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Guia da Saúde

Contraindicações da acupuntura: as 4 que a OMS lista

A diretriz de segurança da Organização Mundial da Saúde começa a seção de contraindicações com uma frase desconcertante: “é difícil estipular contraindicações absolutas para esta forma de terapia”. E, logo depois, nomeia quatro situações em que a acupuntura deve ser evitada por razões de segurança. As duas coisas convivem, e a leitura correta é a segunda: sem proibição absoluta, mas com quatro linhas vermelhas.

As quatro situações que a OMS manda evitar

1. Gravidez. A acupuntura pode induzir trabalho de parto. Segundo o documento, agulhar certos pontos com determinado modo de manipulação pode causar contrações uterinas fortes e induzir aborto. A tradição contraindica, no primeiro trimestre, pontos do baixo ventre e da região lombossacral; após o terceiro mês, pontos do abdome superior e da região lombossacral, pontos que provoquem sensações fortes e pontos auriculares que também possam induzir o parto.

2. Emergências médicas e condições cirúrgicas. O texto é categórico: a acupuntura é contraindicada em emergências, nas quais se aplica primeiro socorro e se providencia transporte para um serviço de emergência. E acrescenta que ela não deve ser usada para substituir uma intervenção cirúrgica necessária.

3. Tumores malignos. A acupuntura não deve ser usada para tratar tumores malignos, e o agulhamento no sítio do tumor deve ser proibido. O mesmo parágrafo abre exceção clara: pode ser usada como medida complementar, combinada a outros tratamentos, para alívio de dor e outros sintomas e para atenuar efeitos adversos de quimioterapia e radioterapia, melhorando qualidade de vida.

4. Distúrbios de sangramento. O agulhamento deve ser evitado em pacientes com distúrbios de sangramento e de coagulação, em terapia anticoagulante ou usando medicamentos com efeito anticoagulante. Essa última expressão é mais ampla do que parece e é a que costuma passar em branco na anamnese.

Por que “não há contraindicação absoluta” não afrouxa nada

A frase de abertura da seção existe porque a OMS reconhece que a acupuntura tem, nas palavras do documento, uma “ação reguladora” que dificulta listas fechadas. Ela não é permissão para ignorar as quatro situações acima, e é assim que o próprio documento a usa: a ressalva vem imediatamente seguida da lista.

O padrão vale para qualquer texto normativo de saúde. Contraindicação que se sustenta por ausência de dado, e não por dano provado, continua sendo contraindicação enquanto o dado não existir.

A eletroacupuntura tem uma lista própria, e mais longa

Quando entra corrente elétrica na agulha, a lista muda. A seção sobre estimulação elétrica da mesma diretriz afirma que ela é potencialmente danosa e contraindicada:

  • na gravidez;
  • se o paciente tem marca-passo;
  • se há falta de sensibilidade cutânea;
  • em casos de circulação prejudicada, doença arterial grave, febre não diagnosticada ou lesões cutâneas graves.

O documento pede monitoramento cuidadoso da estimulação para prevenir lesão neural e limita o uso de corrente galvânica a períodos muito curtos. Para a laserterapia de baixa energia, alerta para risco ocular e recomenda óculos de proteção para paciente e operador.

Cuidados que não são contraindicação, mas mudam a conduta

  • Assepsia, sempre. A negligência com técnica asséptica pode causar infecção local, “especialmente na terapia de acupuntura auricular” — a orelha é nomeada expressamente. A diferença de risco entre a agulha no corpo e o ponto na orelha está detalhada em auriculoterapia para que serve.
  • Áreas de linfedema. O agulhamento deve ser evitado nelas.
  • Moxabustão. Exige cuidado especial em pessoas com nível de consciência reduzido, distúrbio sensitivo, transtornos psicóticos, dermatite purulenta ou em áreas de circulação prejudicada; e não deve ser aplicada de forma direta na face ou sobre tendões e grandes vasos.
  • Agulha estéril e descartável. O NCCIH registra que, embora poucas complicações tenham sido relatadas, elas resultaram do uso de agulhas não estéreis e de aplicação imprópria — incluindo infecções, perfuração de órgãos e lesão do sistema nervoso central. Nos Estados Unidos, a FDA exige que as agulhas sejam estéreis e rotuladas para uso único.

Para dimensionar: na revisão cumulativa de White, que reuniu 715 eventos adversos e dados de 12 estudos prospectivos somando mais de um milhão de tratamentos, o risco de evento adverso grave foi estimado em 0,05 por 10.000 tratamentos. Baixo — e não zero. Os traumas mais comuns foram pneumotórax e lesão do sistema nervoso central, e mais de 60% das infecções relatadas eram hepatite B, o que reforça por que a agulha de uso único não é detalhe.

O que dizer antes da primeira sessão

Leve por escrito e diga em voz alta: gravidez ou suspeita, uso de anticoagulante ou de qualquer medicamento com efeito anticoagulante, marca-passo, diagnóstico oncológico em tratamento, história de convulsão, doença de pele ativa e episódios de desmaio.

Se depois de uma sessão aparecer falta de ar, dor no peito, tosse, febre, vermelhidão e calor no ponto agulhado ou perda de força, procure atendimento no mesmo dia — nada disso é reação esperada. O que é reação esperada, com números, está em acupuntura dói?.

Perguntas frequentes

Grávida pode fazer acupuntura?

A OMS lista a gravidez como situação a evitar, porque agulhar certos pontos com determinada manipulação pode provocar contrações uterinas fortes. No primeiro trimestre, a tradição contraindica pontos do baixo ventre e da região lombossacral; após o terceiro mês, pontos do abdome superior e auriculares que possam induzir trabalho de parto.

Quem toma anticoagulante pode?

A diretriz da OMS diz que o agulhamento deve ser evitado em pacientes com distúrbios de sangramento e de coagulação, em terapia anticoagulante ou usando medicamentos com efeito anticoagulante. Isso inclui remédios que a pessoa nem sempre lembra de citar, e por isso a lista de uso precisa ser mostrada por escrito.

Quem tem câncer pode fazer?

A OMS proíbe agulhar o sítio do tumor e diz que a acupuntura não deve ser usada para tratar tumores malignos. Ela admite o uso como medida complementar, junto a outros tratamentos, para alívio de dor e de outros sintomas e para atenuar efeitos de quimioterapia e radioterapia.

Marca-passo impede a acupuntura?

Impede a eletroacupuntura. A contraindicação da OMS ao marca-passo aparece na seção de estimulação elétrica, não na de agulhamento simples. Quem tem marca-passo precisa dizer isso antes da sessão, porque muda a técnica que pode ser usada.

Tenho medo de agulha e já desmaiei tirando sangue. Posso?

Não é contraindicação, é motivo de precaução. A OMS recomenda que quem vai receber acupuntura pela primeira vez seja tratado deitado e com manipulação suave, e lista nervosismo, fome, fadiga e posição inadequada entre as causas de desmaio. Avise antes e não vá em jejum.

Fontes

  1. World Health Organization. Guidelines on Basic Training and Safety in Acupuncture (WHO/EDM/TRM/99.1), Genebra, 1999 — a seção 2, que afirma ser difícil estipular contraindicações absolutas e mesmo assim nomeia quatro situações a evitar (gravidez, emergências médicas e condições cirúrgicas, tumores malignos e distúrbios de sangramento ou uso de anticoagulante), a seção 4 sobre estimulação elétrica com sua lista própria de contraindicações, e as seções 3.8 e 3.9 sobre infecção local e moxabustão
  2. National Center for Complementary and Integrative Health (NIH). Acupuncture: Effectiveness and Safety — o registro de que poucas complicações foram relatadas, mas que houve complicações decorrentes do uso de agulhas não estéreis e de aplicação imprópria, incluindo infecções, perfuração de órgãos e lesão do sistema nervoso central, e a exigência da FDA de agulhas estéreis e de uso único
  3. White A. A cumulative review of the range and incidence of significant adverse events associated with acupuncture. Acupunct Med. 2004;22(3):122-33 (PMID 15551936) — os 715 eventos adversos reunidos, com pneumotórax e lesão do sistema nervoso central como traumas mais comuns, hepatite B em mais de 60% das infecções, e o risco estimado de evento adverso grave de 0,05 por 10.000 tratamentos

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026