Tanchagem na gravidez: as duas monografias proíbem
Não. As duas monografias de tanchagem do Formulário de Fitoterápicos contraindicam o uso na gestação e na lactação, e as duas escrevem o mesmo motivo: falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações. Não é um alerta genérico de bula — é a frase literal da FT062 e da FT063.
Ausência de dado, não achado de dano
Vale ler a justificativa com atenção, porque ela é diferente de “faz mal”. As monografias não citam malformação, aborto, parto prematuro ou qualquer desfecho adverso observado em gestantes que usaram tanchagem. Elas dizem que não se sabe.
A monografia europeia detalha até onde vai esse não saber, em duas seções separadas:
- seção 4.6: “No fertility data available” — não há dados de fertilidade;
- seção 5.3: “Tests on reproductive toxicity, genotoxicity and carcinogenicity have not been performed” — os testes de toxicidade reprodutiva, genotoxicidade e carcinogenicidade não foram realizados.
É um degrau abaixo do “estudos não encontraram problema”. Aqui, os estudos não existem. E o raciocínio regulatório é o oposto do intuitivo: quanto menos se investigou, mais restritiva fica a recomendação, porque a gestação não é o lugar de descobrir.
O mesmo padrão de contraindicação por lacuna aparece em outras espécies do site, como em camomila na gravidez, e ajuda a entender por que a frase se repete tanto nas monografias.
”Contraindicado” e “não recomendado” não são a mesma palavra
Os dois documentos chegam à mesma conduta por graus diferentes de força:
| Anvisa (FT062 e FT063) | EMA (revisão de 2025) | |
|---|---|---|
| Termo usado | contraindicado | não recomendado |
| Motivo declarado | falta de dados adequados | ausência de dados suficientes |
| Abrange lactação | sim | sim |
Na prática regulatória brasileira, contraindicação é a categoria mais dura: fecha o uso. O “not recommended” europeu é um degrau abaixo, e aparece em monografias de uso tradicional quando o comitê não tem base para uma proibição formal. Para quem está grávida no Brasil, vale o termo brasileiro — e os dois apontam para a mesma decisão.
Onde essa contraindicação se encaixa na lista completa de restrições da espécie está em quem não pode tomar tanchagem.
A tintura tem uma proibição a mais
A FT063 registra uma tintura de Plantago major e a trata em separado:
“O uso da preparação de tintura é especialmente contraindicado para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, em função do teor alcoólico na formulação.”
Repare no motivo: álcool, não planta. A fórmula usa álcool etílico a 45%, e é o veículo que carrega a restrição extra — o mesmo veículo que coloca alcoolistas e diabéticos na mesma frase. Por isso a contraindicação da tintura na gestação é dupla: vale pela espécie e vale pelo solvente. A fórmula completa está em tintura de tanchagem.
O que fazer com o sintoma que levaria à tanchagem
Os quadros para os quais a tanchagem é registrada — irritação de garganta, tosse seca, afecção da boca — acontecem na gravidez como em qualquer outro momento, e continuam precisando de resposta.
O que muda é quem decide. Na gestação, sintoma respiratório e dor de garganta passam pelo pré-natal, porque a lista de opções seguras é curta e específica do período. Medidas sem princípio ativo, como o gargarejo descrito em água morna com sal para gargarejo, tendem a ser o primeiro degrau, mas mesmo isso vale conferir com quem acompanha.
Procure atendimento sem esperar se houver febre, falta de ar, dificuldade para engolir saliva, placas na garganta ou sintoma que não melhora em uma semana. Na gestação, esses sinais mudam de prioridade — o que está descrito em dor de garganta e febre vale como orientação geral, não como substituto da consulta.
O panorama do que este site publica sobre segurança de planta medicinal, e do que “seguro” significa num documento oficial, está em planta medicinal é segura?.
Perguntas frequentes
Tomei chá de tanchagem sem saber que estava grávida. E agora?
Não existe relato de dano publicado nas monografias, porque também não existe estudo. Isso não é garantia, mas também não é motivo para pânico. O caminho é contar ao profissional que acompanha o pré-natal, informando espécie, forma de preparo, quanto e por quanto tempo, e suspender o uso a partir de agora.
E o bochecho, também está proibido na gravidez?
A contraindicação da FT063 é de uso do fitoterápico, sem abrir exceção por via, e a mesma monografia manda não engolir a preparação nem no uso normal. Como parte de qualquer bochecho acaba sendo deglutida, a leitura prudente é que a restrição vale também aí. Para dor de garganta na gestação, quem decide a conduta é o pré-natal.
Existe alguma dose considerada segura para gestante?
Não. Uma contraindicação por ausência de dados não vem acompanhada de dose menor tolerada, porque não há estudo que estabeleça esse limiar. Reduzir a quantidade não converte um uso não avaliado em uso avaliado.
A restrição vale por quanto tempo depois do parto?
As monografias contraindicam durante a lactação, sem prazo em semanas ou meses. Na prática, a restrição acompanha o período de amamentação. Substâncias que passam para o leite não têm dados nesta espécie, e é exatamente essa ausência que sustenta a contraindicação.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografias FT062-00 (Plantago lanceolata L.) e FT063-00 (Plantago major L.): a contraindicação de uso durante a gestação e a lactação nas duas espécies, justificada em ambas pela falta de dados adequados que comprovem a segurança nessas situações, e a contraindicação reforçada da tintura para gestantes e lactantes em função do teor alcoólico da formulação
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Plantago lanceolata L., folium, Revision 1 (EMA/HMPC/887979/2022): a seção 4.6, que declara não haver dados de fertilidade disponíveis e considera o uso na gestação e na lactação não recomendado na ausência de dados suficientes, e a seção 5.3, que registra que testes de toxicidade reprodutiva, genotoxicidade e carcinogenicidade não foram realizados
- European Medicines Agency (HMPC) — Assessment report on Plantaginis lanceolatae folium, Revision 1 (EMA/HMPC/887981/2022): a seção de segurança em populações especiais, que registra ausência de dados, e a conclusão de que não foram realizados ensaios clínicos controlados com extratos de folha de Plantago lanceolata, o que impediu o reconhecimento de uso bem estabelecido
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026