Alecrim: efeitos colaterais registrados nas monografias
A monografia europeia do alecrim, revisada em 2024, lista uma única reação adversa: hipersensibilidade, na forma de dermatite de contato, com frequência desconhecida. E registra, na seção de interações medicamentosas, duas palavras: “None reported”. O Formulário brasileiro é mais extenso — e dá para rastrear de onde vem cada item a mais.
O que cada documento registra
| Efeito | Formulário brasileiro (FT068) | Monografia europeia (rev. 1, 2024) |
|---|---|---|
| Dermatite / hipersensibilidade | sim | sim — a única listada na seção 4.8 |
| Episódios de asma | sim, creditado à EMA de 2010 | não consta na revisão vigente |
| Alteração do sono se usado à noite | sim | não consta |
| Redução do limiar convulsígeno em epilépticos | sim, creditado a Pereira et al. 2014 | não consta |
| Ardência ou alteração de paladar | não consta | não consta |
| Interações medicamentosas | nenhuma listada | ”None reported” (seção 4.5) |
| Casos de superdosagem | não consta | nenhum relatado (seção 4.9) |
A divergência sobre a asma, e o que fazer com ela
O Formulário escreve: “Esse medicamento pode desencadear quadros de dermatite e episódios de asma (EMA, 2010).” A referência é a versão de 2010 da monografia europeia — a que estava em vigor quando o texto brasileiro foi montado.
Só que a monografia europeia foi revisada e reeditada em 29 de maio de 2024, e a seção 4.8 da versão vigente registra apenas “Immune system disorders: Hypersensitivity (contact dermatitis). The frequency is not known.” Asma não aparece.
Registrar isso não é o mesmo que descartar a advertência. Uma reação sair de uma revisão pode significar reavaliação da evidência, e pode significar reorganização do texto. O que a página faz é publicar o dado correto e manter a conduta: quem tem asma e resolve usar alecrim está usando uma planta que uma agência sanitária já associou a episódios asmáticos, e a orientação do Formulário continua sendo suspender o uso diante de qualquer evento adverso.
”None reported” não é “não existe”
A seção 4.5 da monografia europeia — interações com outros medicamentos e outras formas de interação — tem duas palavras: None reported. É um dado incomum e vale publicar, porque a internet em português costuma atribuir ao alecrim interação com anticoagulante, com anti-hipertensivo e com anticoncepcional, sem citar fonte.
O sentido técnico dessa expressão é estreito: nenhuma interação foi relatada nos dados avaliados pelo comitê. Não é um teste que deu negativo. E o próprio Formulário brasileiro contorna esse vazio por outro caminho, pedindo cautela em hipertensos, diabéticos e portadores de adenoma prostático — cautela que é dirigida à condição, não a um medicamento específico. Quem toma remédio de uso contínuo leva a pergunta a quem prescreve.
Os dois efeitos que só o documento brasileiro traz
Sono. O Formulário registra que a preparação “pode alterar o sono se utilizada à noite, antes de dormir”. É uma advertência curta, e a mais prática de todas: derruba a ideia de chá de alecrim como bebida de encerrar o dia.
Convulsão. O documento registra que a preparação “pode reduzir o limiar convulsígeno em pacientes epilépticos”, creditando a Pereira et al. 2014 — o Formulário fitoterápico farmácia da natureza, uma obra brasileira de fitoterapia, não um ensaio clínico. É a referência mais frágil da lista, e ainda assim a de conduta mais séria: reduzir limiar convulsígeno em quem tem epilepsia é um risco que não se assume para tratar dispepsia.
O que fazer se algo acontecer
A instrução do Formulário é literal e vale para qualquer sintoma novo: “Em caso de aparecimento de eventos adversos, suspender o uso do produto e consultar um médico.” Somando à regra de nunca utilizar em doses acima das recomendadas e ao teto de duas semanas de uso oral, esse é o protocolo completo do documento — não há nada além disso escrito.
A dose correta está em chá de alecrim, a preparação alcoólica em tintura de alecrim, a lista de quem não deve usar em quem não pode tomar alecrim e o panorama da espécie em alecrim.
O alecrim-pimenta tem reações completamente diferentes
Não confunda os dois. O alecrim-pimenta é outra espécie, de uso externo, e suas reações registradas são de mucosa — ardência e alteração de paladar após bochecho —, com números de frequência que vieram de ensaio clínico. Está em alecrim-pimenta: efeitos colaterais.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e é justamente isso que este cluster publica.
Perguntas frequentes
Chá de alecrim pode dar dor de cabeça ou enjoo?
Nenhuma das duas monografias lista cefaleia ou náusea entre as reações adversas do alecrim. A única reação registrada na seção específica do documento europeu é hipersensibilidade, na forma de dermatite de contato. Isso não significa que ninguém passe mal: significa que, se acontecer, é evento não descrito, e a orientação do Formulário é suspender o uso e procurar um médico.
Existe overdose de chá de alecrim?
A seção 4.9 da monografia europeia registra que nenhum caso de superdosagem foi relatado. Isso não é uma autorização para exagerar: o Formulário brasileiro determina expressamente não utilizar em doses acima das recomendadas, e a dose diária de referência é de 2 a 6 gramas de folha. Não haver caso relatado costuma refletir ausência de relato, não segurança testada em dose alta.
Alecrim faz mal ao fígado?
Os documentos não descrevem lesão hepática causada por alecrim. O que eles fazem é o inverso: colocam quem já tem doença hepática, colangite ou obstrução biliar na lista de quem precisa de supervisão médica para usar. É uma precaução dirigida a quem já tem o problema, e não a descrição de um dano provocado pela planta em quem tem fígado saudável.
Quanto tempo depois de parar as reações somem?
Os documentos não publicam tempo de resolução para nenhuma das reações listadas. O que o Formulário determina é a conduta: em caso de aparecimento de eventos adversos, suspender o uso do produto e consultar um médico. Reação de hipersensibilidade não é evento para observar em casa por dias esperando passar.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT068, Rosmarinus officinalis L.: as reações de dermatite e episódios de asma creditadas à EMA de 2010, a alteração do sono quando usado à noite, a redução do limiar convulsígeno em epilépticos creditada a Pereira et al. 2014, e a ordem de suspender o uso diante de evento adverso
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Rosmarinus officinalis L., folium, revisão 1 de 29/05/2024, seções 4.5, 4.8 e 4.9: a única reação adversa listada (hipersensibilidade, dermatite de contato, frequência desconhecida), o registro de None reported para interações medicamentosas e a ausência de casos de superdosagem
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026