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Guia da Saúde

Tintura de alecrim: fórmula, dose e por que só no Brasil

A tintura de alecrim do Formulário de Fitoterápicos é 10 a 20 g de folha em álcool etílico a 70%, q.s.p. 100 mL, e a dose é de 3 a 8,5 mL ao dia, diluídos em 50 mL de água. Uso adulto. Há ainda uma terceira fórmula, o extrato fluido, com números completamente diferentes — e uma constatação que muda a leitura das duas: nenhuma das duas existe na monografia europeia.

As duas preparações alcoólicas, lado a lado

Tintura (fórmula 2)Extrato fluido (fórmula 3)
Folha10 a 20 g100 g
Solventeálcool etílico a 70% q.s.p. 100 mLálcool etílico a 45%, 100 mL
Proporção1:10 a 1:51:1
Técnicasecagem e preparo de tintura conforme Generalidadesmaceração
Conservantenão mencionadorecomendado, pelo baixo teor alcoólico
Dose diária3 a 8,5 mL2 a 4 mL
Indicaçãosintomas dispépticossintomas dispépticos e espasmos leves do trato gastrointestinal

Duas coisas saltam dessa tabela. A primeira é a concentração: o extrato fluido é uma proporção 1:1, cinco vezes mais concentrado que a tintura mais forte (1:5) e dez vezes mais que a mais fraca (1:10) — e por isso a dose diária dele é menor, de 2 a 4 mL contra 3 a 8,5 mL. A segunda é que a tintura recebe a indicação mais curta das três fórmulas da monografia, sem a parte dos espasmos, e é a única cuja indicação não é creditada à agência europeia, e sim a quatro obras de fitoterapia.

O 8,5 que denuncia uma conversão

Doses em monografia costumam ser números redondos. Aqui o teto é 8,5 mL, creditado a Vanaclocha & Cañigueral 2006 — um vademécum espanhol de prescrição. É a marca de um valor que veio de outra unidade e foi convertido, não de um número escolhido para caber na colher.

Isso importa na prática: 8,5 mL não é meia colher de sopa nem “um tanto”. Uma dose que carrega uma casa decimal precisa de seringa dosadora ou de conta-gotas calibrado, e a amplitude do intervalo — de 3 a 8,5 mL, quase três vezes — significa que a definição de quanto usar dentro dessa faixa é do profissional que prescreve, não de quem prepara.

Por que a tintura de alecrim é uma forma brasileira

Este é o dado que só esta página traz. A monografia europeia da folha de alecrim registra, na seção de preparações vegetais, apenas a droga rasurada; e na seção de forma farmacêutica, apenas “comminuted herbal substance as herbal tea for oral use and use as bath additive” — chá para uso oral e aditivo de banho.

Ou seja: não há tintura nem extrato fluido de alecrim na regulação europeia. As duas fórmulas alcoólicas do Formulário brasileiro se apoiam em outras fontes — Vanaclocha & Cañigueral 2006, Hoffmann 2003, Alonso 2007 e Pereira et al. 2014 — que são obras de fitoterapia, não avaliações de comitê regulatório. É o inverso do que acontece com o chá, cuja fórmula e cuja dose batem número por número com as europeias, como se vê em chá de alecrim.

Não é um argumento para desprezar a tintura: ela está no Formulário oficial brasileiro, com fórmula, dose e advertência. É um argumento para saber qual é o lastro de cada forma antes de escolher uma delas.

Sempre diluída, sempre adulto

As duas fórmulas mandam diluir em 50 mL de água antes de tomar, e as duas estão marcadas como uso adulto — sem faixa pediátrica, ao contrário do infuso, liberado a partir dos 12 anos. A diferença de público entre as fórmulas está detalhada em alecrim para crianças.

O teor alcoólico não é detalhe: 70% e 45% são concentrações que, por si só, tiram da conversa quem não pode ingerir álcool. Some-se a isso a contraindicação a gestantes e lactantes e o conjunto de condições hepáticas e biliares que exigem supervisão médica, tudo em quem não pode tomar alecrim.

Armazenamento, que a monografia especifica

Para tintura e extrato fluido, o documento é objetivo: frasco de vidro âmbar. A embalagem deve proteger de contaminação, luz e umidade, e apresentar lacre ou selo de segurança. Não é o mesmo vidro transparente de conserva que costuma aparecer em receita caseira.

A indicação que essas fórmulas atendem está em alecrim para má digestão, e o panorama da espécie, com as três fórmulas comparadas, em alecrim.

Planta medicinal tem dose, contraindicação e interação — e é justamente isso que este cluster publica.

Perguntas frequentes

Quanto tempo a folha fica macerando na tintura de alecrim?

A monografia não fixa um número de dias para o alecrim: ela manda seguir as técnicas de secagem do material vegetal e de preparo de tintura descritas na seção de Generalidades do próprio Formulário. Ou seja, o tempo não é uma escolha de quem prepara nem um dado que se possa deduzir da fórmula, e sim uma técnica farmacêutica padronizada em outro capítulo do documento.

Por que o extrato fluido precisa de conservante e a tintura não?

Porque o álcool é o conservante. A tintura usa álcool etílico a 70% e o extrato fluido, a 45%. A própria monografia justifica: em razão do baixo teor alcoólico da formulação, é recomendada a utilização de conservantes no extrato fluido. É a mesma planta e o mesmo solvente, em concentrações que mudam a estabilidade do produto.

Tintura de alecrim pode ser usada na pele ou no cabelo?

Não pelo Formulário. O modo de usar das fórmulas 2 e 3 registra uso oral, com diluição em 50 mL de água, e não há fórmula de uso externo para alecrim no documento brasileiro. Tintura aplicada no couro cabeludo é outra prática, sem respaldo nessa monografia — e quem procura uma tintura de uso externo está pensando em outra espécie, o alecrim-pimenta.

Dá para trocar a tintura pelo chá na mesma dose?

Não existe equivalência publicada entre as três fórmulas. Cada uma tem concentração, veículo e dose próprias, e a monografia não fornece fator de conversão entre elas. Quem quiser trocar de forma farmacêutica volta ao começo: lê a fórmula da nova preparação e usa a dose que consta ali.

Fontes

  1. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — monografia FT068, Rosmarinus officinalis L., fórmulas 2 e 3: a tintura de 10 a 20 g de folha em álcool etílico a 70% q.s.p. 100 mL com dose de 3 a 8,5 mL ao dia, e o extrato fluido 1:1 em álcool a 45% com dose de 2 a 4 mL ao dia, ambos diluídos em 50 mL de água e ambos de uso adulto
  2. European Medicines Agency (HMPC) — European Union herbal monograph on Rosmarinus officinalis L., folium, revisão 1 de 29/05/2024, seções 2 e 3: a única preparação vegetal registrada é a droga rasurada, e as únicas formas farmacêuticas são o chá para uso oral e o aditivo de banho, sem tintura nem extrato fluido

Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 3 de agosto de 2026