Perigo do chá de arruda: útero, fígado, rim e pele
A arruda (Ruta graveolens) não está entre as 85 espécies avaliadas pelo Formulário de Fitoterápicos da Anvisa. Não há fórmula, dose, indicação, faixa etária nem tempo de uso registrados para ela no documento oficial brasileiro de plantas medicinais — o que não é o mesmo que liberdade: é ausência de avaliação.
O que existe sobre ela é de outra natureza. É um monográfico de informação toxicológica, o PIM 475 do Programa Internacional de Segurança Química (IPCS/OMS), e uma linha de relatos de caso na literatura médica.
O uso mais frequente é o que produz os casos
O PIM 475 é direto sobre para que a planta é usada de propósito: “o uso intencional mais frequente da planta tem sido a indução de aborto”. E descreve o que acompanha esse efeito em gestantes — dor hipogástrica, hemorragia uterina e aborto, atribuídos à metil-nonil-cetona do óleo essencial, que induz contração uterina e congestão pélvica.
O ponto que quase nunca é dito: o efeito abortivo não é seletivo. A quantidade capaz de agir sobre o útero é a mesma que age sobre fígado, rim e sistema nervoso central — os quatro órgãos-alvo listados no monográfico. Não existe um caminho em que só a primeira coisa acontece.
Por isso a arruda pertence à mesma conversa de chás que não pode na gravidez, mas por um motivo diferente do resto da lista: as plantas do Formulário são contraindicadas na gestação por falta de dados; a arruda tem dado, e o dado é de dano.
A sequência da intoxicação
O monográfico descreve o curso do envenenamento em duas fases:
- Digestiva — dor epigástrica, vômitos e salivação.
- Sistêmica — excitação, convulsões, hipotensão, bradicardia e choque.
O relato de caso publicado em 2007 na Clinical Toxicology mostra como isso se apresenta no pronto-socorro: uma mulher de 78 anos tomou decocção da planta durante três dias para palpitações e desenvolveu bradicardia, insuficiência renal aguda com hipercalemia e coagulopatia. Precisou de hemodiálise. Os autores encerram com a expressão que resume o problema: o uso de Ruta pode causar toxicidade multiorgânica.
Três dias. Não é um caso de abuso prolongado — é a duração de um chá que alguém tomou achando que estava se cuidando.
O risco que age sem ninguém beber nada
Este é o dado menos conhecido da arruda. As furocumarinas da planta — bergapteno e xantoxina, os mesmos psoralenos usados em fototerapia dermatológica — são fotoativas. Em contato com a pele, sob luz solar, produzem eritema, bolhas e hiperpigmentação que pode durar meses.
O monográfico registra relatos de dermatite fototóxica em adultos e em crianças que simplesmente manusearam a planta fresca e depois foram para o sol. Ou seja: um arbusto de arruda no quintal é uma exposição em si, independentemente de qualquer chá.
O que fazer se alguém tomou
Procure atendimento imediatamente — e leve a planta ou uma foto dela. Chame o serviço de emergência se houver sangramento vaginal, dor abdominal intensa, vômitos repetidos, convulsão, batimento cardíaco lento, tontura ou desmaio, redução da urina, ou pele e olhos amarelados. Em gestante, qualquer um desses sinais é urgência.
O Disque-Intoxicação da Anvisa (0800 722 6001) funciona 24 horas, é gratuito e orienta o que fazer enquanto você se desloca. Não provoque vômito por conta própria.
Se a pele foi exposta: lave com água e sabão, proteja do sol e procure avaliação — a reação fototóxica pode aparecer horas depois.
A outra planta de uso corrente no Brasil que ficou de fora das 85 espécies, e pelo mesmo tipo de motivo, está em perigo do chá de poejo. O caso da planta que está no Formulário mas sem nenhuma fórmula para beber é o de confrei pode tomar?. E o mapa geral, em quem não pode tomar chá.
Perguntas frequentes
Arruda serve para atrasar ou descer a menstruação?
É esse o uso popular, e é exatamente por ele que a planta aparece nos centros de toxicologia. O monográfico da OMS registra que o uso intencional mais frequente da arruda é a indução de aborto, e descreve o que acompanha o efeito: dor hipogástrica e hemorragia uterina.
Só o chá é perigoso ou a planta também?
A planta também, e sem ingerir nada. As furocumarinas da arruda são fotoativas: quem manuseia a folha fresca e depois se expõe ao sol pode desenvolver vermelhidão, bolhas e manchas escuras duradouras. Há relatos desse quadro em crianças que só brincaram perto do arbusto.
Um galho na garrafa de cachaça ou no vaso faz mal?
Contato eventual com a planta viva não é o cenário dos relatos de intoxicação, que envolvem ingestão de infusão ou decocção. Ainda assim, macerar a planta em álcool concentra os princípios ativos, e não existe dose segura publicada para essa preparação em documento oficial brasileiro.
Existe dose segura de arruda?
Não há dose registrada no Formulário de Fitoterápicos, porque a espécie não foi avaliada. O monográfico de toxicologia apenas descreve que o uso tradicional da infusão não deveria passar de 1 a 2 g por dia — o que é uma constatação sobre o costume, não uma recomendação de segurança.
Fontes
- IPCS INCHEM — Poisons Information Monograph 475: Ruta graveolens L. (Programa Internacional de Segurança Química, OMS/OIT/PNUMA): os princípios tóxicos (furocumarinas bergapteno e xantoxina, alcaloides quinolínicos coquisagenina, esquimianina e graveolina, e a metil-nonil-cetona do óleo essencial), o registro de que o uso intencional mais frequente da planta é a indução de aborto, a descrição de dor hipogástrica, hemorragia uterina e aborto por contração uterina e congestão pélvica, o teto tradicional de 1 a 2 g por dia para a infusão, a sequência de intoxicação (dor epigástrica, vômitos e salivação, depois excitação, convulsões, hipotensão, bradicardia e choque) e a fotodermatite por psoralenos após manuseio da planta com exposição solar
- Seak CJ, Lin CC. Ruta Graveolens intoxication. Clinical Toxicology (Philadelphia). 2007;45(2):173-175 (PMID 17364636) — o relato de intoxicação não intencional de uma mulher de 78 anos que desenvolveu bradicardia, insuficiência renal aguda com hipercalemia e coagulopatia após três dias tomando decocção da planta, tratada com hemodiálise, e a conclusão de que o uso de Ruta pode causar toxicidade multiorgânica
- Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição (Anvisa, 2026) — o índice das 85 espécies avaliadas, em que Ruta graveolens não consta: não há fórmula, dose, indicação nem faixa etária registrada para a arruda no documento oficial brasileiro de plantas medicinais
- Anvisa — Disque-Intoxicação: canal gratuito 0800 722 6001, 24 horas por dia, atendido pelos centros da Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica
Escrito por Lucas Silva · Revisado por Lucas Silva · Atualizado em 4 de agosto de 2026