta geral que as duas monografias repetem, para qualquer reação: suspender o uso do produto e consultar um médico. Como isso se compara com o resto das plantas do site está em planta medicinal tem efeito colateral?.

Perguntas frequentes

Meu teste de alergia deu positivo para tanchagem. É alergia mesmo?

Pode não ser. No estudo francês com 35 pacientes de teste cutâneo positivo, só 37,1% tinham sensibilização verdadeira à tanchagem; os outros 62,9% reagiam por semelhança molecular com pólen de gramínea, bétula ou freixo. Quem esclarece isso é o alergista, com teste por componente molecular.

Chá muito forte faz mais efeito ou mais mal?

A advertência brasileira liga náusea e vômito justamente a doses e concentrações mais elevadas, por causa do tanino. Concentrar a infusão não aumenta o benefício registrado, que é de contato com a mucosa, e aproxima a preparação da faixa em que o desconforto digestivo aparece.

Tanchagem dá diarreia?

Diarreia não consta das advertências das duas monografias brasileiras. Ela aparece no estudo europeu, em cinco pacientes de 593, e todos os casos ocorreram num único centro do estudo — o que levou o próprio investigador a suspeitar de causa infecciosa, e não do produto.

Quanto tempo depois de parar as reações somem?

As monografias não trazem esse dado. O que elas orientam é a conduta: diante de evento adverso, suspender o uso do produto e consultar um médico. Reação que não regride após a suspensão, ou que envolve respiração, não espera — é atendimento imediato.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT062-00, Plantago lanceolata L.: a advertência de que o moderado conteúdo de tanino pode causar náuseas e vômitos em doses e concentrações mais elevadas, o relato de dermatite de contato e reações de hipersensibilidade, e a informação de que doses acima das recomendadas podem causar bradicardia e hipotensão arterial
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Plantago lanceolata L., folium, Revision 1 (EMA/HMPC/887979/2022): a seção 4.8 de efeitos indesejáveis, que registra literalmente nenhum conhecido, a seção 4.9 de superdosagem, que registra nenhum caso relatado, e a contraindicação de hipersensibilidade à substância ativa ou ao pólen de tanchagem acrescentada nesta revisão
  3. European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Plantaginis lanceolatae folium, Revision 1 (EMA/HMPC/887981/2022): o estudo pós-comercialização de Kraft (1997) com 593 pacientes, no qual eventos adversos foram registrados em 7 pacientes (1%), cinco deles diarreia concentrada em um único centro, sem relato de reação alérgica, e a tolerabilidade avaliada como excelente por 49% dos pacientes e 51% dos médicos
  4. Forkel S, Beutner C, Heetfeld A, Fuchs T, Schön MP, Geier J, Buhl T. Allergic Rhinitis to Weed Pollen in Germany: Dominance by Plantain, Rising Prevalence, and Polysensitization Rates over 20 Years. Int Arch Allergy Immunol 2020;181(2):128-135 (PMID 31805564) — o estudo de 6.220 pacientes testados entre 1998 e 2017 no qual a sensibilização ao pólen de tanchagem quase dobrou, de 26,6% para 50,5%, e que motivou a nova contraindicação da monografia europeia
  5. Stemeseder T, Metz-Favre C, de Blay F, Pauli G, Gadermaier G. Do Plantago lanceolata Skin Prick Test-Positive Patients Display IgE to Genuine Plantain Pollen Allergens? Int Arch Allergy Immunol 2018;177(2):97-106 (PMID 29936506) — o achado de que, entre 35 pacientes com teste cutâneo positivo para pólen de tanchagem, apenas 37,1% tinham sensibilização verdadeira e 62,9% eram positivos só por reatividade cruzada com pólen de gramínea, bétula ou freixo

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026