Alecrim: para que serve segundo a Anvisa e a EMA
A monografia FT068 do Formulário de Fitoterápicos da Anvisa registra uma única finalidade para o alecrim por via oral: auxiliar no alívio de sintomas dispépticos e nas desordens espasmódicas leves do trato gastrointestinal. Memória e queda de cabelo não aparecem — nem no documento brasileiro, nem na monografia europeia revisada em 2024.
As três fórmulas do Formulário, e o que muda entre elas
O documento brasileiro descreve três preparações. Elas mudam de concentração, de solvente e de público — e, num detalhe que praticamente ninguém publica, também mudam de texto de indicação:
| Fórmula | Composição | Quem pode | Para que a Anvisa reconhece |
|---|---|---|---|
| 1 — preparação extemporânea | 1 a 2 g de folha, água q.s.p. 150 a 250 mL | adulto e pediátrico acima de 12 anos | sintomas dispépticos e desordens espasmódicas leves do trato gastrointestinal |
| 2 — tintura | 10 a 20 g de folha, álcool a 70% q.s.p. 100 mL | uso adulto | sintomas dispépticos |
| 3 — extrato fluido | 100 g de folha, álcool a 45% 100 mL (1:1) | uso adulto | sintomas dispépticos e desordens espasmódicas leves |
Repare na linha do meio. A tintura recebe a indicação mais curta das três, sem a parte dos espasmos — e é a única fórmula cuja indicação não é creditada à agência europeia, e sim a quatro obras de fitoterapia (Hoffmann 2003, Vanaclocha & Cañigueral 2006, Alonso 2007 e Pereira 2014). A diferença é pequena no papel e grande na leitura: a mesma planta, no mesmo documento, tem duas descrições de uso conforme a forma farmacêutica. O destrinchado está em alecrim para má digestão e a preparação alcoólica em tintura de alecrim.
A indicação europeia que não atravessou o Atlântico
A monografia da EMA para a folha de alecrim foi revisada em 29 de maio de 2024 e tem duas indicações, não uma:
- Uso oral — alívio sintomático de dispepsia e distúrbios espasmódicos leves do trato gastrointestinal. É a que o Formulário brasileiro adotou.
- Aditivo de banho — alívio de dor muscular e articular menor e de distúrbios circulatórios periféricos menores. São 50 g em decocção com 1 litro de água fervente, ou direto na banheira, duas a três vezes por semana; o banho recomendado é de 35 a 38 °C, por 10 a 20 minutos, e o prazo para procurar médico se os sintomas persistirem é de 4 semanas, contra 2 semanas do uso oral.
A segunda indicação não tem fórmula correspondente no Formulário brasileiro. Quem no Brasil usa alecrim para dor muscular está usando algo que existe na regulação europeia e não existe na brasileira — e, mesmo lá, com uma quantidade (50 g) que não se parece em nada com a de uma xícara.
Há um ponto que vale para as duas indicações: na monografia europeia, a coluna de uso bem estabelecido — a reservada às indicações com ensaio clínico — está vazia da primeira à última seção. Tudo o que existe ali é uso tradicional, categoria aceita pelo tempo de uso e não por eficácia demonstrada.
Memória e queda de cabelo: o que os documentos dizem
Dito sem ironia e sem rodeio: nada. Memória, concentração, cognição, cabelo e couro cabeludo não aparecem em nenhuma linha das duas monografias. Não é omissão de espaço — a monografia europeia lista, uma a uma, as formas farmacêuticas, as indicações, as reações e até as interações, e nenhuma dessas seções menciona esses assuntos.
A alegação capilar tem uma origem rastreável: um ensaio comparativo publicado em 2015 na Skinmed (PMID 25842469) que dividiu 100 pessoas com alopecia androgenética entre óleo essencial de alecrim aplicado no couro cabeludo e minoxidil a 2%, por 6 meses. Os dois grupos aumentaram a contagem de fios aos 6 meses em relação ao início, sem diferença entre eles — e o estudo não teve grupo placebo, o que impede separar o efeito do produto do efeito do tempo e do cuidado. Mesmo que tivesse: óleo essencial na pele não é folha seca na xícara, e nenhum dos dois reguladores transformou aquilo em indicação.
O nome científico mudou de gênero
As duas monografias usam Rosmarinus officinalis L., e é assim que ele aparece nos rótulos. Mas na classificação atual do World Flora Online (versão 2026-06), esse nome está posicionado sob Salvia rosmarinus Spenn., da família Lamiaceae — o alecrim foi absorvido pelo gênero das sálvias. Rótulo escrito Salvia rosmarinus é a mesma planta da monografia, não uma substituição.
Alecrim e alecrim-pimenta são plantas diferentes
O nome quase igual esconde duas espécies que não têm parentesco próximo nem uso comum. O alecrim-pimenta é Lippia sidoides Cham., da família Verbenaceae, e sua monografia registra uso externo apenas — bochecho, embrocação e sabonete de couro cabeludo. Não existe chá de alecrim-pimenta no Formulário. Quem trocar uma planta pela outra na xícara está usando um antisséptico de uso tópico por via oral.
O que vem antes de experimentar
O alecrim tem lista de restrição maior do que a fama de tempero inofensivo sugere: gestação e lactação estão fora, e o documento pede supervisão médica em doença hepática, colangite e obstrução biliar, além de cautela em hipertensos, diabéticos, portadores de adenoma prostático e epilépticos. O quadro completo está em quem não pode tomar alecrim, com o motivo declarado da restrição na gravidez em alecrim na gravidez, as idades em alecrim para crianças e as reações em alecrim: efeitos colaterais.
Para a proporção e o número de xícaras, veja chá de alecrim. A composição do alecrim como tempero é outro assunto e está em tabela nutricional de temperos e ervas.
Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e é justamente isso que este cluster publica. O índice das espécies já cobertas fica em plantas medicinais.
Perguntas frequentes
Alecrim de cozinha e alecrim de farmácia são a mesma planta?
São a mesma espécie, mas não a mesma coisa na prática. O Formulário descreve folha seca e rasurada, pesada em gramas, para preparações medicinais com dose, duração e advertência. O ramo fresco usado como tempero é a mesma planta em quantidade e contexto diferentes, e nenhuma das duas monografias consultadas trata de uso culinário nem estabelece limite para ele.
Alecrim tem cafeína ou é estimulante?
Alecrim não contém cafeína. O Formulário de Fitoterápicos registra, porém, que a preparação pode alterar o sono se utilizada à noite, antes de dormir, e por isso a advertência existe. Não é um efeito estimulante medido em ensaio: é uma advertência de uso que consta do documento e vale a pena respeitar.
Existe alecrim-do-campo? É a mesma planta?
Não. O Formulário de Fitoterápicos registra sob o nome alecrim apenas Rosmarinus officinalis L. Nomes populares como alecrim-do-campo e alecrim-de-vassoura se referem a outras espécies brasileiras, que não têm monografia neste documento — e, portanto, não têm dose, indicação nem advertência oficiais publicadas aqui.
Precisa de receita para comprar alecrim?
A folha seca vendida como droga vegetal não exige receita. O que muda é o produto industrializado registrado como fitoterápico, cuja categoria de venda vem definida na bula, e as preparações alcoólicas manipuladas em farmácia. Não precisar de receita não elimina contraindicação: a monografia proíbe o uso na gestação, na lactação e abaixo dos 12 anos.
Fontes
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT068, Rosmarinus officinalis L.: as três fórmulas (infuso de 1 a 2 g em 150 a 250 mL; tintura de 10 a 20 g em álcool a 70% q.s.p. 100 mL; extrato fluido 1:1 com álcool a 45%), a indicação de sintomas dispépticos, a via oral única e a idade mínima de 12 anos para o infuso
- European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Rosmarinus officinalis L., folium, revisão 1 adotada em 29/05/2024: a coluna de uso bem estabelecido vazia em todas as seções, a segunda indicação como aditivo de banho (50 g em 1 L, banho de 35 a 38 °C por 10 a 20 minutos) e a ausência de qualquer indicação cognitiva ou capilar
- World Flora Online (versão de classificação 2026-06) — o nome Rosmarinus officinalis L. está posicionado sob Salvia rosmarinus Spenn., família Lamiaceae, que é o nome aceito atual da espécie
- Panahi Y, Taghizadeh M, Marzony ET, Sahebkar A. Rosemary oil vs minoxidil 2% for the treatment of androgenetic alopecia: a randomized comparative trial. Skinmed. 2015;13(1):15-21 (PMID 25842469) — o ensaio de 6 meses com óleo essencial de alecrim no couro cabeludo, sem braço placebo, que é a origem da alegação capilar
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026