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Guia da Saúde

Acupuntura dói? O que 229 mil pacientes relataram

Dói pouco, e menos do que a maioria imagina — mas o dado interessante é outro: dor não é o efeito mais comum da acupuntura. No maior levantamento prospectivo já publicado sobre segurança, com 229.230 pacientes, dor foi relatada por 1,7% deles. Sangramento e hematoma, por 6,1%. Ou seja, é três vezes mais provável sair com uma marca roxa do que com queixa de dor.

O que 229 mil pacientes relataram

O estudo alemão de Witt e colaboradores, publicado em 2009, acompanhou pacientes tratados com acupuntura dentro do sistema de saúde convencional, para dor de artrose de joelho ou quadril, lombalgia, cervicalgia, cefaleia, rinite alérgica, asma e dismenorreia. Cada um registrou os efeitos percebidos após o tratamento.

Efeito relatadoProporção dos pacientes
Ao menos um efeito adverso8,6%
Efeito que exigiu algum tratamento2,2%
Sangramento ou hematoma6,1% (58% de todos os efeitos)
Dor1,7%
Sintomas vegetativos (mal-estar, tontura)0,7%

Dois eventos graves apareceram em todo o conjunto: dois pneumotórax, um deles com necessidade de internação e o outro apenas de observação. O efeito de duração mais longa registrado foi uma lesão nervosa em membro inferior, que durou 180 dias. São números pequenos, e são reais — vale conhecê-los antes, não depois.

Deqi não é dor, e a OMS faz questão de separar

A sensação que a maioria sente e descreve mal — um peso surdo, um formigamento, um “dolorimento” que se espalha do ponto — tem nome técnico e não é dor. A diretriz de segurança da Organização Mundial da Saúde descreve a “sensação de acupuntura” de dolorimento, formigamento e peso, indicando a chegada do qi ao ponto (deqi), e diz que ela deve ser distinguida das reações dolorosas.

A distinção é prática, não filosófica: deqi é esperado e não pede intervenção; dor franca pede correção da agulha. Quem confunde os dois tende a aguentar calado o que deveria comunicar — e a descrever mal o que sente. Um vocabulário melhor para isso está em como descrever a dor para o médico e em escala de dor de 0 a 10.

Quando dói, quase sempre há um motivo técnico

A seção 3.5 da diretriz da OMS é direta ao atribuir causa. Dor durante a inserção é atribuída a técnica desajeitada ou a agulhas rombas, com a ponta em gancho, ou grossas — e o texto afirma que “na maioria dos pacientes, a penetração rápida e habilidosa da agulha através da pele é indolor”.

Depois disso, o documento mapeia os outros momentos:

  • dor com a agulha já profunda pode ser o contato com fibras nervosas de dor; a conduta é recuar a agulha até logo abaixo da pele e reinserir em outra direção;
  • dor à rotação costuma vir de a agulha se enredar em tecido fibroso; resolve-se girando suavemente de volta;
  • dor com a agulha parada costuma ser a agulha entortando porque o paciente se mexeu; resolve-se retomando a posição original;
  • dor após a retirada é atribuída a manipulação sem perícia ou estímulo excessivo.

A leitura útil dessa lista é uma só: dor persistente durante a sessão é informação, não heroísmo. Avisar permite corrigir; calar não melhora nada.

O que costuma incomodar mais que a agulhada

Na revisão Cochrane de 2020 sobre lombalgia crônica, os eventos adversos mais frequentemente relatados nos grupos de acupuntura foram, nesta ordem: dor no ponto de inserção, equimose, hematoma, sangramento, piora da lombalgia e dor em outros locais (perna e ombro). A mesma revisão não encontrou diferença relevante na frequência de eventos entre acupuntura verdadeira e simulada.

Em outras palavras: o desconforto típico é local, superficial e passageiro. O que realmente exige atenção antes da primeira sessão não é a dor — são as situações em que a agulha não deveria ser usada, reunidas em contraindicações da acupuntura. E quantas sessões esperar, e por quanto tempo o efeito dura, está em acupuntura: quantas sessões.

Se aparecer falta de ar, dor no peito ou tosse depois de uma sessão — sobretudo se as agulhas foram colocadas em tórax, costas ou fossa supraclavicular — isso não é reação comum e é motivo para procurar atendimento no mesmo dia.

Perguntas frequentes

É normal sentir peso, formigamento ou dormência?

É esperado. A diretriz da OMS descreve essa sensação de dolorimento, formigamento e peso como a sensação de acupuntura, chamada deqi, e diz expressamente que ela deve ser distinguida de reações dolorosas. Sentir alguma coisa no ponto é diferente de sentir dor.

Fico com marca roxa depois?

Pode ficar, e é o efeito mais comum de todos. No estudo com 229.230 pacientes, sangramento ou hematoma apareceu em 6,1% — sozinho, respondeu por 58% de todos os efeitos adversos relatados. É desconforto estético e local, não sinal de erro grave.

Dá para desmaiar durante a sessão?

É possível, e a OMS dedica uma seção inteira ao tema. Costuma acontecer por nervosismo, fome, cansaço, fraqueza ou posição inadequada, e a recomendação é a primeira sessão ser feita deitado. Avise se estiver em jejum ou se já desmaiou em coleta de sangue.

A agulha é igual à da injeção?

Não em finalidade nem em calibre habitual, mas a OMS compara o gesto ao de uma injeção subcutânea ou intramuscular ao discutir risco, porque também há penetração da pele. É por isso que a exigência de agulha estéril, descartável e de uso único vale integralmente.

Fontes

  1. Witt CM, Pach D, Brinkhaus B, Wruck K, Tag B, Mank S, Willich SN. Safety of acupuncture: results of a prospective observational study with 229,230 patients and introduction of a medical information and consent form. Forsch Komplementmed. 2009;16(2):91-7 (PMID 19420954) — o estudo observacional prospectivo em que 8,6% dos pacientes relataram ao menos um efeito adverso, 2,2% um efeito que exigiu tratamento, 6,1% sangramento ou hematoma (58% de todos os efeitos), 1,7% dor e 0,7% sintomas vegetativos
  2. World Health Organization. Guidelines on Basic Training and Safety in Acupuncture (WHO/EDM/TRM/99.1), Genebra, 1999 — a seção 3.5 sobre dor, que atribui a dor na inserção a técnica desajeitada ou a agulhas rombas, com ponta em gancho ou grossas, afirma que na maioria dos pacientes a penetração rápida e habilidosa é indolor, e separa a sensação de acupuntura (deqi) das reações dolorosas; e a seção 3.3, sobre desmaio
  3. Mu J, Furlan AD, Lam WY, Hsu MY, Ning Z, Lao L. Acupuncture for chronic nonspecific low back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2020;12(12):CD013814 (PMID 33306198) — a lista de eventos adversos mais relatados nos grupos de acupuntura: dor no ponto de inserção, equimose, hematoma, sangramento, piora da lombalgia e dor em outros locais

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026