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Guia da Saúde

Tintura de tanchagem: 20 g, álcool 45% e gargarejo

Existe uma só tintura de tanchagem no Formulário de Fitoterápicos, e ela está na monografia da Plantago major: 20 g de parte aérea em álcool etílico a 45% q.s.p. 100 mL. O ponto que inverte a expectativa: essa tintura não se toma. O modo de usar registrado é bochecho e gargarejo, com 2 a 4 mL diluídos em 50 mL de água.

A única tintura das duas monografias

A FT062, da Plantago lanceolata, tem três fórmulas: um infuso e duas cápsulas de extrato seco. Nenhuma tintura. Há álcool na Fórmula 3 dessa monografia — etanol a 24% —, mas ali ele é apenas solvente de extração do extrato seco que vai para dentro da cápsula, e não sobra no produto final. Extrato seco e tintura são coisas diferentes, distinção detalhada em diferença entre tintura e extrato.

Quem procura “tintura de tanchagem”, portanto, está falando necessariamente da Plantago major — a espécie brasileira, a do quintal, cujo panorama está em tanchagem.

A parte da planta muda, e só aqui

Detalhe fácil de passar batido: das cinco fórmulas registradas entre as duas monografias, quatro usam folha. A tintura é a única que pede parte aérea — folha, caule e o que mais estiver acima do solo.

Isso não é sinônimo de “folha”. E cruza direto com uma advertência da mesma monografia: “o pólen e a casca da semente podem causar reações anafiláticas ou alérgicas”, seguida de “nunca utilizar a casca da semente”. Parte aérea de uma planta em floração traz espiga, flor e semente junto. Quem colhe material para tintura precisa saber o que está entrando no frasco — e essa é uma das razões pelas quais a preparação é de farmácia, não de casa.

A tintura fraca demais para se conservar sozinha

Esta é a linha mais incomum da fórmula:

“Em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes.”

Tintura costuma se conservar pelo próprio álcool. A da tanchagem tem 45%, graduação baixa para o padrão do Formulário — a do guaco, por exemplo, usa 70%, como está em tintura de guaco. Abaixo de certo teor, o álcool deixa de barrar microrganismo, e a monografia reconhece isso pedindo conservante.

Duas consequências práticas. A primeira: a fórmula não é reproduzível em casa, porque conservante adequado para preparação de mucosa não é item de despensa e o documento não nomeia nenhum. A segunda: se alguém preparar sem conservante, tem em mãos um extrato hidroalcoólico diluído, guardado por semanas, sem barreira microbiológica — o oposto do que a monografia descreve. A técnica geral, com os pontos em que ela costuma dar errado, está em como fazer tintura.

A exigência de frasco de vidro âmbar vem da mesma preocupação, e é reforçada na seção Generalidades: a maceração exige recipiente âmbar, ou outro que elimine o contato com a luz.

Como o documento manda usar

PassoO que a FT063 escreve
Dose por vez2 a 4 mL de tintura
Diluiçãoem 50 mL de água
Gestobochecho ou gargarejo
Destino do líquidonão engolir
Frequêncianão estabelecida na monografia

A diluição não é opcional. Dois a quatro mililitros de tintura a 45% em meio copo de água resultam num líquido bem menos agressivo para a mucosa da boca — que é, afinal, o tecido que se pretende tratar. Tintura pura em contato com mucosa inflamada arde e não consta do modo de usar. A técnica do gargarejo está em como fazer gargarejo, e a indicação registrada para essa via, em tanchagem para dor de garganta.

Note também o que não está na tabela: frequência diária e duração. A FT063 não estabelece nem uma nem outra, o que é coerente com uma preparação de uso externo — mas deixa sem resposta oficial a pergunta “quantas vezes por dia”. Na ausência do dado, quem define é quem prescreve.

Quem fica de fora só por causa do álcool

A FT063 separa a tintura do resto da monografia numa advertência própria:

“O uso da preparação de tintura é especialmente contraindicado para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos, em função do teor alcoólico na formulação.”

O motivo declarado é o veículo, não a planta. É por isso que alcoolistas e diabéticos aparecem aqui e não nas restrições do infuso: são contraindicações do álcool, que a preparação carrega junto. Some-se a isso o fato de a monografia inteira ser de uso adulto, com menores de 18 anos contraindicados, e a lista da tintura fica mais estreita que a da própria espécie — comparação feita em quem não pode tomar tanchagem.

Para gestantes e lactantes, a contraindicação é dupla: vale pela espécie, em todas as formas, e vale de novo pelo álcool. O detalhamento está em tanchagem na gravidez.

Suspenda o uso e procure um serviço de saúde se a lesão da boca ou da garganta piorar, se aparecer febre, se houver dificuldade para engolir ou se o quadro não melhorar em uma semana. Bochecho não trata infecção, e a monografia é explícita ao registrar apenas alívio sintomático.

Perguntas frequentes

Qual conservante devo usar?

A monografia recomenda o uso de conservantes mas não nomeia nenhum, nem fixa concentração. Essa escolha é de quem manipula, dentro das normas de farmácia magistral, e depende do que mais será adicionado à preparação. É mais um motivo para a tintura não sair de uma cozinha.

Posso usar álcool de cereais do mercado?

A fórmula pede álcool etílico a 45%, uma graduação específica que quase nunca coincide com a do produto de prateleira, e que precisa ser obtida por diluição calculada. Álcool com desnaturante ou de uso doméstico não serve para preparação destinada à mucosa da boca.

Quanto tempo dura a tintura pronta?

O documento não fixa prazo de validade para esta fórmula. Ele exige embalagem que proteja de luz e umidade, com lacre de inviolabilidade, e recomenda conservante justamente porque a graduação alcoólica é baixa. Sem prazo definido, a leitura prudente é preparar pouco e não estocar.

Serve para passar em ferida ou em afta?

O modo de usar registrado para a tintura é bochecho e gargarejo diluídos, e só. A aplicação direta sobre o local afetado aparece na outra fórmula da mesma monografia, o infuso — não na tintura, que é bem mais concentrada e alcoólica. Aplicar tintura pura em mucosa lesionada arde e não está no documento.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT063-00, Plantago major L.: a Fórmula 2 de tintura com 20 g de parte aérea e álcool etílico a 45% q.s.p. 100 mL, a recomendação de utilizar conservantes em razão do baixo teor alcoólico da formulação, a exigência de acondicionamento em frasco de vidro âmbar, o modo de usar externo com bochechos ou gargarejos de 2 a 4 mL diluídos em 50 mL de água e a contraindicação especial para gestantes, lactantes, alcoolistas e diabéticos
  2. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — seção Generalidades: a definição de tintura como preparação alcoólica ou hidroalcoólica obtida com 1 parte de droga vegetal para 10 ou para 5 partes de solvente, a definição de maceração com exigência de recipiente âmbar ou outro que elimine o contato com a luz, e a definição de uso externo como aplicação do produto diretamente na pele ou mucosa
  3. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT062-00, Plantago lanceolata L.: as três fórmulas registradas para a espécie, um infuso e duas cápsulas de extrato seco, sem nenhuma tintura, e o uso do álcool etílico a 24% apenas como solvente de extração do extrato seco da Fórmula 3, com razão droga-extrato de 3-5:1

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 6 de agosto de 2026